Quem são os parolos?


enlil,

O problema deve ser meu, terei perdido o sentido de humor, mas não consigo ver onde está a piada deste cartaz que tem feito rir tanta gente.

Será porque o candidato obviamente não teve dinheiro para recorrer aos preclaros serviços de uma agência de comunicação e só conseguiu produzir um cartaz tosco?

Ou será mesmo a questão do cemitério que dá vontade de gozar? Se for este o caso, confesso-me surpreendido. Um cemitério é um espaço finito e murado, rodeado de propriedade privada por todos os lados. Em certas aldeias e vilas mais antigas, é frequente a sobrelotação dos cemitérios. Ora como eles estão a cargo das Juntas de Freguesia e estas não nadam em dinheiro, é por vezes dificílimo alargar o cemitério. Se dissessem a um lisboeta que o pai tinha de ser enterrado em Almada porque não havia lugar nos cemitérios municipais de Lisboa, não creio que a família desatasse às gargalhadas…

Que a questão dos enterros tem alguma importância, prova-o, no séc. XIX, a Maria da Fonte, uma guerra civil cuja origem deveu-se, entre outras, à introdução de normas higiénicas que acabaram com as sepulturas dentro das igrejas ou ao lado delas, e obrigaram a construção de cemitérios lá longe, no meio do campo. Isto suscitou o horror das massas campesinas, que se ergueu na Patuleia. Há quem diga que esta palavra deriva etimologicamente de “patolo” ou seja, de tolo, rústico, ou parolo como diríamos hoje, mas há quem afrme que vem de “pata-ao-léu”, ou seja a populaça de pé descalço.

Ambas as versões vão dar ao mesmo e vêm ter aos nossos dias – tal como no séc. XIX a burguesia urbana da lusitânia continua a fazer pouco de aldeões e vilões. Evoluiu pouco em quase 170 anos, eu acho… 

32 comentários em “Quem são os parolos?”

  1. odoricos paraguaçus de 2ª…
    (mas, em abono da verdade: já teve que tratar de encontrar uma campa para enterrar algum familiar, recentemente? se não passou por esse drama em cima do mais profundo, que foi ter acabado de perder um familiar, então o melhor é ficar caladinho).
    http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Bem-Amado_(telenovela)

  2. Caro José Navarro,

    permita repetir-me a este respeito: eu gosto mesmo é do campo e do(a)s campónio(a)s. Nunca vi tanta saloiada por m2 como em Lisboa e no Porto. Estas cidades transformaram-se em estação virtual de tratamento de parolada armada ao à chico(a)-esperto(a).

  3. Desculpe, mas parece-me que o seu texto deixa no ar a ideia de que a Patuleia foi a continuação lógica da revolta do Minho ou da Maria da Fonte. Ora, como sabe, a revolta campesina contra os enterros nos cemitérios, acaudilhada por padres miguelistas, teve lugar em Março e Abril de 1846 no Minho, e como principais actos, para além do roubo de cadáveres, a destruição de documentação em regedorias e algumas, poucas, acções armadas.
    A Patuleia, que mergulhou todo o país na guerra civil, opôs cartistas a setembristas e foi desencadeada pelo golpe de estado de Saldanha, conhecido como A Emboscada, a 6 de Outubro. Houve alianças circunstanciais de ambas as partes com os miguelistas, mas seria exagero identificar os camponeses que se levantaram no Minho contra os enterros nos cemitérios com as forças patuleias. E muito injusto confundir o movimento camponês, essencialmente reaccionário, com os patuleias, progressistas.
    A revolta do Minho deixou-nos um mito, que me fascina, e um hino, que muito aprecio. A Patuleia, o germe do republicanismo, suponho, que não sou historiador.

    1. Caro José, a sua visão dos acontecimentos do séc. XIX é a mais canónica e sustentada, sem qualquer dúvida. Mas, evitando não cair no revisionismo, há quem sustente a existência de um fil rouge entre ambos os episódios, enquadrando-os numa guerra entre a cultura das cidades e a do campo, à época como se fossem dois mundos.

      1. De acordo. A oposição cidade / campo na questão dos cemitérios está bem evidente em obras como As pupilas do senhor reitor, em que a revolta do Minho é tratada de forma brilhante. Mas continuo a pensar, talvez erradamente, que a Maria da Fonte contribuiu para a guerra da Patuleia sobretudo por ter criado o ambiente insurreccional e não tanto por as massas camponesas terem transitado da revolta contra os enterros nos cemitérios e o cruzado para as estradas à luta nas forças patuleias. É um período extremamente confuso, marcado por traições e reviravoltas…

        1. José, acabou de citar o autor de um dos mais formidáveis, esquecidos e contemporâneos (vertiginosamente contemporâneos, diria) livros: “A Morgadinha dos Canaviais”. “As Pupilas” vem em segundo lugar na minha lista de preferências. Sou incapaz de contrariar quem me fala ao coração destes romances…

          1. As minhas desculpas: queria referir-me à Morgadinha dos Canaviais, é nesta obra que o conflito em torno dos enterros surge, quando Henrique de Souzelas enfrenta o cacique Joãozinho da Perdizes e os seus apaniguados…
            Com a pressa, troquei os títulos.

