Lírica lupina


enlil,

Nestes dois dias de descanso que o Senhor nos concedeu (O Senhor é Joseph Blatter dono omnipotente, omnipresente e unitário do futebol e das cuecas que nele se vislumbrem) o debate que claramente consternou a nação foi o de saber como sucedeu que Freitas Lobo se tenha tornado o Gabriel Alves do nossos tempos e simultaneamente o Herberto Helder da bola.

A analogia entre Lobo e Helder verdade que é mecanicista e decorre de circunstâncias meramente performativas, mas em ambos os casos existe uma veemente correlação entre os Pés e o Verbo. Quanto a Helder verificou-se que disfrutar as últimas emanações poéticas do bardo dependeu em exclusivo da velocidade dos pés que correram em cata do livro, escassa e efemeramente disponível sem outro critério que não este da ligeireza e da robustez andarilha – qual amor à poética, qual hermenêutica, os calcantes é que valeram aos eleitos. Quanto a Freitas Lobo, venha alguém desmentir que se não fossem os foots que estugam atrás da ball nunca poderíamos nós, os gentios, receber o banho lustral do seu palavreado.

Mas a inequívoca novidade deste Mundial de 2014 é a usurpação do trono há bem mais de uma década vacante de Gabriel Alves pelo jactos locutórios (termo desde há dias acessível a qualquer aluno do secundário) de Freitas Lobo – autênticos futebolemas no saudoso dizer de Rui Romano, o primeiro mestre a mesclar bola com Barthes.

Algo se terá passado na fisiologia cerebral de Lobo. Ele era todo hemisfério esquerdo, analítico e determinista no relato dos jogos, mas durante este certame entornou-se radicalmente para o hemisfério direito, lírico e sensitivo.

É verdade que ao seu olhar de condor não há percalço que não seja propositado, acidente que não seja deliberado ou falhanço que não seja estudado; oiçamo-lo desvendar que a patética escorregadela de Thomas Müller era uma jogada de laboratório e que os esgares humilhados do tudesco eram uma encenação. Ainda está para vir a primeira ocorrência que o seu bisturi não disseque racionalmente. Para ele um jogo de futebol é um gigantesco plano, posto em marcha por uma inteligência suprema à qual só Lobo tem acesso; a chave subjaz na cabala numérica que nos recita: o impávido 4,2,3,1, o ousado 4,1,3,2 o aterrador 5,3,1,1 ou o lunar 3,5,2. O resto do relato consiste em explicar aos jogadores o que devem fazer e aos treinadores qual a táctica que devem usar. Na sua voz, porém, pressente-se o frémito de melancolia de quem só é escutado pelos lorpas dos telespectadores.

Sucedeu, no entanto, que inspirado pela magnitude do Mundial, Freitas Lobo quis exibir que nem só de macaquear Valdano vive o seu estro e ei-lo que vaza nas nossas orelhas tal enxurrada de hipérboles, aforismos, metonímias, sinedoques, tropos, um formidável arsenal estilístico que, infelizmente, acaba soterrado pelo uso ilimitado do adjectivo “grande” (mas maiúsculo: “GRANDE jogo”; “GRANDE jogador”; “GRANDE passe”) por vezes substituído pelo ENORME (ibidem). Os arroubos líricos de Freitas Lobo têm vários apogeus mas é fatal que ao ver o breve resumo do jogo, com imagens em câmara lenta e violinos, embarga-se-lhe a voz e, qual adolescente a iniciar-se em Eugénio de Andrade, gagueja como um mantra: “o futebol é lindo”, “o futebol é o jogo mais lindo do mundo”, “que lindo é o futebol”.

Surge todavia um problema. Ciente da sua autoridade Freitas Lobo decidiu privatizar os desafios que comenta e deu-lhe para açoitar os diletantes repetindo de dedo mais em riste que a patorra de alguns defesas a frase: “isto é só para quem ama o futebol”. Ora o futebol em HD e os comentários de Lobo saem-me a € 26,79 por mês, o que para meretriz é barato – será que ele me dá licença para continuar a ver o Mundial ou preciso de tirar certidão?

Delitos poéticos (1)


enlil,

NINGUÉM SE MEXA! MÃOS AO AR!

 

“Ninguém se mexa! Mãos ao ar!” disse o histérico

e frívolo homenzinho com mais medo

da arma que empunhava que de nós.

“Mãos ao ar!”, repetiu para convencer-se.

 

Mas ninguém se mexeu, como ele queria…

Deu-lhe então a maldade. Quase à toa,

Escaqueirou o espelho biselado

Que tinha as Boas-Festas da gerência

 

Escritas a sabão. Todos baixámos,

Medrosos, a cabeça. Se era um louco,

Melhor deixá-lo. (O barman escondera-se

Por detrás do balcão). Ali estivemos

 

Um ror de medo, até que o rabioso

Virou a arma à boca e disparou.

