Nestes dois dias de descanso que o Senhor nos concedeu (O Senhor é Joseph Blatter dono omnipotente, omnipresente e unitário do futebol e das cuecas que nele se vislumbrem) o debate que claramente consternou a nação foi o de saber como sucedeu que Freitas Lobo se tenha tornado o Gabriel Alves do nossos tempos e simultaneamente o Herberto Helder da bola.
A analogia entre Lobo e Helder verdade que é mecanicista e decorre de circunstâncias meramente performativas, mas em ambos os casos existe uma veemente correlação entre os Pés e o Verbo. Quanto a Helder verificou-se que disfrutar as últimas emanações poéticas do bardo dependeu em exclusivo da velocidade dos pés que correram em cata do livro, escassa e efemeramente disponível sem outro critério que não este da ligeireza e da robustez andarilha – qual amor à poética, qual hermenêutica, os calcantes é que valeram aos eleitos. Quanto a Freitas Lobo, venha alguém desmentir que se não fossem os foots que estugam atrás da ball nunca poderíamos nós, os gentios, receber o banho lustral do seu palavreado.
Mas a inequívoca novidade deste Mundial de 2014 é a usurpação do trono há bem mais de uma década vacante de Gabriel Alves pelo jactos locutórios (termo desde há dias acessível a qualquer aluno do secundário) de Freitas Lobo – autênticos futebolemas no saudoso dizer de Rui Romano, o primeiro mestre a mesclar bola com Barthes.
Algo se terá passado na fisiologia cerebral de Lobo. Ele era todo hemisfério esquerdo, analítico e determinista no relato dos jogos, mas durante este certame entornou-se radicalmente para o hemisfério direito, lírico e sensitivo.
É verdade que ao seu olhar de condor não há percalço que não seja propositado, acidente que não seja deliberado ou falhanço que não seja estudado; oiçamo-lo desvendar que a patética escorregadela de Thomas Müller era uma jogada de laboratório e que os esgares humilhados do tudesco eram uma encenação. Ainda está para vir a primeira ocorrência que o seu bisturi não disseque racionalmente. Para ele um jogo de futebol é um gigantesco plano, posto em marcha por uma inteligência suprema à qual só Lobo tem acesso; a chave subjaz na cabala numérica que nos recita: o impávido 4,2,3,1, o ousado 4,1,3,2 o aterrador 5,3,1,1 ou o lunar 3,5,2. O resto do relato consiste em explicar aos jogadores o que devem fazer e aos treinadores qual a táctica que devem usar. Na sua voz, porém, pressente-se o frémito de melancolia de quem só é escutado pelos lorpas dos telespectadores.
Sucedeu, no entanto, que inspirado pela magnitude do Mundial, Freitas Lobo quis exibir que nem só de macaquear Valdano vive o seu estro e ei-lo que vaza nas nossas orelhas tal enxurrada de hipérboles, aforismos, metonímias, sinedoques, tropos, um formidável arsenal estilístico que, infelizmente, acaba soterrado pelo uso ilimitado do adjectivo “grande” (mas maiúsculo: “GRANDE jogo”; “GRANDE jogador”; “GRANDE passe”) por vezes substituído pelo ENORME (ibidem). Os arroubos líricos de Freitas Lobo têm vários apogeus mas é fatal que ao ver o breve resumo do jogo, com imagens em câmara lenta e violinos, embarga-se-lhe a voz e, qual adolescente a iniciar-se em Eugénio de Andrade, gagueja como um mantra: “o futebol é lindo”, “o futebol é o jogo mais lindo do mundo”, “que lindo é o futebol”.
Surge todavia um problema. Ciente da sua autoridade Freitas Lobo decidiu privatizar os desafios que comenta e deu-lhe para açoitar os diletantes repetindo de dedo mais em riste que a patorra de alguns defesas a frase: “isto é só para quem ama o futebol”. Ora o futebol em HD e os comentários de Lobo saem-me a € 26,79 por mês, o que para meretriz é barato – será que ele me dá licença para continuar a ver o Mundial ou preciso de tirar certidão?


















