Jantámos a comemorar mais do que o 25 de Abril, porque ainda somos do tempo em que. Apesar das crenças, deliberei que não era bem a data da “alvorada da liberdade” o que nos juntava, mas o que vivemos mais adiante, entre 78 e 82. Se não tivesse havido 25 de Abril nunca teríamos sido o que fomos na faculdade, nem teríamos feito coisas que, decorridas estas idades, não lamentamos nem renegamos, mas as guardamos com a imensa benevolência da maturidade.
O 25 de Abril, por mais que haja quem o incomplete em lamentos, o nosso foi afinal podermos ter crescido assim, foi terem-nos sido permitidas, pela confusa tolerância dos pais e pelo desnorte de costumes subitamente descomprimidos, todas as tropelias em que alegremente nos empenhámos. Queríamos mudar o mundo, e a verdade é que contribuímos para mudá-lo, mas não assim como pensávamos, porque foi em preservá-lo tal como o habitámos que o mudámos realmente.
Mas o melhor veio depois do jantar. A Xana abespinhou-se sem razão nenhuma – foi ela que pediu mais uma garrafa de vinho quando já queríamos desbancar – e acabou por não passar a meia-noite onde tanto desejava. Divagámos então por um Bairro Alto distante do nosso dos anos 80, porque cresceu desmesuradamente e já não é o secreto esconderijo da irreverência. Um belíssimo Bairro Alto, digo eu agora, território franco, sem exigir certificado de memória nem teste de consciência, para que nele possam beber, cantar na rua, sentar-se no passeio, todos a quem apetecer fazê-lo sem limite de autenticidade. E a multidão que entupia as ruas, essa gente quase toda mesmo quase toda, embora se calhar entre ela houvesse pais e mães de família, via-se pela míngua de rugas e grisalhadas que não tinha idade para vinte cincos de abris. Dele sabiam o que ouviram dizer e dele estavam tão distantes como da batalha de Aljubarrota, porque tudo o que sucedeu antes de nascermos é pano de fundo, não é existência.
E foi essa a felicidade que me acometeu nessa noite: o 25 de Abril é de todos – juro que não haverá melhor maneira de celebrar o 25 de Abril senão a de tomá-lo como óbvio, como parte da natureza das coisas.

Tens razão, e o que mais me intriga (e desilude, confesso) é constatar que depois de quase 40 anos o 25 de Abril ainda não está devidamente integrado, como seria normal e desejável. Se estivesse, não haveria razão para mais do que o feliz assinalar de uma data importante e decisiva na história do país, em vez deste folclore infindável em que cada um (falo de partidos e personalidades públicas, sobretudo) tenta apropriar-se dela e torcê-la para o lado que mais lhe convém.
Gostei de ler-te, como sempre.
Por isso é que quando ouço “25 de Abril sempre”, acho que se está a dizer uma redundância. Ele está integrado, Ana, em toda a gente, menos naqueles que de tanto o reclamarem não vêem como ele está vivo. O post do nosso jpt não pdoia ser mais exemplar. Um grande beijo para ti, ó borda d’água.
Sim, talvez seja isso. O que se passa é que quem não o integrou é quem faz mais barulho, como sempre.
Outro para ti, ó torricado.
Muito bom.
E eis-nos já no quadragésimo ano, camarada.
Como sempre no 25 de Abril não se fala de África e já agora de Timor. Será do egoísmo que lhe está subjacente?
Se o Porto declarasse a independência e o resto entrasse em guerra civil seria o mesmo?
Caro lucklucky o mundo é maior do que post. Se ler o magnífico texto da Gui sobre o mesmo tema, verá que o 25 de abril foi vivido a posteriori de muitas formas diferentes – cada um teve o seu e se moldou a partir dele. E se ler o belo comentaria da Adriana aqui mais abaixo verá que todos o que por ele passámos temos dele recordações inalienáveis que gostamos de compartilhar.
“e dele estavam tão distantes como da batalha de Aljubarrota, porque tudo o que sucedeu antes de nascermos é pano de fundo, não é existência” – uma boa frase!
A mim não me engana a Cristina, que bem sei capaz de escrever frases tão boas ou melhores.
Oh, muito obrigada.

O “nosso” 25 de Abril foi o termos crescido como crescemos. Confunde-se, identifica-se, em grande medida, com a forma como vivemos a nossa adolescência e nos tornámos adultos. É isso. Quero fazer uma confissão, encorajada pela troca de comentários a este post… Sinto-me muito triste por verificar que não há espaço para alguém como eu comemorar o 25 de Abril, o facto de ter vivido o que viveu, como viveu. E não há espaço –leia-se em qualquer comemoração oficial, promovida por qualquer quadrante político–, porque toda a celebração faz parte de uma agenda política actual à qual estou alheia. Restam algumas pessoas avulsas com quem uma verdadeira e autêntica celebração possa ser feita. Sob reflexão, talvez seja melhor não me sentir triste com isto. Faz parte da natureza das coisas. E é preciso aprender a viver com aquilo que não se pode mudar. Se é que alguém pode deixar de se sentir triste por verificar sob reflexão que é inútil sentir-se triste!
pela confusa tolerância dos pais e pelo desnorte de costumes subitamente descomprimidos: que bem descrito está, José Navarro, era realmente uma sensação de cume de montanha…
Por mais chateada que eu tenha ficado de me terem posto um ano a pastar no nada, o certo é que se não fosse esse ano sabático eu não teria saído 4 meses daqui para fora, em 75, aproveitando esse levantar da guarda dos ascendentes. E não seria de certeza aquilo que sou (se não foi um ‘upgrade’ pessoal foi pelo menos uma conquista de perspectiva, fatal aos 17 anos… abençoado tempo!)
É espantoso como uma data pôs vidas tão distantes e diferentes como a tua e a minha, a vibrar pelo mesmo diapasão. Deve ser isto a que chama história…
O 25 de Abril estará perfeitamente “integrado” (receio que a palavra tenha significados vários), quando não se falar nele como uma identidade própria. Na verdade, quando todas as pessoas contemporâneas da data tiverem morrido.
Alguém fala da vitória do 1º de Dezembro, ou dos avanços do 24 de Julho (vitória dos liberais) ou das conquistas do 5 de Outubro? Não mais. O 25 de Abril será então parte da História de todos e da memória de ninguém. Enquanto houver um sobrevivente, haverá um testemunho.