 

Alexandre O’Neill

 

Alex Colville, “Pacific”, 1967

Vencedores & vencidos (5 notas)


enlil,

É verdade que a selecção da Grécia joga um futebol brusco e picotado e tem um treinador que lhes grita – vimos todos – “calma, car@#§&!”, comprovando a perfeita capacidade comunicacional do calão português. Mas os gregos são a mais nostálgica colecção de cromos deste Mundial; cada um deles ostenta o fácies proletário dos jogadores dos anos 50 e 60, como se tivessem sido recrutados nas docas do Pireu. Katsouranis está ao nível de selvajaria a que sempre nos habituou e Karagounis segue demonstrando a sua incompatibilidade com as lâminas de barbear e com as decisões dos árbitros. Eles são a perfeita reminiscência física do futebol de outrora, antes desta gentrificação feita de penteados espampanantes e palmadinhas nas costas.

 

É de lamento a eliminação da paradoxal selecção inglesa. Por uma vez não entrou em campo com aquele tradicional sense of entitlement de quem vem repor uma verdade histórica, nem  encarou a derrota com o stiff upper lip presunçoso de quem acha que foi espoliado de direitos naturais. Os ingleses vieram jogar e fizeram-no com franqueza e elegância, tanto que perderam os dois jogos que necessitavam de ganhar aos pés da pragmática Itália e do furibundo Uruguai. É pena porque constituíam um agradável intermezzo ao futebol assanhado que veremos daqui em diante. Além de que a sua prematura eliminação redundará em grande rombo económico na indústria cervejeira mundial.

 

Em vez dos 90 e picos minutos da praxe os jogos da Argentina só têm 5’’ – os 5’’ de Messi. Da primeira vez foi o tempo necessário para partir a Croácia, da segunda venceu o Irão. No resto do tempo a selecção argentina troca a bola entendidamente à espera do instante em que o pequenote liga o botão, é uma espécie de desacelerador de partículas. Com isto, mesmo ostentando o pior treinador do certame (demasiados jogadores, demasiado bons, para fazer confusão a um táctico simples), querem ver que ainda chega à final?

 

Num ranking da revista Forbes do rendimento anual auferido pelos treinadores deste Mundial Paulo Bento está em 12º (nada a contestar) e o do Professor Carlos Queiroz, treinador do Irão, em 13º, com uma diferença de apenas €62.110 – menor que o preço de um Porsche. Diferença essa que daria singelo por dobrado em como não cobre a expropriação do fisco português a que Bento está sujeito. Ambos saíram no final da primeira ronda, Queiroz saiu felicíssimo por ter conseguido empatar um jogo em resultado da inovadora táctica do autocarro; Bento saiu acabrunhado por só ter vencido um jogo. Quem é o esperto, quem é?

 

Foi preciso chegar ao último jogo da fase de qualificação para descobrir a selecção que dá vontade de odiar. Consuetudinariamente reservado ao futebol panzer da Alemanha ou ronhoso da Itália, capazes de tirar do sério o adepto mais cerebral, desta vez a desonra a cabe ao sórdido Uruguai. Se Freitas Lobo viu 3 milhões de uruguaios a rematar com o pé de Suarez no golo contra a Inglaterra (uma imagem maior que o cinema, cujo máximo até hoje foi o filme “300”) então que não lhe tenha doído a dentada do mesmo Suarez em 61 milhões e 321 milhares de italianos por via do ombro de Chiellini. Felizmente os pigmeus da América Latina caíram aos pés do belíssimo James da Colômbia. Agora é preciso detestar outros – talvez o sorumbático Brasil, convencido que não precisa de jogar bem porque joga em casa?

Futebolemas


enlil,

O médico da selecção de todos nós falou hoje em “índices de suspeição lesional”. Dir-se-ia que foram anexados à pasta dos “indicadores de certificiação disparatal”. As maravilhas do futebol português são infinitas.

Bestas e bestiais


enlil,

A corporação dos moderados está a ter o seu momento glória a propósito da débâcle da selecção nacional.

Munidos de uma impermeável rectitude, os moderados saíram à liça a verberar os que até às 17h do dia 16 de Junho cantavam loas ao futebol lusitano e a partir das 19h propalaram os seus horrores evidentes. A dedo foram acusados de duplicidade quase todos os comentadores, esse escol infalível por natureza, cujos patriarcas são o cólico Joaquim Rita e o bilioso Rui Santos, detentores do dom da certeza instantânea, aquela que descreve o passado a partir do presente como se estivesse a realizar futuro. Os moderados escusaram-se porém de denunciar esta essência do negócio daqueles cavalheiros (que sem as suas certezas estariam desempregados) mas apenas a moralidade dos seus prognósticos.

