Homem lobo do homem


enlil,

Yang Zhengzhong, “Família feliz”, 1995

 

Uma das novidades que poderemos considerar filosóficas do novo século é a nascente ordem natural que se começou formar nalgum senso comum.

Durante milénios havia uma linha na natureza que separava o animal racional (ou espiritual) do animal irracional ou instintivo. O ponto desta separação seria a Consciência – de si, do seu estatuto, da sua diferença e distinção face à Natureza. Nem valerá a pena dilucidar aqui esta coisa da “consciência” dada a abundância de tratados que versam sobre o tema só nos últimos 4.000 anos.

Esta fronteira está ser criticada e tem vindo a ser removida para outra região. Segundo os adeptos das teorias de Peter Singer (não resisto ao mau gosto de chamar a atenção para as suas dissertações sobre o infanticídio), satélites e discípulos, o “especismo” é um erro, ou seja, a discriminação entre animais segundo uma hierarquia de espécies não deve ocorrer porque, na sua particular interpretação darwiniana, se todos os organismos físicos estão num continuum natural, então também deve haver um continuum ético entre eles.

Deste modo a fronteira deve ser traçada entre, por uma parte, os animais “sencientes”, aqueles que estão biologicamente aptos a experimentar prazer e dor e os restantes, noutra parte. Na prática isto significa que entre ti, leitor, e o teu gato há uma identidade que não existe entre o teu gato e o carapau que ambos comeram ao almoço. A nivelação entre animais sencientes, tomados como um todo, procede de uma clara opção filosófica em que se dá primazia à esfera da ética sobre todos os outros campos do saber.

E é aqui que a porca (com o devido respeito) torce o rabo, porque se confunde a dor, que é um sistema de alarme fisiológico proporcionado pelo sistema nervoso, com “crueldade” que é o acto de provocar dor intencionalmente. “Intencionalmente” é de facto a palavra-chave: quando o leão ferra as suas mandíbulas no esófago e na carótida do búfalo, matando-o muito devagar por asfixia e exaustão, estará a ser cruel? Presumo que não, por uma simples razão: ele não é racional, logo não delibera em termos éticos, logo sabe o que é a dor mas ignora o que é a crueldade.

Usando outro caso concreto:

O Zico não teve culpa do seu acto, pelo que não deve ser abatido, reclamam os defensores de uma amnistia para o cão que atacou uma criança. Este argumento é fatal precisamente para quem o profere. Se o conceito de culpa não é imputável a um cão, quer dizer que a ética humana não cobre essa situação que entre os humanos seria clara. Ou seja, não há um continuum ético. Mais: se querem dar uma “segunda oportunidade” ao cão, que não a reivindicou (julgo) e não a reconhecerá (presumo que a um cão será estranho o conceito de mortalidade), o que estão a fazer é do mais radical etnocentrismo, pois pretendem impor os ditames éticos intrínsecos a uma espécie sobre outra.

Seria mais sensato exigirem que o cão fosse julgado por um coletivo de juízes constituído por um homem, uma vaca e um panda; pelo menos assim combater-se-ia coerentemente o especismo entre animais sencientes.

22 comentários em “Homem lobo do homem”

      1. Achei que era apenas uma piada em cima de outra piada, combatendo coerentemente a discriminação dos (agora chamados) géneros e/ou das preferências sexuais…

  1. É mais um comportamento a sofrer o “efeito do pêndulo”. Uma tentativa moralista sem qualquer tipo de fundamento estóico que procura encontrar um suposto equilíbrio –pergunto-me até, para o bem de quem: o cão? (neste caso), ou o ego pessoal?– sem acarretar reais consequências ou efeitos de tais atitudes, na realidade, contra-produtivas.

    Por alguma razão sempre me desagradaram activistas. Tendencialmente transformam a defesa de uma causa em algo extremo, o que per se desvirtua automaticamente todo o bom-senso que pudesse existir em dita defesa/causa.

    1. O pêndulo começa a deslocar-se de maneira incontrolável a partir do momento em que atribuímos princípios éticos aos animais. Ou seja, os cães não têm direitos nem culpa.Culpa tem o dono além do devr de o ter educado. à falta disto, o cão mostrou-se perigoso para os humanos, há, pois, o direito de o anular. Abatê-lo é uma solução decente.

