Este folheto do Radio Shack, retalhista de electrónicas nos EUA, data de 1990. Hoje todos estes aparelhos e gadgets estão condensados dentro de um telemóvel.
O progresso
enlil,
Fica então resolvida de vez uma questão que tem afligido a humanidade, o sector euro-caucasiano dela e seus influenciados, pelo menos.
No dia 9 de Janeiro deste ano a escritora e investigadora Mandy Len Catron publicou no NY times o ensaio “To Fall in Love, With Anyone, Do This”, que num piscar de olhos disparou para os oito milhões de visitas, assim provando que correspondia a uma necessidade premente das populações leitoras daquele diário. Não se tratava de uma frivolidade, pois a peça estribava-se num estudo cientificamente académico (ou vice-versa) – cuja inapelável seriedade inscreve-se logo no título: “The Experimental Generation of Interpersonal Closeness: A Procedure and Some Preliminary Findings” – publicado pelo Professor Arthur Aron e sua equipa (de passagem demonstrando que hoje em dia só se pode alegar uma ideia com a caução de um estudo e que há estudos para caucionar tudo). De seguida, num gesto de generosidade e fidúcia, o jornal oferece à puridade uma app que permite a qualquer par de indivíduos apaixonar-se ao fim de 36 perguntas e quatro minutos de jogo do sisudo.
Embora o instinto de defesa nos leve a iludir o facto, todos sabemos que as noções de “amor” e “felicidade”, tal como apaixonadamente as diligenciamos e vivenciamos no nosso dia-a-dia, foram inventadas no séc. XVIII, por poetas que as implantaram na Idade Média (época que eles fantasiaram com inigualável arte), prosseguindo hoje o debate para determinar em que proporção as devemos a Rousseau, a Goethe ou a Byron. Há mais de 200 anos, portanto, ou só há 200 anos…, que andamos com os humores cerebrais atribulados por esta idealização romântica, a qual não deve ser confundida com o amor bíblico de Deus pel@s human@s, embora canonicamente um bocadinho mais por eles do que por elas, ou o amor instintivo e biológico de mãe pelas crias.
Uma das crises mais perturbantes da vida moderna é assistir ao espectáculo de pessoas apoquentadíssimas com os seus sentimentos, prolongando melancolicamente pela vida adulta os avatares da adolescência, fase em que as hormonas e as utopias desarranjam o entendimento. Esta situação é tão comum e preocupante que pelo menos três indústrias (a literária, a musical e a cinematográfica, em suma: toda a cultura) se têm dedicado com persistência e argúcia dissecá-la. Em Portugal apenas a Sra. D. Margarida Rebelo Pinto porfia nesta matéria, com tão pouco sucesso e muito menos resultados financeiros do que os seus congéneres mundiais.
Pois é tudo isto – quase 3 séculos de apaixonado labor, caramba! – que o NY Times e Mandy Len Carter desmobilizam numa penada.
Assim sendo, façamos todos o teste e arrumemos o assunto. Uma coisa é certa: sairá mais barato do que o bilhete para o filme “Anatomia de Grey” que já de si é mais económico que um conjunto de lingerie da Victoria’s Secret.
PS – Espero que no dia dos namorados o leitor tenha comprado no comércio local produtos vegetarianos e orgânicos – vê como é simples adquirir um estado de beatitude moral?

Wolinski sale con, esta nem de encomenda…
Educado numa dieta de Tintin e Pilote, quando nos fervores de 74 me caiu nas mãos o voluminho “Ils ne pensent qu’à ça” de Wolinski, recuámos horrorizados, eu e o meu puritanismo revolucionário de então. Um tarado que se dizia de esquerda, como toda a gente à época, publicava (e logo na esmerada In Folio da Gallimard) um punhado de cartoons verdadeiramente ordinários e meramente provocatórios, abusadores da “liberdade burguesa” mas sem uma “perspectiva” (como se dizia) de libertação, vinhetas machistas, onanistas e solipsistas, repletas de mulheres-objecto e homens falocratas.
Mais tarde dei conta dos antecedentes desta pouca vergonha: o efémero pasquim “L’Enragé”, nascido nos contra-tudos do Maio de 68 de parceria com outros delinquentes da estirpe de Siné, Cabu, Topor e Williem. Um radicalismo quase niilista, à margem de qualquer disciplina, com o fito exclusivo de irritar o burguês francês (e, mon Dieu, nunca houve burguês como o francês), ou seja, sem apontar “alternativas”, “atitude indispensável” para uma “política consequente e transformadora” – estão a ver pelas aspas no que deu hoje a esquerda de antanho?
Pois este Wolinski nunca desde então moveu uma palha para cá dos limites da ordinarice, dos ataques pessoais, da piada porca, do insulto rasca, ou seja dos indefinidos confins da liberdade de expressão.
Morrer desta maneira aos 80 anos foi o melhor que lhe poderia ter acontecido. Abençoados terroristas que transformaram Wolinski no produto supremo da nossa civilização, a única – sim é etnocentrismo – capaz de aceitar com simples um c’est la vie a obra deste genial bandalho.