Além do escabroso pendor moralista os moderados, na sua infinita moderação, brandiram ainda a mais danosa das armas: a fatalidade sistémica. Afirmando que selecção, sendo um sistema, não pode ser óptimo antes de um jogo e péssimo depois dele, então, ou a culpa (cá vem a moral) é do sistema, ou o sistema é bom e não pode ser posto em causa por causa de um mero desafio. Tudo isto vem sintetizado no célebre axioma: “não se pode passar de besta a bestial”.

A controvérsia filosófica atingiu tais proporções que infectou algumas das melhores meninges da pátria, como a do Dr. Pulido Valente ou a do Dr. José Neves, que explanaram os seus pareceres no opinativo “Público” de sexta 20. Pulido Valente jogou ao seu nível habitual, aquela espécie de tiki-taka que só ele sabe: a bosta do nosso futebol ilustra o nosso “patriotismo espúrio” (uma bosta) que eivou a bosta da nossa política, para rematar que Portugal é uma bosta – golo! Quatro páginas antes José Neves exibe o seu gabarito académico relacionando o penálti à Panenka com o ralenti cinematográfico, vislumbre estribado numa “sugestão” conceptual de Patrice Blouin que não é futebolista nem cineasta mas, obviamente, historiador. No fim do seu ensaio adverte-nos não se percebe bem do quê, mas envolve a dialética “loucura”-“racionalidade” que é a forma de os cientistas sociais tacharem os gentios de idiotas.

Pois a despeito de tão notáveis autoridades há que afirmar que a moderação servirá à política e à culinária, indústrias onde a justeza do tempero impede que se estraguem os ingredientes, mas no futebol e noutras artes similares é mesmo verdade que se pode passar num ápice de besta a bestial e vice-versa. Não sendo inimputável, o futebol é irresponsável e um dos privilégios que confere aos adeptos é precisamente o de assobiar a besta de um jogador que errou miseravelmente um remate e, no momento seguinte, aplaudir o seu golo bestial. É para isso que vamos ao futebol, para transferirmos e para nos alienarmos – não é para termos razão.

E a selecção? Ora, um bando de fedelhos demasiado bem pagos, descomandados por um teimoso. Claro que se ganharem no Domingo e depois ao Ghana, não hesitarei em enaltecer a persistência e a coerência de Paulo Bento, além da codícia dos nossos bravos, dando por bem empregues os € 26,79 que paguei à Sport.TV.

 

(também aqui)

Força Portugal, que já só te faltam as qualidades


enlil,

Em geral há a referir que a seleção da Alemanha foi a única que não apresentou qualquer penteado maluco e que a selecção portuguesa manteve intacta a sua reputação e ser a que mais zaragateia com os árbitros.

Na primeira parte Portugal tentou desenvolver a sua táctica a dois tempos: na primeira fase de transição (é assim que agora se diz, burro) o jogador que conduz a bola pergunta onde está o Ronaldo; na segunda fase manda um bico na bola na direcção genérica dele com um recado: desenvencilha-te.

Ainda antes do terceiro golo a indiscreta câmara apanha Ronaldo à conversa com Khedira, pelas caras que ambos faziam não é de todo ilegítimo pensar que o alemão perguntava-lhe admirado: “O que se passa convosco?” e Cristiano respondeu: “É para que saibas as merdas em que estou metido.”

Na segunda parte os alemães treinaram o meiinho com os jogadores portugueses – a passo que estava muito calor. Tanto calor que os nossos altivamente nem se mexeram só para lhes fazer pirraça. O estado de espírito que mostraram revelou quão fundo lhes terão calado as palavras de Paulo Bento ao intervalo.

Um a um:

Rui Patrício – Como não é menos que os outros ofereceu o 4º golo aos alemães.

João Pereira – Estava de certeza a ouvir o relato da RTP1; como os comentadores acharam que derrubar um adversário na área não poderia de modo algum ser penalty, ficou surpreendido.

Pepe – Primeiro tentou estrafegar o avançado alemão, mas em vez da traqueia só conseguiu puxar-lhe pela gola. Como o árbitro estava de costas e não viu, esperou que este se virasse para ir dar um turra no adversário e encharcá-lo de perdigotos. Bem pensado.

Bruno Alves – Bom o amortecimento da bola para o alemão pôr o pé no 3º golo deles.

Ricardo Costa – Não precisou de estragar.

Fábio Coentrão – Como não estava aafazer nada de errado, a macumba arranjou maneira de o lesionar. Pior ainda: ser substituído por André Almeida.

André Almeida – entrou com instruções explícitas para aproveitar o tempo a treinar os centros, mais umas sessões e fica capaz.

