Coisas mesmo boas de 2013 – 1 novela


enlil,

Paulo Catrica, série stadia, 2004

 Catarina Botelho, “O tempo e o modo”, 2011

 Duarte Amaral Netto, s.t., Lisboa, 1999 

  

Deve ser problema meu, mas não cessam de me surpreender a avareza lexical e os tratos de polé perpetrados na sintaxe, nos mais célebres literatos nacionais. Acresce o excesso metafórico, a proliferação de comparações (se a conjunção “como” pagasse imposto a dívida nacional estaria paga), o chuto para diante que são os advérbios de modo terminados em “-mente” (idem sobre a cobrança de taxa), a imagética rudimentar, ou os enredos enrolados.

O esforço de atravessar estes dislates poderia ser compensado, à moda de Kerouac, por uma vitalidade, uma experiência existencial e uma urgência de escrita, capaz de levar por diante a palpitação da leitura. Mas nada, népias, nihiil; estes moços consagraram-se depressa, tão depressa que se agarraram para nunca mais largarem às bebidas grátis e frias dos beberetes literários, como (olhá comparação ó urso!) os macacos aos cocos.  

Tudo isto é triste, é nacional, é fado e são águas que não movem moínhos. “Ora andante” nas palavras do inspector Elias Santana.

Contraste com tal cenário, pro nele sobressair, foi a novela “As primeiras coisas”, de Bruno Vieira Amaral (BVA). Teve o autor receio que vissem nela uma espécie em voga de “turismo literário suburbano para dar a conhecer aberrações de bairro social aos leitores burgueses da capital.” E desmente tal pretensão afirmando que a sua escrita andou por aqueles lugares do outro lado do Tejo e doutro mundo, porque foi de lá que ele desembarcou. Escusava de tais precauções – felizmente percebe-se, ou melhor, sente-se isso.

BVA parece não ter grande crença no storytelling porque os vários acidentes novelescos deste livro são as personagens que os exalam ao serem descritas. (Mal comparado: sai Hawks, entra Godard). Esta técnica narrativa não é nova, mas tal cepticismo resulta particularmente aceitável: isto é sobre gente que não vai para lado nenhum, que veio aqui parar e aqui ficou, sem ter para onde ir; não têm história, só histórias, nem vida, só vidas, muito menos esperança – só esperanças, sobretudo que os dias passem depressa e as noites sem acidentes. “As primeiras coisas” é, por isso, um livro exacto, um feito assinalável.

Sem desprimor para ninguém, se antecedermos a leitura de “As primeiras coisas” com a de “O retorno” de Dulce Maria Cardoso, teremos em 584 páginas, escritas entre 2011 e 2013, toda a história, motivos, sensações, perspectivas e consequências dos deserdados das colónias, mais conhecidos por “retornados”. Foi preciso virem os filhos para serem contadas as desventuras que sucederam aos pais – mas não é para isso que servem os filhos, literariamente falando?

 

PS – As fotos acima só estão aqui porque foi isso que eu quis dizer.

Coisas mesmo boas de 2013 – 1 filme


enlil,

 

Afinal Sarah Polley não era filha de seu pai. É isto que ficamos a saber a meio do documentário realizado pela própria. O que sucede na outra metade? Ela espoja-se a carpir mágoas? Faz um ajuste de contas com a família e as suas hipocrisias? Arrasa com desassombro a sociedade e que vivemos? Exibe o seu estoicismo? Estraguei o enredo ao contar aqui o facto central de “Histórias que contamos” (“Stories we tell”)?

Muitos filmes são excelentes por aquilo que não mostram nem dizem. É o caso deste. Sarah Polley não é narcisista, nem se faz vítima; não julga, mas não se coíbe de comentar (ou seja de dar a ver as emoções contidas) como faria se acreditasse na farsa da objetividade; não disseca as emoções e os factos mas – e creio ser isto que faz de “Histórias que contamos” um filme prodigioso – revela e pondera o modo como conta estes acontecimentos.

Filha de actores, actriz ela própria, Sarah Polley sabe bem como se esbate a linha entre a representação e a interpretação – onde quer que ela esteja. E com este filme percebe e dá-nos a perceber que a realidade tem uma imaginação que supera a humana e que, desde a preponderância do Youtube, o documentário é apenas outra maneira de contar histórias.

Indignações


enlil,

Daniel Albrigo, “sem título”, 2009 

 

Sempre que alguém se declara indignado (indignadíssimo, zangado, quase revoltado, etc…), de quem me lembro irremediavelmente é de Dona Maria I, a Louca. Ninguém mais do que ela se terá indignado e com justa razão.