Wolinski, a partir de hoje serás o meu herói e quando me vierem falar de liberdade, terei um argumento atómico: “permitirias um Wolinski?” Menos que isto não interessa.
Liberdade é aceitar a expressão daquilo que não se gosta. É defender e não tolerar (que tresanda a condescendente) a sua existência, é repudiar mas não querer proibir, é não dizer “pôs-se a jeito” ao que achamos reprovável.
Nunca gostei do escabroso, inconsequente, insultuoso “Charlie Hebdo”.
Viva o detestável “Charlie Hebdo”!
Só oiço jazz, género que me deixa musicalmente saciado. De vez em quando, se bem orientado, faço tímidas incursões no espesso território da música dita clássica ou oiço na rádio uma canção a que não fico indiferente. Afirmar de modo tão taxativo este meu gosto pelo jazz não me faz especialmente refinado, assim como alguém que radiantemente despeite o jazz não se torna mais irónico. Convém, portanto, não contribuir para essa deplorável forma de arrogância que presume o seu gosto pessoal como mais interessante e inteligente que o de outrem.
Para o leigo ou desinteressado, o jazz é monótono; uma infindável repetição de acordes digressivos em cima de uma base harmónica por vezes insólita, outras vezes modesta. Por ter prescindido da palavra, também parecerá inexpressivo e melodicamente rudimentar. No entanto, esta pequena ilha musical habitada por aficionados grisalhos é um pouco como o nó da gravata: há bastante tempo que não está na moda, mas há muita gente que o faz todos os dias.
Em 2014, tal como noutros anos, produziram-se no jazz gravações de gabarito, mesmo que ninguém esteja em condições de assegurar que daqui a 10 anos ainda sejam recordadas. Tal imprecisão reflete-se nas escolhas dos melhores trabalhos do ano. Rever as diversas e prolíficas listas enunciadas pelos patriarcas da crítica por esse mundo fora, resulta na constatação de que não existem duas selecções iguais, todas fascinantes e nenhuma despropositada. Esta que abaixo se compõe será, assim, mais uma entre tantas, maculada (afinal como as outras…) por um gosto pessoal e por um inapelável alinhamento com o pós-modernismo marsaliano dos anos 80 a que os prosélitos do vanguardismo chamarão de conservador (se não percebeu o significado da frase anterior não se preocupe, é apenas uma private joke jazzística).
(Salvo se o leitor for psicanalista, considere-se a ordem aleatória):
“Road shows, volume 3” de Sonny Rollins, provando que os deuses ainda falam connosco.
“Magic 201”, em que Frank Wess demonstra qualidades equivalentes às do vinho do Porto.
“The art os conversation”, um diálogo que dura há 30 anos entre o pianista Kenny Barron e o contrabaixista Dave Holland – finalmente sós…
“Trip” em que o idiossincrático Tom Harrell (clinicamente esquizofrénico, Harrell só encontra paz mental na música) vai de viagem com o tenor Mark Turner para um lugar que só eles sabem.
“The Imagined savior is far easier to paint” o terceiro passo do trompetista Ambrose Akinmusire confirma-o com o “ai jesus” do actual momento do jazz. Que ele debique noutros géneros musicais (como fez Jason Moran em “All rise”) é caso para se ficar atento ao destino destas direcções.
“Habitat” de Christien Jensen Orchestra. Longe vão os tempos das grandes orquestras de jazz, não há dinheiro para tais aventuras. E no entanto Christine Jensen logrou juntar um ensemble de 20 elementos, prescindiu do clássico swing e obteve uma inigualável textura lírica.
“Quiet Pride: The Elizabeth Catlett Project” de Rufus Reid. Transfigurar esculturas (de Elizabeth Catlett) em música é a conseguida ambição desta obra. Mas o melhor é ouvir como um contrabaixista que sempre foi complementar (o que no jazz não é defeito, apenas modéstia), atinge semelhante grau de requinte e primor aos 70 anos.
“Landmarks” de Brian Blade. Ao terceiro compasso já se sabe de olhos fechados que se está a ouvir Brian Blade. O jazz mais melódico e sentimental dos dias de hoje. Um pouco de doçura só faz mal a diabéticos.
“Mise en Abîme” de Steve Lehman e o seu octeto. Jazz de fusão, mas não dessa dos anos 70. Fusão entre as técnicas de composição espectralistas (faça o favor de ir ver à wiki, porque agora não há tempo para explicar) e electroacústicas, com as harmonias do jazz. Primeiro estranha-se e depois torna-se a estranhar antes que se entranhe. Talvez demasiado cerebral, mas nunca desinteressante.
“The great lakes suite” de Wadada Leo Smith. O freejazz já tem meio século mas ainda julga que é novo. Poucos dos seus mestres resistiram à repetição ad nauseam das dissonâncias e da des-construção, ou seja, ao seu próprio academismo. Como todos os cardeais, Wadada Leo Smith às vezes tem pensamentos heréticos, mesmo que não cheguem para renegar de todo a fé no free – este foi um deles. Quem não for aficionado aproxime-se com cautela.