Miguel Veloso – O pilar irremovível do meio campo português; por mais que os alemães corressem à volta dele nunca abdicou da posição.

Raul Meireles – excelentes passes de 2 metros para trás, mesmo quando os tudescos, falsos, lhe abriam um horizonte de 20 metros.

Moutinho – jogo astuto; para complicar os contra-ataques alemães, sempre que pegava na bola ia embrulhar-se com dois adversários, obrigando-os a reposicionarem-se.

Bruno Almeida – O bigode mais foleiro do campeonato só poderia convocar maus espíritos. Não teve tempo de jogar tão mal como é hábito porque a macumba castigou-lhe a desfaçatez pilosa.

Nani – Tentou mas não conseguiu.

Cristiano Ronaldo – Sabe mas não pôde.

Eder – Quis mas não sabe.

 

(também aqui)

Ai aguenta, aguenta


enlil,

 O Diego de ontem não conseguiu igualar a obra deste Diego

 

Aquilo ontem foi o séc. XVII a entrar pelo nossa época adentro. Ó da guarda, os holandeses de regresso a Salvador da Bahia e desta vez a vencerem; só faltou que trovejasse e os ossos do Padre António Vieira se levantassem do lugar secreto onde estão escondidos para os afoguentarem.

E haveriam logo os oranges de açoitarem sem dó nem piedade uma esquadra espanhola tão petulante e enfeitada como as de outrora, valha-nos que desta vez a coisa durou noventa e poucos minutos e não os oito anos da era habsburga, que para mais – e pior – preludiaram os trinta de guerra que se seguiram.

Em Salvador, terra de orixás, talvez tenham ouvido como eu ouvi, juro que ouvi, a gargalhada fantasmagórica de Mourinho, pela boca da santa de terreiro que por ali pairou, quando o Casillas andou de rojo, de gatas e de rodilhas atrás da bola a saltitar.

Esta Holanda tem um jogo tão impertinente e aleivoso que é impossível não gostar dela.

 

(publicado também aqui)

A Suíça, essa nação universalista


enlil,

A seleção helvética de partida para o Mundial de Futebol

Se há país neste mundo com muito recheio mas sem miolo é a Suíça. Estamos a falar de uma lassa confederação de três línguas e meia, pese embora nenhum linguista se atreva a reconhecer em público que o romanche não passa de uma espécie de alemão disléxico e mal amanhado por pastores, arranhado por menos de 35.000 almas, o quanto baste para ainda se dividir em 5 dialectos, se calhar cada um fermentado à sombra da sua montanha. Daqui resulta que no estrangeiro os suíços falem inglês entre eles – ouvi eu – que é a melhor língua neutra que têm para não renegarem o bairrismo. A Suíça é ainda a mais perfeita e perseverante democracia participativa do planeta, que só funciona graças à extrema contenção e fleuma dos seus cidadãos, aptos a absterem-se por tudo e por nada do que lhes é posto a referendo.

E aqui chegamos à indesmentível conclusão que a Suíça se apresenta como a nação mais inveterada e extravagante entre as que vão tentar a sorte no Mundial de futebol, nem sendo preciso evocar os sarilhos técnicos que provoca o hasteamento da sua original bandeira quadrada.  

Pois fiquem sabendo que embora não tenha minaretes a Suíça tem uma selecção de futebol recheada de apelidos com escassíssima ressonância alpina tais como Granit Xhaka, Xherdan Shaqiri, Ricardo Rodriguez, Johan Djourou, Haris Seferović, Mario Gavranović, Admir Mehmedi, Josip Drmić, ou o leviano Gelson Fernandes (já disse que sou sportinguista?) A causa desta congregação aeroportuária de jogadores é de tal modo óbvia que até eu a posso explicar sem encomendar qualquer “extudo” (pronúncia de pivot noticioso) ao Politécnico de Schwyz, como agora se faz para ter razão: famosos pela agilidade dos seus dedinhos de relojoeiro, os suíços votam um dialéctico desprezo a tudo que mexe com os pés; foi assim que alijaram nos emigrantes a faina futebolística, tal como já fazem com todos os ofícios que não sejam engrenar relógios de corda, contar moedas e ordenhar vaquinhas.

Mas o supra sumo do estrangeirismo da seleção helvética é o seu meio-campo constituído por Blerim Dzemaili, Ghokan Inler e Valon Behrami. Seria possível encontrar nomenclatura menos helvética? Pois não, já que são de origem, respectivamente: albanesa, turca, albanesa.  E há outra peculiaridade que os junta, precisamente a de jogarem todos juntos no Nápoles – foi só tirá-los dali e pô-los aqui. Ora aqui está o que vai facilitar deveras a vida a Omar Hitzfeld, o treinador com as sobrancelhas mais severas do certame.

Em suma a Suíça é o sonho húmido da União Europeia, especialmente nos seus defeitos.