Enquanto pela Europa começavam a bruxulear as Luzes, em Lisboa Maria de Portugal não conseguia dormir, porque mal fechava as pálpebras via seu augusto pai lambido pelas labaredas do inferno, onde fora sem dúvida parar por conivência com as impiedades do Pombal, esse pé-de-cabra e cúmplice dos pedreiros. Como se não fosse punição que bastasse, durante o seu reinado Maria I padeceu o terramoto, soube da decapitação de Luís XVI de França pela turbamulta tricolor e morreram-lhe nos braços, em menos de um par de anos, seu marido (o apagadíssimo Pedro III, que além de real consorte era não menos real tio da Rainha), seu primogénito, José como o avô, sua filha e genro, todos levados pelas bexigas doidas. Que também lhe usurparam Frei Inácio de São Caetano, confessor privado da Rainha e a luminária que lhe fizera ver quão grandes seriam os pecados dos Braganças para que tantas desgraças amaldiçoassem o reino que lhes fora confiado pela natureza divina das coisas.

Isto sim é que é de pôr alguém louco de indignação.

Nesta era, provavelmente menos feroz, em que vivemos, ainda há, todavia, quem se indigne imensíssimo, mas em vez de rojar-se em penitências descabeladas como Dona Maria I, reclama estranhamente uns quaisquer diretos conexos por via da superioridade moral inerente à indignação. É confuso mas é mesmo assim. Tenho cá as minhas dúvidas que não seria para impedir que se indignassem que a pide espancava democratas, porque naqueles calabouços e em tais aflições sabia-se que a indignação é um mero estado de espírito intangível às sevícias, logo, quem lá fosse parar alguma coisa de útil haveria de ter praticado.

Mas hoje em dia, dir-se-ia que é suficiente para ter ar de justo que um se indigne e continue de camisa abotoada nos punhos, sem fazer nada por si nem pela vida. Talvez por isso – há-de ser defeito meu – me pareçam os indignados contemporâneos assim a dar para o reaccionário.

Livros de cabeceira (3)


enlil,

 

Deve haver um Murphy que ponha em forma de lei natural o modo como os livros se acumulam junto à mesinha de cabeceira, cada vez que são retirados, sem regresso, da estante. Nem que seja para lhes consultar umas linhas que me apetece reler, um episódio que me ocorreu recordar, uma frase de cujo encadeado me quero apropriar, vou ao escritório acordar o livro do seu sossego, racho-o ao meio com os dedos à procura da página certa, roubo o que nela se preserva e depois abandono-o, de barriga para cima, como um animal saciado. Detesto ler na cama, fica quente de um calor desconsolado, mas adormeço com os livros ao lado – a gente cá se entende.

Quem são os parolos?


enlil,

O problema deve ser meu, terei perdido o sentido de humor, mas não consigo ver onde está a piada deste cartaz que tem feito rir tanta gente.

Será porque o candidato obviamente não teve dinheiro para recorrer aos preclaros serviços de uma agência de comunicação e só conseguiu produzir um cartaz tosco?

Ou será mesmo a questão do cemitério que dá vontade de gozar? Se for este o caso, confesso-me surpreendido. Um cemitério é um espaço finito e murado, rodeado de propriedade privada por todos os lados. Em certas aldeias e vilas mais antigas, é frequente a sobrelotação dos cemitérios. Ora como eles estão a cargo das Juntas de Freguesia e estas não nadam em dinheiro, é por vezes dificílimo alargar o cemitério. Se dissessem a um lisboeta que o pai tinha de ser enterrado em Almada porque não havia lugar nos cemitérios municipais de Lisboa, não creio que a família desatasse às gargalhadas…

Que a questão dos enterros tem alguma importância, prova-o, no séc. XIX, a Maria da Fonte, uma guerra civil cuja origem deveu-se, entre outras, à introdução de normas higiénicas que acabaram com as sepulturas dentro das igrejas ou ao lado delas, e obrigaram a construção de cemitérios lá longe, no meio do campo. Isto suscitou o horror das massas campesinas, que se ergueu na Patuleia. Há quem diga que esta palavra deriva etimologicamente de “patolo” ou seja, de tolo, rústico, ou parolo como diríamos hoje, mas há quem afrme que vem de “pata-ao-léu”, ou seja a populaça de pé descalço.

Ambas as versões vão dar ao mesmo e vêm ter aos nossos dias – tal como no séc. XIX a burguesia urbana da lusitânia continua a fazer pouco de aldeões e vilões. Evoluiu pouco em quase 170 anos, eu acho… 

Caninamente


enlil,

O mastim que supostamente trucidou uma criança (o prudente advérbio de modo deve-se ao facto de a magistrada não ter dado como provada uma relação de causa e efeito entre as dentadas do pitbull e a morte da vítima) foi entregue no princípio deste mês, assim deliberou o tribunal, à guarda da Associação Animal.