      1. Peço desculpa, mas o cão tem direitos! Tem direito a uma vida digna, tem direito a que não o façam sofrer propositadamente, tem direito a que o respeitem enquanto ser vivo.
        Um cão sofre e alegra-se, tem sentimentos e vontades próprias, é capaz de estabelecer uma relação sentimental com uma pessoa. Um cão não é um objeto, que se elimina, ou se deita fora, quando incomoda. Um cão é suscetível de ser educado, tem a faculdade de aprender e de ser criativo! Um cão comunica connosco, diz-nos imensas coisas sem palavras, se aprendermos a comunicar com ele. Uma das coisas que mais me emociona, na minha vida, é o olhar de satisfação da minha cadela, quando eu entendo o que ela me quer dizer.

        Tenho cão em casa há mais de dez anos, já frequentei um clube de treino de cães, onde lidei com todas as raças, sei do que falo!

        Qualquer ser vivo tem direitos pelo simples facto de ter nascido, pelo simples facto de existir!

  2. Se o propósito do Zico era lançar um alerta nacional, para a discussão ética sobre o estatuto jurídico dos canídeos, parece ter conseguido.

    O problema na solução proposta é que seria sempre o homem a interpretar a decisão da vaca e do panda. Até porque vacas e pandas não querem problemas com o Zico, pelas retaliações evidentes.

    No caso, importa saber o que é aquisição genética e o que é aquisição “educativa”. A aquisição genética pode estar no comportamento social do Zico que só respeita o “alfa” da matilha, e é tendencialmente perigoso com os restantes. A aquisição educativa feita em função disso, não liberta o Zico da presença constante de um “alfa educador”, para evitar problemas.

    O problema neste caso não é tanto a “consciência de si”… mas é mais a “reflexão no outro”. Isso parece derivar de um “sentimento de mãe” nos mamíferos (e aves), que são capazes de se colocar em risco para defender os filhos pequenos. Já os “machos” colocam-se mais em risco para proteger a propriedade – território de caça e consortes.

    E… vendo as coisas a este nível, conclui-se que tal como uma cornadura, muita inteligência continua a ser aproveitada apenas por causa destes objectivos antigos – família, posse, sexo e sobrevivência.

    1. Que os cães sejam educáveis estamos de acordo. É precisamente essa capacidade (que não é cognitiva, note-se) o que distingue os animais domésticos dos outros – uma descoberta humana com milénios. Um miserável humano educou este cão, ao que parece, para combates proibidos por lei, não para guarda ou pastoreio, que são as tradicionais tarefas que pedem cães agressivos. Ora um animal destes não está capaz para o convívio humano.

  3. É um assunto complicado. Se, por um lado, o cão não reinvidicou a “segunda oportunidade”, por outro, ao matá-lo, ele está a pagar pelos erros dos outros: os donos do cão, os verdadeiros responsáveis pela tragédia.

    Penso que a pena de morte serve, acima de tudo, para que determinada pessoa, um assassino, não torne a matar. Num cão, esse pressuposto não se aplica, porque ele não tem consciência do que fez. A não ser que o único motivo para a pena de morte seja a vingança.

    1. Cristina, que o dono seja o verdadeiro responsável não há dúvida. Por isso mesmo, acerca do cão não se pode dizer que “está a pagar” e que sobre ele recai uma “pena de morte”, porque o cão não tem consciência da culpa nem da pena, nem ideia de vida ou de morte (não tem consciência da mortalidade). Matá-lo faz sentido como acto de higiene pública, não é pois indecente. E deve (os deveres estão todos do lado dos humanos) ser feito de forma misericordiosa.

      1. Os cães não têm consciência da mortalidade como nós, não pensam que um dia vão morrer. Até aí concordamos. Mas, se um cão está doente, em fase terminal, ele sabe que vai morrer! E se está num sítio onde se prepraram para lhe dar a injeção fatal, ele também sabe que vai morrer! Os cães são, em certos aspetos, extremamente sensíveis e apercebem-se de certas coisas. Por isso é que os veterinários (ou, pelo menos, os veterinários conscienciosos) insistem para que os donos estejam ao lado do cão, que não o deixem sozinho, quando ele tem de ser eutanasiado!