A voz dos teus egrégios avós


enlil,

Bem sei que a partir do dia 11 estareis todos, Portugal e o restante planeta, suspensos do menor suspiro de Cristiano Ronaldo, aflitos por notícias sobre a sua digestão do pequeno-almoço, dependentes, como se da vossa ventura se tratasse, das délficas exegeses de cada um dos seus esgares, proporcionadas por uma bataria de experimentados nigromantes televisivos.

Ouso porém, apesar da magnitude das vossas inquietações, distrair-vos para um assunto radicalmente diferente de Cristiano Ronaldo. Imploro-vos que façam o favor de desviarem o vosso olhar, por um átomo de tempo, do que sucede lá no topo da Equipa de Todos Nós (EDTN) e repararem no que discretamente está ocorrendo lá em baixo, nas catacumbas da defesa.

Desde os tempos de Gentile, senhor de assento seguro no panteão dos maiores facínoras que alguma vez pisaram relvados internacionais e o mais orwelliano dos futebolistas porque tudo o que fazia era o oposto do nome que tinha, desde os idos desse Mundial espanhol de 1982 que ninguém se lembra de haver uma seleção de futebol – nem mesmo anteriores e famigeradas EsDTN que em bravatas ultrapassaram a aura de uma Argentina ou de um Uruguai, mérito que só os portugueses ainda não reconheceram – cuja defesa é constituída por uma quadrilha de contumazes capaz de suplantar em ruindade a de Jesse James.  

Enquanto todos os outros jogadores do campeonato, por cortesia com os anfitriões, afinarão fintas e jogadas pelo ritmo do samba, da defesa da EDTN o mundo aguarda que se inspirem na dança dos pauliteiros de Miranda ou que se comportem como um rio infestado de jacarés que aos adversários tentarão atravessar a vau.

botinhas lindas

À extrema-direita evoluirá João Pereira, aquele que com Jorge Jesus será um dos últimos espécimes de uma etnia indígena em vias de extinção: o autêntico lisboeta. Bem mais fiel às sua origens do que Ulisses, João Pereira inscreveu-as a fogo e sangue nas botas: na direita “Meia Laranja” na esquerda “Casal Ventoso” – quem percebe de antropologia e de semiótica perceberá o que isto significa. Um dos mais inolvidáveis momentos da minha perseverante carreira de espectador de futebol, foram aqueles segundos do glorioso desafio entre o meu periclitante Sporting e o pujantíssimo Manchester City, para os oitavos-de-final da Liga Europa 2011-2012, em que na disputa de uma bola fora, o nosso Joãozinho, estribado no seu 1,72m, fez peitaça ao 1,89 do irascível Balotelli. Tal terá sido a protérvia do olhar de Pereira que o italiano de crista loira, por uma vez jamais repetida, se temeu e retrocedeu.

Ao centro da defesa da EDTN plantar-se-ão Bruno Alves e Pepe, dois pilares do inferno.

O caso de Bruno Alves explica-se pela genealogia. Ele é filho de Washington, um arranca-corações brasileiro que passeou pelos relvados nortenhos, entre Espinho e Varzim, na bíblica década de 70. À sua volta Washington criava uma área de exclusão de pelo menos 5 metros quadrados, imposta pela sua torreada figura, pela carantonha e, dizem, por um jorro de recomendações à família no criativo linguajar carioca – ali ninguém tinha licença de entrar. Ó maravilhas da genética: tal pai, tal filho.

Washington aproximando-se

Washington de perto 

Quanto a Pepe, a sua fama napoleónica já rodou o mundo e até a depurada revista americana “New Republic”, tão interessada no exotismo do futebol como em entomologia, deu voz ao escritor Jess Walter para exprimir o que todos pensamos: como foi inolvidável a cena em que Pepe, após ter espalmado no chão o peneirento Javier Casquero, daquele clube chamado Getafe, ainda o recalcou com um par de pontapés nas costas – uma ode à virilidade, à contumácia, ao capitalismo selvagem.

Até te adeceibo todo

À extrema-esquerda prontifica-se Fábio Coentrão, que apesar das perturbações capilares provém desse alfobre de lidadores que é Caxinas. Haverá mesmo um “caxinas style”, tese a ser um dia desenvolvida pelo saudoso conceptualista Carlos Queirós, um futebol com pêlos na palma das mãos, todo feito de vagalhões, rochedos e espinhas de peixe, que foi interpretado com desvelo por estilistas como Paulinho Santos ou André. Pois Fábio será o terceiro cateto deste triângulo, forma que representa, como se sabe, a ordem primordial das coisas.  