A Sra. D. Rita Silva, responsável por esta organização, tendo todos os motivos para celebrar semelhante decisão, deu largas à sua filosofia:

“Vamos chamá-lo Mandela, porque tal como o líder sul-africano este cão também é um símbolo de liberdade. Esteve preso sete meses sem saber porquê, tal como Mandela esteve preso mais de duas décadas”.

“A ANIMAL dá SEMPRE nomes de humanos ou de outros animais aos animais que resgata. Fá-lo SEMPRE como uma homenagem.”

“Desconfiamos que pode ter problemas de saúde. Depois, não excluímos o recurso a um comportamentalista animal e a uma especialista em recuperação de animais agressores.”

No contexto destas afirmações não surpreende que a senhora tenha afirmado, seriamente e sem angústias existenciais, que um cão possa ter consciência da injustiça do seu encarceramento, quem sabe se expressando com articulados uivos e latidos as suas razões. Dar ao bicho nome de gente é simbólico, ou seja, revela uma ideologia. Já dada como garantida a formidável divisão de toda a fauna terrestre entre animais sencientes e não-sencientes, anulando, assim, a vetusta distinção entre racionais e irracionais, está claro que chegou o momento de proceder à humanização de certos mamíferos, nomeadamente aqueles que foram domesticados ou, talvez em melhor concordância com o pensamento de Rita Silva, que nos domesticaram.   

Tresleituras


enlil,

 

A propósito do recém-anunciado encerramento da Livraria Sá da Costa uma venerável critica literária & jornalista cultural recorda o fecho da Livraria Portugal e a sua substituição por uma pastelaria, para imprecar com amargura: “nunca passo pela Rua do Carmo sem um abalo e nunca resisto a desejar que as pessoas que estão sentadas a comer brioches e queques coloridos no lugar onde antes havia um balcão de livros, pessoas que recomendavam leituras, memórias de tanta gente – minhas também – e de uma cidade, se engasguem com as migalhas.”

Em jovem cheguei a supor que os livros e o amor por eles nos tornariam pessoas melhores, mais cultas e cosmopolitas, mais tolerantes e generosas. Mas conforme fui lendo um pouco mais (curiosa contradição), também fui percebendo que as maiores maldades que a humanidade perpetrou foram inspiradas em livros, uns sagrados, outros idolatrados.

Confesso que me impressiona bastante que alguém deseje a infelicidade ou o mal dos outros como forma de compensar a dor que sente. Mas esta cultura do lamento, que tão candidamente a autora expõe, procede de uma ética altiva, em que faz prova de refinamento o sentimento de superioridade intelectual e o despeito pelos miseráveis ignaros que não partilham os meus inteligentíssimos gostos. Todavia, quem diz viver rodeado de bestas talvez devesse ponderar se foi ali parar por engano ou se não fará parte da manada.

Haka


enlil,
Na televisão parece tradicional e divertido, mas diz quem recebeu um haka de frente que é mesmo aterrador, pois sabe que dentro de minutos será atropelado por aquelas empolgadas massas musculares. Geralmente os adversários observam de longe o haka neo-zelandês simulando tranquilidade. Mas o embate entre os all blacks e a França no Campeonato do Mundo de 2007 ficou para a história; enquanto os ilhéus evoluíam as suas contorções guerreiras os gauleses não se intimidaram e foram avançando em formação entrelaçada até ficarem a centímetros do adversário – olhos nos olhos.

Os franceses ganharam o jogo.

 

 

 

Dá-me música


enlil,

Tudo que acontece já foi dito e, sobretudo, cantado – nada de novo sob os céus. E, como de costume, há várias soluções sem sair do mesmo sítio.

Não sei porquê, ontem à noite esta canção ocupava-me a cabeça, sem conseguir parar de a cantarolar. E o melhor é que dela existem duas sublimes versões, uma pungente, obviamente de Billie Holiday, outra desafiante, e muito cool, de Ella Fitzgerald. Billie lacrimeja de dor a pedir-nos empatia pelo mal que lhe fizeram, Ella relata o drama com a voz desprendida de quem sugere que a coisa não fica por aqui.