    2. « Ora, como sabe, a revolta campesina contra os enterros nos cemitérios, acaudilhada por padres miguelistas, teve lugar em Março e Abril de 1846 no Minho, e como principais actos, para além do roubo de cadáveres, a destruição de documentação em regedorias e algumas, poucas, acções armadas. »

      «E muito injusto confundir o movimento camponês, essencialmente reaccionário, com os patuleias, progressistas.»

      Pato leia, acaudilhado pela maçonaria?
      Não há pachorra para tanto desplante reaccionário de campesinos burgueses.

      http://2.bp.blogspot.com/_gHq72MG8QhA/TR-ODecz8II/AAAAAAAAADw/oZlq3HKBjSo/s1600/Cartaz-MariaDaFonte.jpg

      PS (não o do Grande Oriente Lusitano):
      Segundo Aristófanes, Patuleia seria um nome antigo para Hera.

      1. Quem falou na maçonaria? Não eu… Escrevi “acaudilhada por padres miguelistas” E se lhe falta a pachorra, porque é que lê, se se pode chamar ler àquilo que fez? E com que direito insulta quem não conhece?

        1. Insultar quem?
          Chamar reaccionários a antepassados camponeses do Séc. XIX não é insultar, mas passa a ser quando se qualifica como reaccionária uma cartilha histórica com qualificativos típicos da maçonaria nacional? Toma o leitor por pato?
          Se quer evitar o enterro de argumentos, dentro ou fora da igreja, não venha com cartilhas a coberto de verdades.

          1. E eu que pensava que os qualificativos que empreguei eram os empregues por Camilo Castelo Branco, que por lá andou, inclusive na guerrilha de MacDonnel! E sim, a defesa do enterro nas igrejas é uma causa reaccionária. De tal forma que já se não faz.
            Quanto às insinuações sobre a maçonaria, continuo sem entender. Suponho que seja ataque ad hominem, algo como chamar-me comunista, não?

          2. A sua pessoa não foi chamada ao caso, apenas o seu discurso. A sua pessoa não a conheço, não me diz nada, e por isso não me iria pronunciar sobre ela. Não identifico pessoas com discursos, até porque algumas vezes são meras transcrições com outras palavras. Se lhe corrigisse um erro ortográfico, aí sim estaria a atingir a pessoa que escreveu.

            O argumento em que insiste, colocaria qualquer enterro como reaccionário, já que do ponto de vista de saúde pública, económica, etc… pode até ser aconselhada a incineração.
            Não sou adepto dessa perspectiva de monte-de-esterco, em que o homem reduzido ao corpo é apenas matéria fertilizante em potência, por isso devo também classificar como reaccionárias as tentativas de limitar a racionalidade.
            Mas quando não se vê mais que isso, nada mais há a dizer.

            Cumprimentos à sua pessoa.

  4. Confesso que me tenho rido bastante com algumas das peças de campanhas que se têm visto por aí. Mesmo que, por vezes, o constrangimento nos assalte há, de facto, motivos de sobra para o sucesso de páginas como a dos “Tesourinhos das autárquicas”. Mas, como seria de esperar, na ânsia de fazer humor e encontrar motivos para tal cai-se em situações como esta. De qualquer forma, mesmo que esta seja uma questão muito pertinente em muitas freguesias e provavelmente nesta, seria de esperar alguma brincadeira à volta do assunto.
    Outra coisa que não faz sentido é enviar fotografias alteradas só para ter graça levando as pessoas a acreditar que o que vêem existe mesmo, como já vi…

  5. Estou a aplaudir de pé. Pelo que está no postal. E também pela experiência de vida quanto a cemitérios. Vivo numa cidade enorme, que viveu anos a fio com um terrível défice de cemitérios. Um pequeno, central, histórico, já fechado por sobrelotado e impraticável. Outro nos arrabaldes, hiper-sobrelotado, constantemente revolvido para os novos cadáveres e espezinhado pelas constantes visitantes. Uma situação que afligia, verdadeiramente, a população. Finalmente a autarquia conseguiu estabelecer um novo cemitério, ainda que longínquo do “centro”, devido à densidade da ocupação já existente. Um grande alívio.
    Claro que este tipo de situações para o parolismo bacoco do eixo burguesote que se julga cosmopolita é risível

  6. Tendo vivido numa aldeia que já teve como proncipal ponto de discussão o cemitério (no caso, como tratar a questão da pertença dos terrenos) e depois escolheu a do gimnodesportivo, compreendo perfeitamente a discussão. Ora isso não impede que o cartaz dê origem a um certo humor involuntário: “com o [candidato X], o cemitério será aumentado [porque os residentes morrerão todos/serão mortos/quererão morrer/etc]”. É mórbido, mas em certas circunstâncias não deixa de ser humorístico.