Estes quatro cavaleiros por assim dizer do Apocalipse, serão o patriótico último reduto de Portugal no sertão baiano, as nossas linhas de Torres em plena floresta amazónica, o garbo e esplendor do estro lusitano que relampejarão no planalto central. A nossa alma de fadistas, toureiros, capas negras, malteses, marialvas e raianos estará de certeza muito mais caldeada nos feitos dos patibulares João, Bruno, Pepe e Fábio, do que nos peitorais publicitários de Cristiano, ou no penteado cosmopolita de Ronaldo.

Obrigado pela vossa paciência. Ide agora sofrer em descanso pela EDTN.

Uma campanha alegre


enlil,

As reportagens chegaram-nos repletas de velhas desdentadas de bandeirinha na mão, homens de bigode, de esguelha para a câmara, a gritarem “vai trabalhar malandro” e cães a ladrar à caravana que passa – metonímias do mirífico “país real”. O repórter assinará com sarcasmo a “visão crítica” que o editor lhe pediu e uma semana depois fará figura entre os colegas (já não há camaradas nas redações…) relatando-lhes as confidências do “Paulo” e do “Francisco”.

Aos candidatos exige-se que exprimam em menos de dez segundos, para não aborrecerem, como irão resolver os magnos dilemas europeus tais como a recuperação económica, a ineficácia das instituições, a questão dos tratados da união. Para abreviarem as suas razões, uns brandem estudos, outros propostas concretas, os menos ouvidos afivelam um esgar de ironia que demonstre superioridade intelectual face à concorrência. Todos acabarão esgotados sem nunca terem sido escutados.

Os comentadores escalpelizam com fervor o que “ele quis dizer quando disse” e discutem entre si as suas taxativas opiniões – horas mal pagas nisto. Nenhum deixará de manifestar uma enorme credibilidade, a despeito desse fenómeno equívoco que é a verdade, ou dessa longínqua miragem que é a realidade.

No fim, uns cavalheiros eloquentes e apreensivos, sinais ineludíveis de prestígio, concluirão que a campanha foi muito fraca, os assuntos não foram discutidos a sério, os candidatos eram ocos e o povo é uma besta ignara. Pomposamente decretarão que é mesmo preciso haver um debate sério sobre isto.

Filmes de um dia inteiro


enlil,

 

Hitler: ein film aus Deutschland”, Hans-Jürgen Syberberg, 1978

 

“Le soulier de satin”, de Manoel de Oliveira, 1978

 

Entre os filmes que me dá mais prazer recordar – é para recordá-los que servem os filmes, depois do indispensável gosto imediato de os ver – estão aqueles que se poderiam denominar, à falta de melhor apelido, os “filmes compridos”.

Os “filmes compridos” não são lentos nem rápidos, embora a falta de pressa seja um gene muitíssimo comum a todos eles, o que leva algumas almas cândidas a raciocinar que se a cadeira tem pernas e o homem tem pernas, então a cadeira é um homem.

Os “filmes compridos” são aqueles que não cabem no nosso tempo, nós é que temos de caber no tempo deles. “Hitler” de Syberberg, com as suas incansáveis sete horas e meia, ou “Sátántangó” do melancólico magiar Béla Tarr, com igual duração, ou ainda “Le soulier de satin” (de Manoel de Oliveira, claro) que nos submerge durante sete horas, estão entre os exemplos mais vívidos e exponenciais deste atípico passatempo que consiste em passar um dia inteiro a ver decorrer um filme diante de nós. Convém notificar que se trata um gosto adquirido, ou seja, exige muitíssima predisposição e algum treino, sem o que o espectador corre grandes riscos de sair do filme com as nalgas amassadas, uma eventual dor de cabeça e uma deplorável sensação de ter perdido o equivalente a uma jornada de trabalho. Comparem-se, portanto, os “filmes compridos” ao álcool: insuportável na primeira vez que o tragámos, mas com o tempo e a experiência, cada vez mais distintivo e apreciável – mas só para quem quer…

Claro que os “filmes compridos” verdadeiramente interessantes, ao pedirem-nos um dos bens mais preciosos da vida contemporânea – o tempo –, têm a delicadeza de não pedir a nossa atenção indivisível. O bom “filme comprido” está consciente que tempo e atenção fazem um jogo de soma zero, pelo que na maior parte das vezes podemos sair e entrar da sala, ir fazer chichi ou beber um café, que ele espera por nós. É por isso escusado perguntar pelo enredo ou pelas personagens dos “filmes compridos”, pois deles o que perdura é sobretudo um pathos em vez de uma narrativa com cabeça, tronco e membros. O que se pode dizer, por exemplo, ao fim das seis horas de “Near death” de Frederick Wiseman, senão que estivemos um dia nos corredores de um hospital de doentes terminais?