Faça o leitor a fineza de escolher a versão que pretende, que isto hoje é à vontade do freguês como parece estar na moda. Ah mas a letra…

 

 

 

Grandes progressos


enlil,

 

blake devil.jpg

William Blake, “Demónio”, circa 1810

 

Não há conforto maior do que ter explicação para tudo. Ou melhor, uma explicação para tudo; melhor ainda: uma explicação rápida e simples que resolva tudo. Convenhamos que o “o penso, logo existo” de Descartes é um bocado preguiçoso e o barbudo de Trier complicou a questão com não menos que 10 teses. E assim por diante. Mas eis que um cientista social, um doutor e português, senhores, destrinçou o enigma definitivamente:

“O Humanismo renascentista e Iluminismo setecentista recusaram a transcendência do mal como incompatível com a dignidade humana. O pecado original foi rejeitado por razões ideológicas. Assim, os últimos séculos não consideram a possibilidade de Satanás.” Corolário: “Quem não acredita no diabo acaba vendo-o em todo o lado.”

Nobel já para César das Neves! E logo da medicina, porque a sintética teoria (qual teoria – teorema!) tem profundas implicações clínicas: “o verdadeiro campo de batalha entre o bem e o mal é não a política e a sociedade mas o meu coração.” Fica pois certo que da esponja encefálica nem a glândula pineal se aproveita; é mesmo no músculo cardíaco que a moral (deveria ter escrito em maiúscula?) se digladia e Satanás, Belzebú, Lúcifer, ou lá que nome tem o “mal concreto”, se estabeleceu. Para já e de imediato, isto explica umas palpitações que me acometeram ontem, julgava eu que era comida, afinal deve ter sido insídia do mafarrico por causa de uns pecadilhos que me envergonha dizê-los aqui.

Perante tamanha descoberta teleo-cárdio-sócio-filosófica, a humanidade aguarda, com extrema ansiedade, quiçá em transe místico, que César das Neves decidida se mefistófeles reside efetivamente nos glóbulos vermelhos cor do demo, nos brancos que são vorazes, nas sonsas plaquetas ou no plasma que é esquivo. Há que precisar estas coisas, senão fica a missa a metade.

Cenas favoritas de filmes (7)


enlil,

Em 1991 Lars von Trier estreia “Europa” e ascende ao galarim do cinema. Qualquer espectador prudente sabe que é atingido pelos filmes, dependendo do humor que tinha quando o viu, do estado de espírito que a vida lhe proprocionava naquele momento, do maior ou menor interesse da companhia ou, mesmo, da dureza da cadeira. A mim, “Europa” atravessou-me como um raio de luz negra, definitivamente esclarecedor. Muitas são as vezes que o recordo, a sussurrar-me ao ouvido explicações para o que ao meu redor vai acontecendo. Hoje, por exemplo, não consigo livrar-me da sequência inicial de “Europa”, a repetir-se na minha memória.

 

 

SNAFU – 2


enlil,

O modernismo fez esquecer a escola tardo-naturalista americana que durante o séc. XIX pintou no Oeste americano. Era uma terra de ninguém cheia de gente, um vazio repleto de histórias. Em menos de 200 anos tudo desapareceu, ou seja, foi preenchido. Sim, faz lembrar muitas coisas actuais e candentes, porque nada de novo se passa sob os céus que não tenha sido já visto, embora esquecido.

Que o exemplo vos faça algum proveito, mesmo que pareça demasiado críptico. 

George Catlin, “Caçada aos bufalos camuflados com pele branca de lobo”, 1932

 

Frederick Remington, “O batedor: amigo ou inimigo?”, 1902-1905

SNAFU


enlil,

Depois de ser Campeão Mundial em 2002 e antes de ter vencido a Taça das Confederações em 2013, Luiz Felipe Scolari registou com Portugal o seguinte palmarés: finalista do Euro 2004, semi-finalista do Mundial 2006 (perdeu 0-1 à tangente com uma das melhores Franças de sempre que só viria perder a final para a Itália por penalties e uma cabeçada de Zidane), quartos-de-final no Euro 2008 (perdeu com a finalista Alemanha por 2-3). Talvez Paulo Bento consiga semelhantes proezas, mas objectivamente até hoje ninguém atingiu resultados comparáveis. Todavia, por ter ofendido alguns interesses instalados, foi execrado pela indústria nacional de opinião futebolística.

Isto pode ser visto como uma eloquente parábola sobre os tempos que vivemos.

Creio de certeza que efectivamente parece


enlil,

Blah, Blah, Blah, painting by Mel Bochner

Mel Bochner, “Blah, blah, blah”

 

É cómico ver a quantidade de senhores na TV, graves e argutos, a descreverem definitivamente como procederia Paulo Macedo assim que tomasse posse do magistério das Finanças e prosseguirem, sem uma beliscadura no tom e na pose, em dissertações de supina ciência acerca do que fará Maria Luís Albuquerque mal ouviram que foi afinal ela a nomeada.