    Aquilo sobre que poderíamos reflectir é porque razão não são todos os cartazes de campanha humorísticos. Afinal de contas, aquilo que lá vem são apenas inanidades que nada significam. Nos cartazes alemães vi a frase “Porque você escolhe/vota [a palavra alemã tem o duplo significado]”. Não digo qual o partido porque não interessa. A vontade que dá é a de responder “a sério? ainda bem, porque eu não tinha a ideia, pensava que eram os habilinos de alfa-centauri que decidiam…”.

    Compreendo perfeitamente que o tema seja pertinente (e até essencial) para a população local, mas temos que compreender que alguns o achem divertido. Tem que haver espaço para tudo.


    1. … por acaso acho bem mais parola e ridícula a falsa composição dos cartazes com o candidato à câmara ao lado do da junta.
      A falsidade é coisa banal, e tirar uma foto juntos dava muito trabalho.

  7. Acho que é uma das promessas mais lógicas nestes tempos que passamos! Então o que é que nos estão a fazer, principalmente aos mais velhos? O que é que pretendem com estas medidas atrozes e incompreensíveis, não é que se morra o mais depressa possível para evitar despesas de saúde e pagamento de reformas? Já aos mais novos mandam-se emigrar, que vão morrer para outro lado!

  8. Acho que é uma das promessas mais lógicas nestes tempos que passamos! Então o que é que nos estão a fazer, principalmente aos mais velhos? O que é que pretendem com estas medidas atrozes e incompreensíveis, não é que se morra o mais depressa possível para evitar despesas de saúde e pagamento de reformas? Já aos mais novos mandam-se emigrar, que vão morrer para outro lado!
    Cada um sabe das suas realidades, e a desta freguesia ou concelho pode muito bem ser o aumento da mortalidade e a falta de espaço.
    Há no entanto um absurdo, é que seja um candidato da coligação PSD/CDS a fazer uma promessa que provavelmente agrada a muitos.

  9. a burguesia urbana da lusitânia continua a fazer pouco de aldeões e vilões

    Isto é tanto mais curioso quando a imensa maior parte da atual burguesia urbana portuguesa é filha, ou quando muito neta, de aldeões e vilões. Apenas com uma fina patine burguesa, que mal esconde o fundo rústico.

  10. Com ele e com os partidos de que faz parte, os mesmo do governo, isto vai ser de uma ampliação como nunca se viu.
    Qual peste negra, qual carapuça.
    Portugal vai ser uma tremenda vala comum

  11. Bom texto. E o assunto não é para rir. Só para os burguesia citadina é que “a falta de espaço para a construção / ampliação de um cemitério” poderá ser um assunto com graça. Nas nossas aldeias é um problema recorrente e que muito atormenta as populações.

    Gostava que o Anonimo das 21:56 me dissesse o que é a “saloiada”, se será alguma salada pronto-a-comer de algum centro-comercial, ou será apenas parvoice sua.
    É que sou de Sintra, saloio, que por acaso tem de viver em Lx e não gosto de senhoritos armados-ao-pingarelho.

  12. A zona mais parôla do país é, sem dúvida, a periferia da grande Lisboa.
    Quanto ao cartaz, não é que seja risível o assunto. O que é triste é que a freguesia tenha como grande objectivo o cuidar dos mortos porque aos vivos já não consegue acudir.

  13. Por acaso os cemitérios são um problema dos vivos. Os mortos, mortos estão e de mortos não passam. Por acaso quando morrer estou-me bem a lixar para onde me levam! Quem me leva é que terá de se preocupar com isso. Para mim será igual.

  14. Boa tarde,

    O seu post está em destaque na área de Opinião da homepage do SAPO.

    Atenciosamente,

    Catarina Osório,
    Gestão de Conteúdos e Redes Sociais – Portal SAPO

  15. acertado! Em muitas terras, mesmo aqui em freguesias no Litoral, questões como o cemitério são fundamentais na opinião das populações. Infelizmente, vivemos dias de um novo-urbanismo armado ao pingarelho.

  16. Mas o facto é que o candidato não tocou na sensibilidade das pessoas ao ponto de votarem nele. Lá ficou o cemitério para mais tarde. O exibir o emblema partidário não o deve ter ajudado muito.

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