Os “filmes compridos” só têm um problema grave, que é o de serem presa fácil da tanatologia académica, propícios a serem esquartejados nas mesas de autópsia por essa espécie necrológica que é a crítica, incubadora de um enxame de varejeiras analíticas.

Fora isto, são tão perfeitos como uma longa e luxuosa viagem, daquelas que só conseguimos fazer muito de vez em quando.

Crucificações


enlil,

Marc Chagal, “Golgotha”, 1912 

Fragment of a Crucifixion.jpg

 Francis Bacon, “Fragment of a crucifixion”, 1950 

 Léon Ferrari, “Western-Christian Civilization”, 1965 

 Chris Burden, “Trans fixed”, 1974 

Hughie O’Donoghue, “Blue crucifixion”, 1993-2002

 Bernard Pras, “Christ”, 2002

Andrés Garcia Ibanez, “El Cristo de la Muerte”, 2003

David Mach, “Die harder”, 2010

Desapareceu


enlil,

 

A revolução coperniciana ainda só tem quatrocentos e picos anos, um tempo manifestamente insuficiente para a termos interiorizado no nosso dia-a-dia.  Depois dela, compreender a natureza passou a ser uma pura construção mental, feita de modelos matemáticos e observações que os vão reiterando. Ou seja, o senso-comum, esse bem tão precioso em certas instâncias da actividade humana, pode bem ser um obstáculo quando se quer demonstrar que ainda ninguém viu claramente visto a Terra girar à volta do Sol, e que não há nenhuma prova empírica para essa bizarra ideia, todos os dias desmentida pela nossa observação. Sucede simplesmente que o modelo continua a funcionar e por isso continuar-se-á a tomá-lo como correcto.

Repare-se que do vôo MH370 até agora não se achou nem se viu nada. Os únicos elementos que existem dele são meros sinais elétricos que foram arduamente interpretados a partir de conjecturas matemáticas. Ora aqui está um exemplo supremo do intenso combate entre a inteligência humana e a natureza; o pouco que sabemos, sabemo-lo por pura dedução e por esforçada inferência, a partir de instrumentos.

Este caso extraordinário deveria reconduzir-nos à consciência não só da nossa abissal ignorância, como tem tudo para nos fazer reflectir sobre a forma como habitualmente pensamos as coisas, sobretudo noutras áreas da nossa vida: porque temos sempre que ir a correr para explicações quando elas simplesmente não existem? Porque nos entregamos ao logro imenso da especulação a partir de esquivas e insonsas provas empíricas? Porque levamos tão a sério o jogo rectórico onde sempre triunfa aquele que fala mais alto ou mais persuasivamente?

Sim, é possível que um vulto gigantesco como um Boeing 777 desapareça da realidade sem deixar rasto. Contra isto não há opinião que valha.

A vida é um romance


enlil,

 

O pior vem sempre depois, quando os epígonos radicalizam as ideias do mestre, procurando afirmar-se entre si nessa tresleitura. Foi o caso do noveau roman que acabou estilhaçado às mãos dos desconstrutores do discurso, desvitalizando-o irremediavelmente até se transformar na peça de museu que é hoje.

Com o noveau roman caminhou Alain Resnais no início e se os seus filmes sobreviveram ao despautério tal se deve à sua crença na narrativa. Uma narrativa que se vai pensando, à maneira kantiana, não é forçosamente uma narrativa que vai estiolando. E a prova ficou nos magníficos “Hiroshima mon amour” (com argumento de Margueritte Duras) ou em “L’Anée dernière à Marienbad” (com Robbe-Grillet). Estes filmes mantêm hoje uma doce frescura porque, tal como Resnais mostrou depois, acreditam no cinema.

E o dínamo desta crença terá sido a ironia (amável, não a jocosa), o que vem demonstrado em “Providence” (1977), em que a vaga e acintosa memória de um velho recapitula a sua vida, e em “Mon Oncle d’Amerique” (1980), que passa ao cinema os enredos da psicologia evolucionista de Henri Laborit. Em ambos os filmes o que sucede verdadeiramente é o nosso prazer em sermos enganados por uma narrativa, como se fossemos uns pobres James Stewart atrás da Kim Novak de “Vertigo”.

Bastariam estas delicadas e muito prazenteiras filigranas para acalentar Alain Resnais na memória. Vai uma aposta como daqui a 50 anos ainda estará vivo?  

Há festa em Hollywood


enlil,

 

Durantes as próximas horas metade da comunicação social vai perguntar à outra metade quais são as suas previsões para os Óscares.

