Karl Theodore acumulava títulos, tanto como nos seus celeiros se amontoava o trigo, oiro da terra. Kurfürst Karl Theodor von der Pfalz e Kurfürst von Bayern, o que trocado por miúdos leigos e lusos dir-se-á Duque da Baviera e Grande Eleitor do Palatinado do Reno – um dos mais notáveis Príncipes-Eleitores do Sacro Império Romano.
De tanto potencial e poder resultou uma figura por demais dada às artes – patrono das de palco, das ornamentais e das filosóficas, famoso amigo de Voltaire – e a essoutras artes da caça, tanto da grossa do bosque como da fina e feminil de salão. Descreviam-no portanto como um diletante, sem vontade política, preguiçoso e egoísta, rodeado de bastardos, tão prolíficos que deles nem tinha vagar para decorar os nomes.
Em 1763 a pintora Anna Dorothea Therbusch, píncaro do Rococó germânico, e que esplêndido de volutas e panejamentos ele foi, talvez sem igual, fixou a imortalidade de Karl Theodore a óleo, preservado hoje no museu de Mannheim.
Vem este portento a propósito de uma comparação. 13 anos antes o preciso Thomas Gainsborough havia retratato Mr. and Mrs. Andrews. O casal encosta-se a um canto da tela para que a maior área pictórica registe a extensão dos seus domínios. O Cavalheiro confirma o seu poderio com espingarda e cão, símbolos do ócio senhorial, e para que não restassem dúvidas, encosta-se sobranceiramente com displicência e de perna traçada, ao cadeirão onde posa a sua hirta Senhora.
Robert Andrews era parte da gentry rural inglesa, o que não coibiu seu pai de ter ampliado a fortuna com generosos juros de empréstimos financeiros e no comércio com as colónias, para o qual dispunha de uma frota naval. Em 1748 Robert desposou Frances Mary Carter que trouxe no dote as propriedades de Aubrey, à frente das quais ambos posam. O pai de Frances, também ele era um industrial têxtil que prudentemente converteria o capital em terras.
Duas Europas em contraste tão exposto que o podemos ver explicado em dois quadros. Uma Europa até hoje pouco alterada desde esta segunda metade do séc. XVIII, no dealbar do Iluminismo e das Revoluções .
E Portugal?
Portugal na mesma, como se pode atestar no pobríssimo retrato de D. Lourenço de Lencastre, Marquês de Minas e Conde do Prado pelo casamento, muita grandeza porém muito paroquial, oiros brasileiros mas benzeduras de vilão. Obra do sofrível Vieira Lusitano, a mão direita de Lourenço será igual à de Karl, a fazer um gesto que sublinha o óbvio poderio, mas na esquerda, em vez da arma de fogo em descanso blasée de Andrews, olhem-na toda pimpona de canos para o ar. Ao peito, nem os arminhos teutónicos ou a casaca mercantil do inglês; ao baú dos avoengos há-de ter ido vasculhar a armadura negra de pretéritos heroísmos, reclamados como seus por mera infusão sanguínea.
Já éramos tão poucochinhos naqueles dias.




Pequeninos até na crítica, com um retrato truncado, mas que se explica como se estivesse inteiro.
Truncado?
http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx?p al=truncado
Pela desconversa não vamos lá. Faça o favor de conceder que conheço o significado da palavra “truncado”. Não entendo é qual dos retratos está truncado.
Peço desculpa, não quis insinuar que desconhecia a palavra (eu é que não estava certo que existia e daí a minha dúvida), mas o retrato pintado por VL não me parece completo. Não conheço a pintura original, devo dizer, mas não é normal num retrato deste género vermos a figura com os nós dos dedos e o cotovelo cortados de um lado e de outro.
Caro Vasco, junto envio link para ficha de inventário do retrato de Vieira Lusitano. Digamos que a reprodução deste post tem uns milímetros a menos e a qualdiade da imagem (da luz) não é a melhor. t/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=2 50972
http://www.matriznet.imc-ip.pt/MatrizNe
Ok, é a moldura… Dá para ver que é bastante larga e rouba ao quadro uns 2 ou 3 cm de cada lado. Já agora, como observa, note-se como o quadro melhora substancialmente numa reprodução mais fidedigna. O de Gainsborough é notoriamente superior (é mais moderno, até, em técnica e visão) mas também não é preciso ter vergonha do nosso.
Podia ter escolhido este: iD8_tI00I/AAAAAAAAAGc/UZwtMAGZmOk/s1600/R etrato+do+Marqu%C3%AAs+de+Pombal.+Quadro+a+ %C3%B3leo+pintado+por+Claude+Joseph+Vern et+e+Louis+Michel+Van+Loo,+1767..jpg
http://2.bp.blogspot.com/_SQ6arkkzKdU/S8
Podia. mas o retato de Vieira Lusitano tem a particularidade de ser exactamente do mesmo ano (1750) do fabuloso Gainsborough e de ser da autoria de um pintor nacional, assim tentando comparar o nosso enorme atraso pictórico relativamente a outras nações coevas.
Sofrivel Vieira Lusitano? tão poucochinho este provincianismo que nos leva a só ver qualidade no que se faz lá fora e nem colocar as coisas em perspectiva…
” assim tentando comparar o nosso enorme atraso pictórico relativamente a outras nações coevas.”
Será mesmo?
Talvez, realmente este aqui é uma grande porcaria (50 anos não é muito tempo…): http://4.bp.blogspot.com/-vDTC9asmA6I/Tt Z-8mTde3I/AAAAAAAAFSk/r3ZhsKkWtOE/s1600/3 87893_1643464023220_1735462520_844943_19 04233415_n.jpg
Vieira Portuense (1765-1805) não é Vieira Lusitano (1699-1783)
Excelente retrato, o que o José de Andrade pintou.