  4. Durante muito tempo fui comentadora assídua do Delito. Nem sempre com o mesmo pseudónimo, mas sempre com a mesma persona . Nem sempre concordando com o que aqui lia.

    Quando sentia necessidade, exprimia respeitosamente a minha discordância, explicava os meus argumentos, e era sempre nos mesmos moldes que a contra-argumentação me era apresentada desse lado.

    Para mim, o Delito constituía um espaço de debate muito interessante, já que os autores do blog e restantes comentadores me pareciam pessoas muito mais interessadas em chegar à Verdade, do que em terem simplesmente razão. É neste, e apenas neste pressuposto que que eu acredito que podemos crescer, evoluir, e daí partir para tornarmos um mundo num local melhor do que era antes de o termos “tocado”.

    Ora, desde de que por aqui se deu início à discussão do tema Zico “, tema que a mim me é sensível e motivou a minha intervenção na caixa de comentários, já fui “besta”, “deficiente”, e já mandaram a minha “sacrossanta racionalidade para o diabo”. Já me mandaram “calar, crh !”, já me mandaram “catar”, e agora dizem-me que sou uma etnocentrista radical, para não mencionar a finíssima ironia com que aos opositores do abate do cão (onde eu me incluo) se sugere agora um coletivo de juízes constituído por um homem, uma vaca e um panda”.

    É, portanto, tempo de me afastar. Aquilo que motivava o meu respeito e interesse pelo Delito de Opinião deixou de existir. Ter uma opinião tornou-se, de facto, para vós, um delito.

    Não voltarão a ter os meus comentários, nem a merecer o meu tempo.

    Cumprimentos.

    1. Cara A., lamento este seu comentário e mais lamento que se afaste. Apesar da ironia (um antigo e platónico modelo retórico), não utilizei insulto ou menosprezo intelectual, pelo contrário. Não me faça a desfeita de considerar que não a levei a sério, que não tentei fazer uso de argumentos racionais (que a meu ver desembocam em paradoxos), que não a pus em digníssima companhia, como o filósofo Peter Singer (do qual discordo em absoluto mas cuja reputação fala por si). Preferia de longe que em vez de se abespinhar argumentasse contra o meu post, pois se houve alguma provocação foi essa.

      1. Volto para um derradeiro comentário.

        Proponho que esqueçamos por momentos este trágico acidente e façamos um raciocínio mais abrangente:

        Os cães que povoam as nossas cidades, e em alguns casos, as nossas casas, descendem do lobo selvagem, que há mais de 100 000 anos começou a ser domesticado pelo Homem (a data não é consensual, no entanto). As diversas raças que existem hoje em dia não são naturais. Resultam, isso sim, da manipulação humana – os cães potencialmente perigosos, são assim por nossa culpa – a dado momento pareceu-nos vantajoso criar máquinas de matar. Adaptámos e aperfeiçoámos esta espécie animal para servir os nossos próprios interesses (e não faço aqui nenhum juízo de valor), e para nosso próprio proveito.

        No entanto, a domesticação do cão trouxe como consequência a sua descapacitação para sobreviver em meio natural e de forma autónoma. Depende, assim e por nossa própria culpa, totalmente de nós (em sentido lato, obviamente).

        O cão-polícia, é-o graças à “nossa” intervenção. O cão-guia que conduz um cego, é-o graças à “nossa” intervenção. O cão-pastor que guarda o rebanho, é-o graças à “nossa” intervenção. O cão-de-guarda que protege as nossas propriedades, é-o graças à “nossa” intervenção. O caniche-filho-amigo, é-o graças à nossa intervenção.

        E assim me aproximo daquele que para mim é o cerne da questão:

        O cão faminto e doente com que nos cruzamos abandonado nas ruas, é-o graças à “nossa” intervenção. O cão detentor de umas mandíbulas potencialmente letais, que está dentro de uma casa, é assim e está assim, graças à “nossa” intervenção.

        Se acho mal que um animal mate uma criança? Obviamente que sim. A minha espécie está, e sempre estará em primeiro lugar na minha lista de prioridades.