Personalidades-de-reconhecido-valor serão interrogadas por microfones ansiosos e debitarão opinativamente acerca da “celebração do cinema”, as “virtualidades de Hollywood”, ou o “apogeu da narrativa ficcionada”. Haverá quem esteja contra (“repensar o imaginário veiculado pela cultura [imperialista] americana”) ou a favor (“o potencial eufórico da cultura cinematográfica”). Lá mais para o fim, caso seja necessário encher o ar televisivo, serão recolectadas as pungentes opiniões de Carlos Mané, Paula Bobone, ou Marcelo Rebelo de Sousa. Certo será que ninguém desperdiçará a oportunidade de se elevar à posição de oráculo, prevendo os resultados dos Óscares, com pose de meteorologista a explicar a evolução do anticiclone dos Açores.

Por mim, só tenho pena de já fazer uns anitos que não ponho os pés no Ivy’s, na Robertson (“Get shorty” – “Jogos quase perigosos”), onde o pessoal da indústria bisbilhota e conspira durante o brunch; nem tenho frequentado o Dan Tana’s, em West Hollywood, observando os produtores serrarem bifes e roerem charutos, e cujos empregados são todos potenciais figurantes de um filme de wise guys. E sobretudo deploro nunca ter recebido um convite para a imprescindível festa da Vanity Fair, que  anda com tenda às costas desde que o Morton’s fechou.

Mas quem quiser espreitar como funcionam os sindicatos de voto nos Óscares, visione ou revisite, o 7º episódio da 6º temporada de “Sopranos”, intitulado “Luxury Lounge”, no qual o instável Imperioli/Moltisanti de visita a Hollywood, percebe que as vedetas de Los Angeles têm mais borlas com menos esforço do que os pobres mobsters de New Jersey. Certificam esta informação os sarcásticos cameos de Ben Kingsley e Lauren Bacall nesse episódio.

Conheci um jornalista português que foi à cerimónia dos Óscares. E o que aconteceu foi terem arrebanhado a malta de jornalistas, e depois de lhes oferecerem o biscoito de uns minutos passados na orla da passadeira vermelha – na qual os repórteres são parte fundamental do cenário e da festa, acrescentando-lhe excitação, barulho e flashes – conduziram-nos pressurosamente para uma sala nas catacumbas do Kodak Theater (hoje rebaptizado com o naming de Dolby Theater) onde puderam ver o show… pela televisão. Na verdade o meu amigo esteve lá, pode dizer que respirou o ar eléctrico de Hollywood, mas viu exactamente o mesmo que eu vi, sentado num sofá a 8 fusos horários de distância.

Aliás, nem a maior parte dos convidados e participantes para a gala assistem ao espectáculo, pois, como é sabido, passam a maior parte do tempo a tagarelar, a conviver e, sobretudo, a beber dry martinis nos bares do cinema, enquanto as suas cadeiras são preenchidas por um batalhão de figurantes de smoking, que asseguram o aspeto da sala cheia durante a transmissão. As vedetas, mais que os restantes (noblesse oblige…), só estão realmente sentadas no anfiteatro os curtos momentos em que as vemos presentes.

Lamentavelmente não sei quem vai ganhar os Óscares, mas vou-me divertir imenso este fim de semana à custa deles.  

Humano, demasiado humano


enlil,

O segredo estava à vista, filme após filme, mas todos virámos a cara para o lado a fingir que não o percebíamos. Agora que morreu Philip Seymour Hoffman, talvez seja possível falar dele. Esqueçam George Clooney, é assim que queríamos ser, é assim que querem que sejamos, mas o planeta é demasiado pequeno para que na mesma geração caiba outro homem como este, capaz de vender a alma ao diabo por um café e, apesar disso, não ser esmagado por um piano.

Seja então revelado que com quem verdadeiramente nos entendíamos era com Paul Giamatti e Philip Seymour Hoffman (ambos nascidos no Verão de 1967) (os melhores actores da sua geração, duvide quem quiser…): truculentos (porque o chão que pisamos é um declive), hirsutos (a única forma de parecermos desprendidos), esgazeados (como o lobo, quando ainda julgava que iria comer o capuchinho vermelho), alarmantes (ferir antes de ser ferido) e, no fim, ter um arzinho de filho pródigo que regressa a casa (ou pelo menos tem vontade disso).

Philip e Paul entravam nos filmes, não para serem vistos, mas para deixar rasto e – mal de nós – só contracenaram no pequeno “The Ides of March” (“Nos idos de Março”), realizado e protagonizado por Clooney, precisamente – tudo vai ter ao seu lugar…

Philip Seymour Hoffman era camaleónico? Era. Nunca o víamos aparecer debaixo das personagens? Nunca. A sua presença absorvia todo o ar à volta, como se não houvesse mais ninguém, nem amanhã? Sim. Mas como o seu prodígio consistia em encenar a vulgaridade (há coisa mais difícil de dramatizar do que a banalidade?) também conseguiu morrer tarde de mais para ser idolatrado (bem depois dos canónicos 27 anos) e cedo de mais para ser venerado. Tudo está mal quando acaba bem.

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