“Fuzzy logic” de Taylor Haskins. Nem o trompetista é muito conhecido, nem o disco deu muito que falar, mas foi das coisas que me deram mais prazer ouvir em 2014.
Se me perguntarem daqui a meia hora, fornecerei uma lista de certeza diferente, pois não é verdade é que há mais jazz do que orelhas para ouvi-lo todo? Haveria de sair deste mundilho porquê?
(11? Sim, porque haviam de ser 10, ou 12? Ide agora por essa net fora à procura deles.)
Ida antes de ouvir John Coltrane
Ida ouvindo John Coltrane
Polónia, anos 60, catolicismo (a protagonista é freira), culpa (a tia da protagonista, ex-juíza, condenou inimigos do estado à morte nas purgas vermelhas de 50) e John Coltrane. Se não fosse o último item tudo em “Ida” seria demasiado óbvio à partida, mesmo que à chegada acabássemos por sentir a espada fria do desalento – haverá verões na Polónia? – que corta todo o filme. Planos longos e muito quedos (e tensos), enquadramentos esvaziados de quinquilharia cenográfica e ritmo pouco atribulado, não são meras marcas de estilo – do estilo que se espera das cinematografias outrora “do leste”, hoje da “europa central” – mas uma necessidade dramática. Não havia outra maneira de mostrar nem de transmitir isto. “Isto”, posto em filme contemporâneo, é um formidável ajuste de contas da Polónia com o seu presente, fingindo que se mostra o passado. O tema “Naima” de John Coltrane (“Giant steps”- 1959), posto aqui e posto assim, é o rasgão de luz efémera que por momentos cintila em “Ida”, capaz de alinhar todas as peças no seu lugar e virar o tabuleiro ao contrário – um golpe de génio, tão comedido como a narrativa do filme. Noutras cinematografias prefere-se a auto-punição ou o género sempre-em-festa, ambas formas de não olhar, nem sequer para o umbigo. Chama-se Pawel Pawlikoswski o autor desta pérola.
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Estreou-se neste ano de 2014 mais um troço da extensíssima perquirição de Frederick Wiseman (84 anos de idade) às instituições públicas contemporâneas, que já tem 43 peças. Por junto Wiseman oferece-nos a mais formidável memória futura da nossa civilização – se um dia ela desaparecesse, bastariam os seus filmes para entendê-la. Desta vez escalpela a National Gallery de Londres de maneira mais breve que o habitual, só durante 180 minutos. Se o tivesse visto seria decerto um dos filmes do ano.
O Washington, o Jefferson e o Franklin da revolução televisiva
É possível que o actual apogeu da ficção televisiva constitua o preâmbulo da inexorável falência da indústria audiovisual tal como ela hoje opera, ou seja, segundo o modelo de negócio vigente. Para onde se vai ninguém sabe, onde se está só alguns entendem, aqueles que tomam decisões, quase todas em função de dilemas instantes. Olhando na direcção certa não é difícil verificar que constelação de influências deu azo a que hoje, na(lguma) televisão, se possam ver as mais inquietantes, refinadas e sagazes narrativas, com génio e têmpera de meter o cinema no sapato. Averiguando as audiências televisivas dos EUA (porque as respostas hão-de ser avistadas no terreiro dos mercados, lugar onde estas coisas se tramam, e não nas nuvens institucionais, no seu melhor limitadas a diagnosticar resultados), constata-se que os canais de cabo pago (HBO, Showtime, etc.) lograram uma massa crítica de assinantes que lhes propiciou orçamentos de produção ao nível das estações generalistas. Estribados nesta fartura, irreproduzível noutros territórios, nomeadamente europeus, demandaram à conquista dos segmentos de audiência mais sofisticados, por hábito resilientes à televisão e à sua corrente oferta ficcional. Significa isto que uma sequência de séries impossíveis em canal aberto, como “Sopranos”, “Dexter” Californication”, “The wire” “Generation Kill”, “Six feet under”, “Big love”, “True blood”, “Deadwood”, “Weeds”, “Boardwalk empire” e “Breaking bad”, teve o poder e a virtude de recolher ao redil da televisão espectadores desavindos, que nelas surpreenderam um desafogo de inteligência, irreverência e originalidade, assim alargando a base de clientes de tão selectos canais. Estamos elucidados quanto à “criação de novos públicos”, um mantra muito recitado e pouco acertado – it’s economics, stupid…
Ainda não houve neste século, nem na literatura nem no cinema, personagem com a dimensão comparável à de Walter White (o definitivo Bryan Cranston) de “Breaking Bad” (“Ruptura total”) quer lhe peguemos pela tragédia quer pela farsa. Com a temeridade própria dos desesperados, Walter White arrasta o seu cancro terminal ao longo de 62 horas, perverte toda a ordem estabelecida, seja a familiar, seja a legal, seja a criminal (porque no crime há uma ordem muito estrita) no passo em que eleva o sarcasmo, o farisaísmo e um sentido utilitário dos escrúpulos a patamares inéditos, sobretudo porque nunca resvala para fora das baias do quotidiano e não incorre na fastidiosa panóplia de tons épico, melodramático ou lírico, que habitualmente se usa para enlear o sentimento do espectador.
