Daniel Albrigo, “sem título”, 2009
Sempre que alguém se declara indignado (indignadíssimo, zangado, quase revoltado, etc…), de quem me lembro irremediavelmente é de Dona Maria I, a Louca. Ninguém mais do que ela se terá indignado e com justa razão.
Enquanto pela Europa começavam a bruxulear as Luzes, em Lisboa Maria de Portugal não conseguia dormir, porque mal fechava as pálpebras via seu augusto pai lambido pelas labaredas do inferno, onde fora sem dúvida parar por conivência com as impiedades do Pombal, esse pé-de-cabra e cúmplice dos pedreiros. Como se não fosse punição que bastasse, durante o seu reinado Maria I padeceu o terramoto, soube da decapitação de Luís XVI de França pela turbamulta tricolor e morreram-lhe nos braços, em menos de um par de anos, seu marido (o apagadíssimo Pedro III, que além de real consorte era não menos real tio da Rainha), seu primogénito, José como o avô, sua filha e genro, todos levados pelas bexigas doidas. Que também lhe usurparam Frei Inácio de São Caetano, confessor privado da Rainha e a luminária que lhe fizera ver quão grandes seriam os pecados dos Braganças para que tantas desgraças amaldiçoassem o reino que lhes fora confiado pela natureza divina das coisas.
Isto sim é que é de pôr alguém louco de indignação.
Nesta era, provavelmente menos feroz, em que vivemos, ainda há, todavia, quem se indigne imensíssimo, mas em vez de rojar-se em penitências descabeladas como Dona Maria I, reclama estranhamente uns quaisquer diretos conexos por via da superioridade moral inerente à indignação. É confuso mas é mesmo assim. Tenho cá as minhas dúvidas que não seria para impedir que se indignassem que a pide espancava democratas, porque naqueles calabouços e em tais aflições sabia-se que a indignação é um mero estado de espírito intangível às sevícias, logo, quem lá fosse parar alguma coisa de útil haveria de ter praticado.
Mas hoje em dia, dir-se-ia que é suficiente para ter ar de justo que um se indigne e continue de camisa abotoada nos punhos, sem fazer nada por si nem pela vida. Talvez por isso – há-de ser defeito meu – me pareçam os indignados contemporâneos assim a dar para o reaccionário.


Estou indignada com esta imagem, até me apetece mandar-te rojar em penitências descabeladas.
E tens mais aqui: http://danielalbrigo.com/home.html
Um pintor nitidamente traumatizado com dentistas. Percebo-o, coitado, mas não lhe compraria as obras para as minhas paredes… 🙂
O terramoto foi no reinado do pai, o tal que ardia no inferno.
Tiha Ela 21 anos. Mas ainda não era Rainha, de facto.
A Rainha D. Maria I foi contemporânea do 1º genocídio da época contemporânea, o terror do estado iluminista francês eleito como método de governo sobre os cidadãos e que conseguir ultrapassar em ferocidade e selvajaria as atrocidades do iluminado marquês de Pombal, entre as quais não se deve esquecer o incêndio da Trafaria (e queima dos seus desgraçados habitantes), acontecimento que não deixa de ser a seu modo, iluminado.
Com tudo isto, não é de admirar que a Rainha D. Maria I preferisse a loucura à barbárie do Pombal e à matança dos jacobinos.
Caiu o bréu sobre essas luzes do Nero da Trafaria, o Poseidon do Bairro Alto, o salgador do Restelo, o Crasso de Salvaterra.
Continuam as voltas ao seu pedestal, de pedra e não de cal.
O que eu ri com este teu texto, desindignada!
Ao menos vamos desopilando Helena. Que tenhas rido será o melhor conseguimento que este textinho poderia ter – obrigado.
Um luxo ter-te por cá. Como sempre.
Luxo e poder escrever aqui ao lado de prosas como as tuas.