        Mas isto não implica que as outras formas de vida não mereçam também o meu respeito, e acho que a nossa sociedade tem de reflectir sobre isto. Estes seres vivos, que nasceram porque nós assim quisemos e permitimos, e não porque a natureza assim o ditou, graças à nossa milenar intervenção que alterou o equilíbrio natural, devem merecer o nosso respeito.

        E enquanto não pararmos para pensar um pouco sobre isto, as histórias de Dinizes atacados e mortos por Zicos não deixarão de acontecer, assim como não deixarão de acontecer os pornográficos milhares de abates anuais de cães nos nossos canis, porque alguém decidiu que o cão que tem em casa se devia cruzar com a cadela da vizinha (porque os bebés são tão queridos!), mas depois percebe que não arranja donos para as novas bocas e que a ração anda cara, e então mata-se literalmente o problema. E eu acho que esta palhaçada tem de acabar. Acho que a “vida” em sentido lato, deve merecer o nosso respeito. Acho que os seres vivos que nasceram porque NÓS assim o quisemos , ou porque NÓS assim permitimos, devem ter o direito a viver dignamente.

        Acredito que não temos o direito de decidir pela morte de um ser vivo de forma leviana, sobretudo se essa sentença de morte resultar em primeira instância de um comportamento irresponsável e criminoso da nossa parte.

        E se não conseguimos conviver sem que as carnificinas aconteçam pontualmente, pois que se acabe com a convivência. Esterilizem-se TODOS os cães que connosco coabitam, criem-se reservas naturais como se faz para o lince ibérico, para a águia real ou para o camaleão, e devolva-se ao meio selvagem aqueles que de lá talvez nunca devessem ter saído.

        Mas respeitemos a vida. Sobretudo quando a nossa própria evolução nos permitiu perceber que partilhamos com estes seres, pelo menos de forma parcial, a capacidade de sofrer e de sentir.

    2. Quem disse que em alturas como estas se devia “enviar a sacrossanta racionalidade para o diabo” fui eu e caso não tenha percebdio, estava a falar dos pais da criança morta pelo cão, não de si. Ser absolutamente racional não só é uma impossibilidade como, a acontecer, seria próprio de um robô. Espanta-me como é que alguém que defende tanto os Zicos não perceba isto.

    3. E da criança, lembram-se? Do nome pelo menos….

      Nesta vida, tenho como certo que ela não tem segunda oportunidade.

      Boa noite a todos

  5. Talvez estabelecer desde já uma escala para os que ficaram apaixonados pelo bicho, a começar na próxima semana. Na segunda-feira, fica com ele o primeiro signatário da petição. Na terça-feira, o segundo e assim sucessivamente. Cada um fica responsabilizado, sem qualquer contemplação, pelo que acontecer enquanto o bicho estiver à sua guarda.

  6. Consequências da sobre-civilização.

    Quando as camadas já são tantas que já se esqueceu os valores que a construiu.

  7. A cultura ocidental, das “religiões do livro” estabeleceu uma diferença excessiva entre ausência de consciência de si nos animais e presença dessa consciência nos seres humanos, ao negar de forma absoluta a existência dessa consciência nos animais. Estou cada vez mais convencido que há uma graduação nesse grau de consciência, reconhecendo contudo um grande salto na espécie humana. Mas o nosso conhecimento insuficiente dessa graduação leva-me a concordar quase completamente com a sua frase:
    “…o cão mostrou-se perigoso para os humanos, há, pois, o direito de o anular. Abatê-lo é uma solução decente.”, apenas acrescentando que além de haver o direito de o abater existe ainda o dever de o abater.

  8. Uma teoria que tem como “output” estes resultados é –na minha óptica– a prova acabada de que está errada. Ou seja, os seus resultados não uma redução ao absurdo da teoria. Dito isto, acrescento que sei que o assunto á controverso e ainda está muito vivo na disputa filosófica. O conceito central sobre o qual toda a discussão gira é o conceito de pessoa, sobre o qual, de resto, Singer propõe uma nova definição. Também me parece claro que a mera redefinição deste conceito não resolve o problema. Apenas passamos a falar de outra coisa; quando o problema inicial fica ainda por resolver.

    Adriana

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