Tendo Walter White recebido ceptro & coroa de Tony Soprano, quem lhe terá sucedido no trono após a sua esplêndida morte? Ouso denominar Will McAvoy, o anchorman, ou pivô, em português de gema, de “The newsroom” – há condições para afirmar que Jeff Daniels era um actor persistentemente desinteressante até dar a pele por esta personagem.
“The newsroom” é apresentado como “uma criação” de Aaron Sorkin. Estamos assim em face de um ordenamento industrial em que argumentistas (uma bateria deles), realizadores (todos com crédito seguro, nenhum com cartel de auteur), produtores executivos e demais artistas ou colaboradores, subsumem a sua participação criativa à batuta abrangente de Sorkin. Sendo a ficção de cinema americana essencialmente politizada – fenómeno que tanto irrita as facções mais reacionárias dos Republicanos quanto é desapercebida pelos olhares europeus – Sorkin é aquele que melhor converteu a política pura e dura em ficção, com paralelo histórico talvez em I.A.L. Diamond e poucos mais. Do seu palmarés como argumentista avultam “A few good man” (“Uma questão de honra”) obsequiando Jack Nicholson com o melhor momento da sua carreira ao recitar um dos discursos mais ambíguos, desassombrados e desconfortáveis da história do cinema (perfeito anti-Capra); “Charlie Wilson’s war” (“Jogos de poder”), “Moneyball” (“Jogada de risco”), que devia ser de visão obrigatória para qualquer decision maker (pardon my french…) e a série de TV que lhe trouxe popularidade “West wing”. O que singularizar e sublima “The newsroom” será o abandono de qualquer pretensão naturalista, ideia prodigiosa sendo o jornalismo a matéria da série. Sorkin dispensa ostensivamente a credibilidade para ambicionar alguma verdade, pois essa coisa da “credibilidade”, tão diligenciada nas indústrias emparelhadas da informação e da ficção, é erário de burlões, sem o qual seriam incapazes de cultivar a sua arte. Cada episódio constitui-se, assim, num pequeno debate sobre ética, desde os processos de trabalho às relações afectivas. E este plano invejável e impossível de comportamentos revela-se por diálogos e frases de supina perspicácia e gramática; ninguém fala assim, com réplicas súbitas e argutas, com tamanha agilidade verbal e tanta intuição imediata das questões; ninguém discute desta maneira, tão mental e emotiva, sem, no entanto, descair na mesquinhez, na sua típica forma de insulto pessoal; ninguém em “The newsroom” pergunta que horas são ou se o café está quente, todas as palavras são usadas para exprimir estados de alma estratosféricos. “The newsroom” não imita a realidade, mostra-nos o que na realidade deveria passar no íntimo das cabeças jornalísticas em plena posse das suas faculdades. Que o faça de maneira amável com o espectador, sem lhe dar lições de moral nem fazer com ele chantagens emocionais, e de forma delicada com as personagens, permitindo-lhes a dúvida e a incerteza, que é a maneira de não as ajuizar, faz de “The newsroom” um prodígio de escrita e de narrativa, só ao alcance de talentos e recursos incomparáveis.
Scorsese na cama com os actores
Como estreou em 4 de Janeiro deste ano, começo logo por deturpar as regras protocolares do “filme do ano” elegendo “O lobo de Wall Street”, um original de 2013, entre os meus predilectos. Um Scorsese premium sem dúvida.
Tal como os grandes jogadores que sabem envelhecer em campo, Scorsese já não corre como outrora mas continua a imprimir velocidade no jogo. Os movimentos de câmara são agora menos ofegantes, a montagem é menos brusca, apostando não tanto no contraste (aquele espécie de “montagem de atrações” em que cada plano seria a antítese do anterior) como num constante incremento: o que vem a seguir precipita a potência do que ficou para trás; e toda a continuidade do filme já não tem a forma da típica montanha russa de Scorsese, mas faz-se numa espécie de “queda para cima”, em que o clímax coincide com o momento em que tudo e todos se estatelam. A duração das cenas permite entender “O lobo de Wall Street” como um filme de actores – em memória do confuso cinema dos sixties – com as alterosas dificuldades inerentes ao conflito entre uma ampla latitude de planos para especificarem as personagens mas sem qualquer margem para apontamentos digressivos e especulações histriónicas.
Que semelhantes e fatigantes propriedades estejam a cargo de um director de 72 anos e de uma montadora, a infalível Thelmas Schoomaker, de 73 anos, é obra de se lhes tirar o chapéu.
Só na vida real ou num filme de Scorsese poderia ser verosímil a história de um grupo de compinchas de infância, nados e criados num arrabalde proletarizado (Long Island, que no seu melhor será a Costa da Caparica de Nova Iorque…), de gosto e educação duvidosos, impostores e oportunistas, que exploram a cupidez da bolsa de capitais e de caminho comprovam que, nos métodos, haverá pouca diferença entre as gravatas de seda italiana dos correctores de Wall Street e os fatos de treino com grossa corrente de ouro que eles ostentam.