O que parece que não ocorreu no reinado de D. Maria I foi o terramoto de Lisboa nem o surgimento das clínicas Malo
As pessoas de génio não se preocupam com esses pormenores, já o dizia um ministro da marinha, conde e escritor apreciado.
Excelente. Quanto a D. Maria I, indignada, louca mas a única que disse algo acertado em toda o nosso século XIX. “Não corram tanto que pensam que fugimos!”. Já era tempo de pegarmos o bicho pelos cornos.
É uma frase terrível, negra e que fulmina as elites portuguesas – até hoje, que as de agora, da direita à esquerda não são melhores que as de então: continua-lhes a fugir o pé para o brasil.
Bom dia,
este post está em destaque na área de Opinião do SAPO.
Cumprimentos,
Isabel Oliveira Dias – Portal SAPO
Obrigado.
Não vou comentar indignações nem comparações de indignações. Presunção e indignações cada um toma as que quer. Metendo foice em seara alheia, mas com todo o respeito, quero acentuar o agradecimento aos “destaques sapo” afinal sinal de boa educação. O que me parece é que não seria necessário porque este espaço está pelo menos dia sim, dia não, em destaque, independentemente da qualidade dos textos ou da sua oportunidade. Observação desfasada, deselegante, fora de contexto e inoportuna? Talvez seja antes mais uma indignação sem punhos de renda.
MG
Indignar-se e não fazer nada é inútil.
Não se indignar e fingir que tudo corre bem também se gasta muito no burgo.
Até há os que acham que se vive melhor se se empobrecer (não explicam é que quem vive melhor e quem empobrece não são as mesmas pessoas).
HER MAJESTY, THE QUEEN D. MARIA I, WAS RIGHT WHEN SHE SAID THAT! SHE WAS MAD BUT SOME MOMENTS OF GREAT DISCERNMENT WERE HER GREATNESS AS A PORTUGUESE QUEEN!
HER FATHER WAS MOSTLY IN THE MARQUIS OF POMBAL´S HANDS AFTER THE HORRIBLE EARTHQUAQUE IN 1755.
D. MARIA I ACCEPT THE MARQUÊS DE POMBAL´S RESIGNATION BUT PARDON HIS PUNISHMENTS. HE WAS OBLIGED TO LIVE IN POMBAL WHERE HE DIED.
THE GOVERNMENT OF D. MARIA I WAS VERY PROFICOUS TO OUR COUNTRY. PORTUGAL OWES HER A LOT AS IT CONCERNS THE DEVELOPMENT OF EDUCATION.
D. MARIA I WAS VICTIM OF MANY GRIEVES AND IN 17O1 SUFFERS A MENTAL DIESEASE BUT BEFORE THAT SHE PARDONS THE TÁVORAS.
SHE DIES ON THE 20th.OF MARCH OF 1816 AND HER SON SON AFTER THE SPANISH DOMINATION, SUCCEEDS IN THE THRONE OF PORTUGAL AND FIRST EMPEROR OF BRAZIL.
oh my!
Caro José,
muito bem esgalhaditas essas letritas. A indignação é a arte de tentar indignar quem não se indigna com nada. Para além do mais que com o menos se mantém na negatividade, a indignação é um subterfugio poético que tenta criar poesia onde ela não existe.
Por isto mesmo, a indignação no burgo gira em torno de pios indignados que vazam tais sonetos na pia de sua amargura.
Vá lá, sorriam:
http://www.youtube.com/watch?v=cOUzo6Nuf Gk
Também eu fico indignado que se postem dentaduras a moldar versos quando elas tanta falta fazem a desdentados que andam a querer quebrar nozes.
Pondo de parte o erro grosseiro do terramoto e do reinado de D. Maria I (prontamente reconhecido pelo autor) parece-me tratar-se de um post OMO: a branquear melhor não há. Talvez quisesse que os actuais indignados lançassem umas novas FP25… ou então que não manifestassem a sua indignação.