Pouco afeiçoado à tômbola das novidades, são muitas as vezes que melhor defino os meus gostos pelo que deliberadamente não estou a ler. O método, sendo um bocado cáustico, tem a enorme vantagem de reduzir ao mínimo as desilusões e dar sempre por bem empregue o dinheiro e o tempo despendido nas leituras selecionadas.
Bem podem os livros hibernarem anos na estante após a pulsão urgente da compra até ao dia em que misteriosos impulsos tornem a sua leitura imprescindível. Foi assim com “Tirano Banderas” comprado numa qualquer passagem por Badajoz e por motivos que as motivações esquecem (honni soit qui mal y pense) só convocado ao activo no princípio deste ano.
Já lido, apreciado e imaginado, que são estas as fases por que passam os livros, traz-se a obra-prima de Ramón del Valle-Inclán à colação porque a sua leitura inspirou prolongamento por “El Señor Presidente” de Miguel Ángel Asturias que hoje repousa na mesa de cabeceira durante o dia para à noite despertar quando lhe pego. É muito mais divertido os livros sucederem-se na órbitra uns do outros, este a pedir aquele e assim sucessivamente de universo em universo até sentir-se que é altura de mudar de viagem.
O picaresco da edad de oro, o castelhano adocicado e feroz do México e o ritmo truculento da modernidade daqueles épicos anos 20, convertem “Tirano Banderas” numa obra-prima do seu tempo, ou seja, sem uma ruga se lido hoje. É um livro faiscante em que os crioulismos disputam cada parágrafo ao finíssimo léxico clássico, e onde não há página em que não palpite o sangue, o suor e a canícula. Tais elementos são o combustível para a crueldade da narrativa e das personagens, às quais se equivale a escrita cruel de Valle-Inclán.
Publicado em 1926, “Tirano Banderas” foi lido pelo guatemalteco Asturias tinha ele 37 anos, já bem temperados pela luta política, cuja aventura mais trepidante fora a participação no derrube do tirano Manuel Estrada Cabreba. Que a obra de Valle-Inclán haja influenciado a inspiração de Ángel Asturias é um facto palpável quando se lêem ambos os livros de enfiada. Mal sabiam eles, infundidos na esperança típica dos escritores, que a Espanha estava a caminho de décadas “de sofrimento e que a Guatemala dele ainda não se tenha libertado, mesmo já século XXI adentro.
“El Señor Presidente foi escrito em 1933 mas ficou prudentemente guardado numa gaveta até 1946; o autor sabia bem as labaredas e os problemas que chamejavam daquelas páginas. Às rutilantes características da obra de Valle-Inclán, Asturias acrescentou uma elaboração narrativa pejada de acidentes verbais e linguísticos que há quem chame de surrealistas, mas entre nós basta dizê-los vigorosos, porque o amor à língua, não a tomando como um instrumento mas como um mármore escultórico, deveria ser a razão primeira que faz de alguém um escritor.
Se cada uma destas obras isoladamente refulge um brilho intenso, assim concatenadas como foram lidas, parece que nada fica por dizer da malvadez dos tiranos, da sabuja concupiscência dos seus acólitos, da amoralidade que inspiram na oposição e da violenta desesperança que derramam nas sociedades.
Na grave e ensimesmada literatura portuguesa do século XX, abarrotada de Dantas, Torgas, Namoras e quejandos urbano-telurismos, nenhuma obra ousou aproximar-se da vitalidade efusiva de “Tirano Banderas” e de “El Señor Presidente”; assim de longe talvez só “Dinossauro Excelentíssimo” de Cardoso Pires possa sugerir semelhante animação.
Passa ao outro e não ao mesmo, não é JPT?