Desde que o calvinista Godard decretou que “os travellings são uma questão moral” ficou óbvio que a amoralidade (bem diferente da imoralidade) é uma perspectiva virtualmente inatingível em cinema. Está nisto o supino talento de Scorsese: gerar uma permanente sensação de alarme em cada enquadramento e em todas sequências, que nos arrasta para um estado de empatia com os escroques e nos suspende o juízo a pontos de darmos connosco do lado errado da ordem pública (sequer poderemos argumentar que seríamos inocent bystanders), emocionalmente envolvidos naquelas trapalhadas. Claro que isto é devastador, para nós, que estávamos tão agarradinhos aos nossos princípios, e para os sujeitos que Scorsese manipula, demonstrados desde o início como objetos à deriva na corrente do capitalismo financeiro, peças soltas da engrenagem, que a entopem e avariam mas não desmantelam – somos todos atirados para fora de pé sem bóia nem natação.
Gosto muito de filmes que se inclinam demasiado, em vias de desabarem a qualquer momento, sempre a pisarem o risco do grotesco e do burlesco – há lá coisa mais complicada em cinema? E esta arte de Scorsese, perfeitamente comandada em “O lobo de Wall Street”, só a vejo aproximada hoje em dia por David O. Russell, realizador dos magníficos e pouco estimados “Guia para um final feliz” (arriscada paráfrase do intraduzível “Silver lining playbook”) e “Golpada Americana”.
Por mim, estou em crer que apenas um jesuíta, e dos muito estufados, seria capaz de atravessar “O lobo de Wall Street” de sobrancelha franzida.
Os deserdados cantam. Os negros das charnecas do Mississippi, os ciganos andaluzes, os ganhões do Alentejo – e outros, noutros lugares, haverá – cantam para levantarem a voz ao céu e tirarem-se da terra, num instante de liberdade. O canto trabalha como as vacinas: cantam-se os lamentos para aliviar a tristeza e espantá-la para bem longe. Cantar é primitivo, é anterior aos sentimentos e aos sentidos, não se canta por revolta ou submissão, canta-se para desafiar a sorte e o destino. Por isso o cante do Alentejo é irredutível e impermeável ao verniz da cultura; o resto da humanidade, nós, pode escutá-lo – que eles são generosos e partilham-no – mas só os alentejanos é que o sabem.
Circo mediático não é o clip de 5 segundos de um automóvel a sair da garagem com um arguido lá dentro. Circo mediático não é a chusma de repórteres a troar perguntas irrelevantes ao advogado que vem cá fora fumar um cigarrito, sabendo que não terão resposta. Isto é business as usual. Circo mediático são 4 canais durante 4 horas e upa, a darem vez e voz a turbas de comentadores, cortesãos e outros assim, que debitam incessantes e minuciosas opiniões sobre um assunto que afirmam desconhecer. Boa parte dessas opiniões reprovando o circo mediático.
Ainda vai no adro a procissão do que se poderá chamar “Caso José Sócrates” e já estão em desenvolvimento formidáveis teorias da conspiração, em que nada é o que parece ser mas outra coisa qualquer que só os mais espertos e previstos conseguem perscrutar, e connosco partilham generosamente.
Já apareceram coisas lindas de se lerem, por exemplo esta:
“Ou seja, a Justiça cometeu o crime de violação do segredo de Justiça ou pior, de manipulação do caso, que posso legitimamente suspeitar ser manipulação política dadas as simpatias dos ditos jornais [Correio da Manhã e Sol] pelo regime no poder. Suspeito, apenas. Tenho esse direito.”
Ora aqui está uma opinião com entrada directa para os anais da ignomínia intelectual. Impressiona como num parágrafo se pode acusar tão peremptória e cabalmente a Justiça das hediondas práticas de “violação do segredo de Justiça” e de “manipulação política”, para no parágrafo seguinte, em vez de comprovar a dedução com factos, como mandaria a decência (adeus ó ética jornalística), desarmar tamanhas certezas com o singelo advérbio “apenas”: apenas suspeita do que disse. Mas tem esse direito lá isso ninguém lho tira – que direito? Direito a quê? e porque razão considera que o tem?
Poderei, então, a meu bel-prazer invocar uma fantasmagórica “legitimidade” (atribuída por que instância? Baseada em quê?) para suspeitar que a autora deste dislate usa umas cuecas às pintinhas oferecidas pelo Sr. José Sócrates. Apesar de ter tantas provas factuais como ela, também acho que tenho o direito de bolçar suspeita tão parva.
Isto é a ponta do iceberg dos contorcionismos e denegações que vêm a caminho e atingirão muito em breve o ponto de rebuçado mediático nas chamadas redes sociais. Desde logo começou a circular por aí um twitter, emitido por outra senhora, esta com responsabilidades institucionais, que se lhe aplicássemos a lógica formal seria como adicionar uma laranja com uma pera para dar o resultado de dois ananases, ou seja junta a detenção do Sr. José Sócrates com o caso dos vistos gold, dizendo que uma mão veio para lavar a outra. Descobrir coincidências temporais (é fácil, pois não estão sempre a acontecer?) e deduzir nelas implicações causais (é ainda mais fácil, basta imaginar e suspeitar) é como supor que um desastre de automóvel poderia ter acontecido em melhor altura.
