Grandes progressos


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William Blake, “Demónio”, circa 1810

 

Não há conforto maior do que ter explicação para tudo. Ou melhor, uma explicação para tudo; melhor ainda: uma explicação rápida e simples que resolva tudo. Convenhamos que o “o penso, logo existo” de Descartes é um bocado preguiçoso e o barbudo de Trier complicou a questão com não menos que 10 teses. E assim por diante. Mas eis que um cientista social, um doutor e português, senhores, destrinçou o enigma definitivamente:

“O Humanismo renascentista e Iluminismo setecentista recusaram a transcendência do mal como incompatível com a dignidade humana. O pecado original foi rejeitado por razões ideológicas. Assim, os últimos séculos não consideram a possibilidade de Satanás.” Corolário: “Quem não acredita no diabo acaba vendo-o em todo o lado.”

Nobel já para César das Neves! E logo da medicina, porque a sintética teoria (qual teoria – teorema!) tem profundas implicações clínicas: “o verdadeiro campo de batalha entre o bem e o mal é não a política e a sociedade mas o meu coração.” Fica pois certo que da esponja encefálica nem a glândula pineal se aproveita; é mesmo no músculo cardíaco que a moral (deveria ter escrito em maiúscula?) se digladia e Satanás, Belzebú, Lúcifer, ou lá que nome tem o “mal concreto”, se estabeleceu. Para já e de imediato, isto explica umas palpitações que me acometeram ontem, julgava eu que era comida, afinal deve ter sido insídia do mafarrico por causa de uns pecadilhos que me envergonha dizê-los aqui.

Perante tamanha descoberta teleo-cárdio-sócio-filosófica, a humanidade aguarda, com extrema ansiedade, quiçá em transe místico, que César das Neves decidida se mefistófeles reside efetivamente nos glóbulos vermelhos cor do demo, nos brancos que são vorazes, nas sonsas plaquetas ou no plasma que é esquivo. Há que precisar estas coisas, senão fica a missa a metade.

4 comentários em “Grandes progressos”

  1. Uma das poucas vantagens da genial reforma autárquica promovida por Miguel Relvas é que a freguesia em que resido deixará de chamar-se Coração de Jesus, um nome que me causa agonia de cada vez que o pronuncio. Fico logo ali a ver um coração a escorrer sangue. Um horror, a religião do dr César das Neves.

  2. Antes de inciar o meu comentário desejo fazer uma declaração de interesse: sou cristão, católico (à falta de melhor), e não acredito no demónio, porque o mafarrico é um mentirosão; puta que o pariu!

    Aqui chegado entro na origem do mal:
    O mito da criação revela-nos que o Homem se desenvolve entre duas naturezas: uma simbólica e outra diabólica. Assim sendo, Adão, Adama no hebraico, que significa terra boa, terra fértil, é portador dessa natureza simbólica uma vez que recebe o Sopro da Vida, porque tudo quanto visa vivificar é a origem e o Bem em si mesmo; todavia deparamo-nos na narrativa com uma outra realidade simbolizada pelo tentador, isto é, diabolos (a serpente), que significa separador; aquilo que nos separa da substância Viva e Criadora, que vivífica e cria.
    Posto isto, estamos perante a descoberta que o Bem o Mal são uma opção real que determina a vida futura do homem e das sociedades.
    Compreendo o que quer dizer César das Neves, mas espanta-me que ele não queira compreender que esta opção não é só individual, existe também uma herança social, educacional, religiosa e familiar que pode determinar, para o bem e para o mal, o curso do indivíduo e da sociedade. Os factores anteriormente expostos têm criado entorpecimento sobre o conceito do bem e do mal.
    E é aqui que devemos iniciar a reflexão para compreender o fenómeno social: as teorias neo-liberais que têm vindo a ser implementadas em todo o mundo têm uma origem dita académica, elas têm sido vincadamente propagadas e ensinadas em todas as universidades, onde se inclui as católicas. Porém este neo-liberalismo de vinco ditatorial e com o cognome de mercado tem revelado a sua face diabólica, porque subverte não só as sociedades como até as figuras mais cândidas em matéria religiosa, sem esquecer também figuras ditas consagradas.
    Neste sentido, não nos admiremos que Passos, Merkel, Sarkozy, banqueiros usurários e agiotas, financeiros e outros afins ou sem fim à vista, na política e fora dela, na medida em que assimilam essa mesma natureza diabólica, tornam-se servos e fazem escravos de um mesmo senhor. Pois aqui chegados podemos, certamente, concluir que quer Deus quer o diabo andam bastante frustados.
    Deus, porque é confundido com o diabo; e o diabo, porque é confundido com Deus.
    Diz-nos Jesus na Bíblia: “Não podeis servir a dois senhores, ou amareis um e odiareis o outro, ou servireis a um e desprezareis o outro”.

    Mas para que este raciocínio não fique incompleto, necessário nos é reflectir a seguinte passagem Bíblica: “A árvore é conhecida pelo fruto”. E se o fruto que dá é podre, então, a árvore tem de ser cortada pela raíz.
    Concluo com a citação de Agostinho de Hippone (Santo Agostinho): “Não te afastes d´Aquele que te criou, nem mesmo para te conheceres a ti próprio”.

  3. Quando se fala do problema mal, será de lembrar Auschwitz e o Gulag da rússia soviética e marxista e deixar de lado o ar faceto.

    Quanto aos pontos de contacto e decompleto antagonismo entre humanismo, iluminismo e marxismo leia-se Sir Isaiah Berlin ou Alaisdair MacIntyre.

    Aqui http://en.wikipedia.org/wiki/Alasdair_MacIntyre dá para uma “introdução” que terá, pelo menos, a virtude de demonstrar que o carácter faceto do post tem pouca ou nenhuma razão de ser, a não ser que se subscreva um primarismo de vistas que em Portugal dá pelo nome de conversa de café de bairro.

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