Como diria Bette Davis: “fasten your seatbelts, it’s going to be a bumpy ride.”
É sempre intrigante deparar com consternação e estranheza em reacção às contumazes declarações de irredutibilidade ideológica do PCP. A resiliência do PCP trouxe-lhe pelo menos duas vantagens políticas que são verdadeiramente admiráveis. A primeira constata-se no plano estratégico. Graças ao seu acastelamento ideológico o PCP alcançou uma proeza absolutamente singular no continente europeu: foi o único partido comunista a sobreviver à calamidade da “perestroika” tornando-se, de facto, no único partido comunista europeu. Olhe-se para o sucedido com o PCF, o PCI e o PCE, que até ao final a década de 80 dominavam as esquerdas nos seus países, e depois se fragmentaram em cisões social-democratas e se dissolveram nas pautas eleitorais. Nestas cantigas não embarcou o PCP; meia dúzia de personalidades indispostas com a disciplina e a obediência cega do centralismo democrático foram expulsas com mão de ferro e o Partido manteve-se no essencial incólume aos sopros de mudança, como provam os seus resultados eleitorais. Não cresceu? Envelheceu? Pois sim – manteve-se, e o resto são balelas. Porque haveria o PCP de mudar se a mudança se comprovou ser perniciosa? A segunda vantagem da inflexibilidade política do PCP é sua clareza, pelo que nunca nos desilude. Com o PCP é garantido que não há a efémera agitação de “questões fracturantes” nem a excitação das “transversalidades”, nem qualquer envernizamento ideológico pequeno-burguês para seduzir o descontentamento das depauperadas classes médias com a conversa fiada das “alternativas”. O PCP não é um soufflé, é conduto e do sólido, dizendo de caras ao que vem: um processo de transição mais ou menos complexo (mas inscrito pelo determinismo histórico e “científico” na ordem natural das coisas) desta democracia burguesa em que vivemos para a ditadura do proletariado como fase de instauração do verdadeiro socialismo, rumo ao comunismo – quem quiser come, quem não quiser não come. Onde outros gaguejam quando se lhes acabam os tirinhos de pólvora seca e são compelidos a propôr soluções objectivas (à melhor envolvem algumas barbaridades irrealistas e irrealizáveis num tom de profecia académica), o PCP tem o supremo condão de nunca surpreender ou tergiversar: ele diz o que sempre disse e tudo indica que dirá. Ao cabo destes anos todos, onde é que isto provoca espanto? O problema habita, portanto, numa certa esquerda, que poder-se-á classificar como alienada, porque não se quer confrontar com o facto que o PCP torna evidente: não haverá socialismo sem os instrumentos necessários ao socialismo, ou seja, a aniquilação – física, pois então… – de uma classe por outra. A revolução não é um chá dançante (nem um fórum de discussão aberta) e o poder está na ponta da espingarda – salvo para quem apreciar as comodidades da democracia liberal e não perfilhar a religião da luta de classes.
Obrigado ISIS por recordares que as utopias são o horror perfeito. Que o mundo puro e absoluto oferecido em cada utopia só é atingível quando a imperfeição humana for corrigida ou eliminada, porque o puro é incompatível com o impuro e o belo não pode conviver com o defeituoso. É por isso que um militante do ISIS reclama, com toda a sinceridade e convicção, num vídeo que anda por aí: “Nós não somos maus, nós somos as melhores pessoas do mundo.” Claro que são – ou melhor: claro que julgam ser – maus são os outros que ainda não viram a luz e a beleza suprema do reino dos céus realizado na terra. A estes, com infinita misericórdia, o ISIS mimoseia-os com duas alternativas: ou se deixam iluminar pela verdade e se extasiam diante de tão impecável utopia, ou terão que ser, infelizmente, removidos do convívio com os sadios. Esta era a lógica dos inquisidores. Eles não laceravam as carnes dos hereges por mero deleite sádico. Apenas procuravam, repletos de piedade, libertar as almas do erro e da ilusão, com que o corpo e a realidade tangível enganam o espírito. Se o ímpio, finalmente expurgado pelo sacrifício, reconhecesse o seu mau caminho, talvez fosse perdoado; se fosse dado como relapso, outro remédio não havia que não o de assá-lo na fogueira, ou seja, reduzir o físico a cinzas para que a alma se pudesse desencarcerar. Obrigado também ISIS por recordares que fenómenos tão insignificantes e quotidianos como o bikini e a água canalizada são afinal privilégio da civilização que, provavelmente, mais conforto e conhecimento proporcionou à humanidade. A civilização que, apesar de tudo, melhor soube aprender com os seus erros e deficiências, que melhor soube acomodar a contradição, a controvérsia e o conflito. Porque é a única civilização que coloca a liberdade como questão fundamental e fundadora, mesmo que entre nós nunca se chegue a acordo sobre o que é isso da liberdade, mas que, precisamente em nome da liberdade, soube transformar o desacordo e a divergência numa vantagem e não num mal. Obrigado ainda ISIS por recordares que vivo numa civilização, que não obstante seja essencialmente religiosa, me permite proclamar em voz alta que sou ateu sem temer pela cabeça. Porque as Inquisições já a renegámos há muito tempo e as superámos deveras. Custou muito, mas o que nós andámos para aqui chegar. E os templos continuam abertos, em paz e sossego.
Pululam na internet blogues de culinária. E é muito bom que assim seja, porque sendo bastantes deles deveras interessantes, é possível em qualquer momento e em qualquer circunstância encontrar esse el dorado que é uma receita apropriada, prática, rápida, barata e saborosa. Um ou outro blog, além destes critérios funcionais absolutamente imprescindíveis, acrescenta a originalidade. Como o destes rapazes, da nação de la cuisine, por exemplo.
AO FIM
Ao fim são muito poucas as palavras
Que nos doem a sério e muito poucas
As que conseguem alegrar a alma.
São também muito poucas as pessoas
Que tocam nosso coração e menos
Ainda as que o tocam muito tempo.
E ao fim são pouquíssimas as coisas
Que em nossa vida a sério nos importam:
Poder amar alguém, sermos amados
E não morrer depois dos nossos filhos.
Amalia Bautista (tradução de Joaquim Manuel Magalhães)
ASPIC DE TOMATE
Instado pela Helena Sacadura Cabral sou compelido a revelar um dos mais ciosos segredos da minha cozinha, tão refinado que até tem um nome estrangeiro.
1- Despejar duas latas grandes de tomate pelado numa tigela. Escarafunchar na massa vermelha à procura do pé para o cortar. Boa sorte e muita paciência para quem quiser expurgar as sementes.
2- Deitar lá dentro 3 dentes de alho (ou quantos desejar, conforme o gosto), meia dúzia de folhas de manjericão, um fiozinho de azeite para ligar, sal e pimenta. Por mim podem-se acrescentar uns pingos de Tabasco.
3 – Moer tudo com a varinha mágica até formar uma polpa uniforme.
4 – Retirar duas conchas da polpa para outro vasilhame e partir à tesourada lá para dentro três pacotes de folhas de gelatina. Os puristas preferirão gelatina vegetal. Aguardar 10 minutos, mais ou menos o tempo de fumar um cigarro e beber um copo de vinho branco.
5 – Retirar outras duas conchas da polpa original e deitar num tacho que vai ao lume. Quando levantar fervura:
6 – …Despejar na vasilha em que a gelatina esteve a ser embebida. Mexer, mexer, mexer (só interromper para ir beberricando outro copo de vinho branco) até derreter totalmente a gelatina na polpa, sem grumos. Se falhar neste passo arruinou a receita.
7 – Quando atingir um líquido homogéneo e espesso misturar com o resto da polpa que ficou para trás. Mexer outra vez para incorporar bem.
8 – Deitar numa forma de pudim previamente comprada na loja do chinês. Talvez seja prudente que não seja daquelas com buraco no meio. Levar ao frigorífico.
9 – Horas depois, melhor ainda se for no dia seguinte, desenformar (passo traiçoeiro: é melhor pedir a quem tenha dedos de fada) o pudim resultante e partilhar com os amigos. Se ficou bem faz um figuraço.
10 – Acabar com o resto da garrafa de vinho branco enquanto serve o aspic às fatias. Acompanha tudo que dê vontade de comer no Verão.
A única explicação que encontro é de isto se ter passado no Cretácico Inferior, por altura dos primeiros mamíferos.
Era normal um rapazola de 12 anos gostar de jazz? Em 1971 não seria inteiramente anormal, embora as discussões se inclinassem para os Emerson, Lake & Palmer (“Tarkus”, a mais bela capa de disco até hoje – não é verdade, mas era o que se dizia na altura), os Yes (“Fragile”, a mais bela capa de sempre – idem), Procol Harum (“A Whiter shade of pale” e “Conquistador”, as mais belas canções alguma vez cantadas – ibidem) e Jethro Tull (“Aqualung”, nunca houve capa tão feia). Os do pátio sul do Liceu Camões, uns idosos de 16 anos, ouviam as coisas de adultos que passavam no “Em órbita”: “Imagine” de Lennon, “Who’s next” dos The Who, ou “L.A. Woman” dos The Doors. Em nota de rodapé seja testemunhado que os Genesis, isto é, “Selling England By the Pound”, e os Pink Floyd, ou seja “Dark Side of the Moon”, vieram noutra glaciação, dois anos depois. Temos assim que a minha pancada pelo jazz era suficientemente excêntrica para dar assunto, mas não de modo a taxar-me entre os putos charilas da turma, o que seria a morte súbita destinada aos apreciadores dos Bee Gees.
Não consigo hoje perceber minimamente como foi possível que o meu pai me tivesse deixado ir ao Festival de Jazz de Cascais de 1971. Porque: 1) Ia dar sarilho – 10.000 barbudos rodeados de polícia de choque por todos os lados? 2) Aquilo era tardíssimo, estava marcado para as 21h30 o que, segundo os fusos horários da época, queria dizer que não começaria antes das 22h30; 3) Era longíssimo, ou seja, na estância balnear de Cascais onde passávamos férias.
Postos os argumentos sensatos, porque diabo se deu o meu pai ao trabalho de pedir ao Luís Andrade (a RTP gravou todo o Festival) que me introduzisse no Dramático, o majestoso e nóvel pavilhão de hóquei convertido em sala de espectáculos, com acústica e conforto a condizer com a modalidade dos patins? Apresentei-me no carro de exteriores bem antes do início da récita, às dez horas portanto, um técnico enfiou-me um par de auscultadores na mão e entrei com a caravana que dava assistência às câmaras – “está connosco” foi o que laconicamente disseram ao Cérbero da porta que implacavelmente rechaçava a legião de borlistas. Não teria sido preciso tanto John LeCarré: o pessoal da RTP havia sequestrado uma grade de cerveja do bar e partilhou-a toda a noite com porteiro e com o polícia de turno enquanto lá dentro decorria a “macacada” – expressão deles).
Mas como se não bastasse tanta irresponsabilidade paterna, os meus pais ainda me levaram até Cascais e ficaram ali à espera que eu me extraísse da mole ululante de 10.000 hippies, yé-yés e playboys que no âmago do Dramático se amontoava até ao tecto. Uma condição: “sais à meia-noite”.
Seria alguém hoje capaz de imolar um filho de 12 anos às fauces deste Baal de charros e subversão, sob a ameaça latente de uma carga policial, que eram famosamente vesgas e bestiais? Claro que não.
Do espectáculo só registo duas memórias: as calças de cetim verde de Miles Davis e, quando entrei, um músico de bochechas aerostáticas a fazer um scat, sozinho à entrada do camarim, que me piscou um olho perante o meu indiscreto estarrecimento com aquele rosto inflado (era Dizzy Gillespie, o que na minha ignorância bíblica só vim a saber muito depois). Que mais impressões poderia um pré-adolescente apedeuta e apagado recordar da primeira noite em que saiu sozinho, ouviu jazz ao vivo e esteve metido numa multidão hirsurta até à mítica hora da Cinderela?
Por isso, pela parte que me cabe agradeço do fundo da alma a Charlie Haden. Não que o tivesse visto, ou ouvido a sua célebre dedicação do tema “Song for Che” aos movimentos de libertação das colónias que, contaram, provocou um sururu homérico no Dramático, mas porque ele fez virtualmente parte da noite em que perdi a virgindade existencial e em que vi a liberdade pela primeira vez.
Quanto Charlie Haden, o contrabaixista, o mínimo que se pode dizer é que deu a volta ao universo, começando no despertar do free em “The shape of jazz to come” (1959) de Ornette Coleman e culminando o seu percurso estelar no sereníssimo, belíssimo e tradicionalíssimo (nunca haverá demasiados superlativos para ele) “Come Sunday” (2006) em dueto com o pianista Hank Jones que faleceria logo a seguir à gravação. Venha quem faça melhor…
Quem quiser saber a sério como foi o 1º Festival de jazz de Cascais leia aqui e aqui.
A melhor equipa deste mundial é incontestavelmente o Bayern de Munique. Nas meias-finais alinharam jogadores do Bayern pela Alemanha (Neuer, Boateng, Lahm, Shweinsteiger, Kroos, Müller e Klose, que já não é mas é como se fosse, e no banco ficou Götze), pelo Brasil (Dante desceu aos Infernos – trocadilho óbvio – porque habituado a vê-los de costas, apanhou com eles de frente) e pela Holanda (o escanfandrista Robben). Mas o Bayern ainda deu para fornecer as principais estrelas da França (Ribery, apesar de ausente), Suiça (Shaqiri), EUA (Julian Green), Croácia (Mandzukic).
Pode-se assim inferir que vencerá aquela equipa que apresentar o número suficiente de jogadores do Bayern para aplicar em campo o seu famoso modelo de jogo, mesmo que por cortesia com os anfitriões, se disfarce com a camisola do Flamengo. Ora esse modelo, já adivinharam os especialistas (um especialista em futebol é alguém que tem oportunidade de se enganar mais vezes que um amador) é, digamos assim, o tüken-täken. Para os leigos seja explicado que se trata de um tiki-taka com mais centímetros de altura e nutrido por uma dieta de salsichas e cerveja em vez de tapas.
Quanto à única equipa das meias-finais que não tem jogadores do Bayern, essa tal de Argentina, a questão estará em saber se Mascherano e Messi já se esqueceram do modo como jogavam há dois anos. Mas o Sabella já provou ser um grande macaco e tem-se recusado a treinar ou a dar a táctica à Argentina, para não estragar nada – talvez resulte.
Desconfio que o Bayern era capaz mesmo de ganhar à Alemanha.
Um braço como uma viga, apenas um braço, erguido no instante preciso, medido ao centésimo de segundo, um braço a prolongar um corpo que toda uma vida ensinou a posicionar no ângulo certo, foi o suficiente para Manuel Neuer deflectir um torpedo de Benzema. Se fosse pintura seria um desenho de Agnes Martin, se fosse música seria uma peça de Philip Glass, mas foi apenas a melhor defesa deste Mundial – e não faltaria por onde escolher.