Obrigado ISIS por recordares que as utopias são o horror perfeito. Que o mundo puro e absoluto oferecido em cada utopia só é atingível quando a imperfeição humana for corrigida ou eliminada, porque o puro é incompatível com o impuro e o belo não pode conviver com o defeituoso. É por isso que um militante do ISIS reclama, com toda a sinceridade e convicção, num vídeo que anda por aí: “Nós não somos maus, nós somos as melhores pessoas do mundo.” Claro que são – ou melhor: claro que julgam ser – maus são os outros que ainda não viram a luz e a beleza suprema do reino dos céus realizado na terra. A estes, com infinita misericórdia, o ISIS mimoseia-os com duas alternativas: ou se deixam iluminar pela verdade e se extasiam diante de tão impecável utopia, ou terão que ser, infelizmente, removidos do convívio com os sadios. Esta era a lógica dos inquisidores. Eles não laceravam as carnes dos hereges por mero deleite sádico. Apenas procuravam, repletos de piedade, libertar as almas do erro e da ilusão, com que o corpo e a realidade tangível enganam o espírito. Se o ímpio, finalmente expurgado pelo sacrifício, reconhecesse o seu mau caminho, talvez fosse perdoado; se fosse dado como relapso, outro remédio não havia que não o de assá-lo na fogueira, ou seja, reduzir o físico a cinzas para que a alma se pudesse desencarcerar. Obrigado também ISIS por recordares que fenómenos tão insignificantes e quotidianos como o bikini e a água canalizada são afinal privilégio da civilização que, provavelmente, mais conforto e conhecimento proporcionou à humanidade. A civilização que, apesar de tudo, melhor soube aprender com os seus erros e deficiências, que melhor soube acomodar a contradição, a controvérsia e o conflito. Porque é a única civilização que coloca a liberdade como questão fundamental e fundadora, mesmo que entre nós nunca se chegue a acordo sobre o que é isso da liberdade, mas que, precisamente em nome da liberdade, soube transformar o desacordo e a divergência numa vantagem e não num mal. Obrigado ainda ISIS por recordares que vivo numa civilização, que não obstante seja essencialmente religiosa, me permite proclamar em voz alta que sou ateu sem temer pela cabeça. Porque as Inquisições já a renegámos há muito tempo e as superámos deveras. Custou muito, mas o que nós andámos para aqui chegar. E os templos continuam abertos, em paz e sossego.
Obrigado Estado Islâmico
enlil,

Esquece uma coisa nesta sua reflexão, é que toda esta civilização que lhe permite apregoar o que apregoa tem vivido dos recursos e das receitas que muitos dos que vivem naquelas paragens não podem usar, e estes recursos e recitas também lhes pertence.
E não é correcto que a ideologia civilizacional tenha proporcionado tão grande conforto, foi o conforto material que criou essa ideia de liberdade. Depois desta civilização se ter deixado civilizar após tão grande destruição.
Depois da queda dos regimes de leste, também eles déspotas, perdeu-se o equilíbrio gerado pelo medo; e eis que emergindo das profundezas as graças da liberdade e da civilização se submetem povos e continentes, adiando a Justiça, ao sabor dos mercados.
Agora sobre o fenómeno que ocorre naquela região. Sem discutir virtudes e ideologias, ainda um dia o verei reconhecer que foi desta acção pantanosa que esta civilização que enaltece se sentiu na obrigação de mais uma vez deixar-se civilizar.
E quem se remete ao passado para desculpar o presente acomoda-se a uma realidade que faz do presente passado.
Tempos virão, e já aí estão, em que se dará conta que até para falar é necessário pão.
Não me sinto nada responsável pela barbárie do ISIS cada vez que ponho gasolina no automóvel. Também não me sinto responsável pelas aleivosias de Salazar sucedidas antes de eu ter nascido (responsabilizo-me, isso sim, por ter aprendido a lição). Dizer que as malfeitorias de outrem são culpa nossa, como se a vítima fosse culpada pelo carrasco, é atribuirmos a nós próprios um lugar central que, curiosamente, o inimigo não reconhece. Eles fizeram o seu caminho e deu nisto, o nosso caminho parece-me um bocadinho melhor.
O que estava em causa são os caminhos que se percorrem para atingir o que se deseja e não o sentimento de culpa. Uns chegam mais rápidos por circunstâncias que se geram ao longo da história, e há outros caminhos da história que também avançam não obstante os retardamentos.
Foi o José que fez um périplo histórico para enaltecer o presente. E eu mostrei-lhe o presente com as leviandades do passado.
Nunca nos sentimos responsáveis por nada enquanto pomos gasolina e os caminhos da história parece-nos sempre um facto feito por outros, e nunca somos autores dela e nela. É cómodo. No entanto, contradiz-se, porque o bem-estar no presente que diz usufruir também foi construído por homens e mulheres antes de o José ter nascido. Só para mostrar os elos da história. Ninguém aprende lições se não for parte delas.
Concordo com quase tudo que diz. Eu sou responsável pela herança que recebo o que implica não a deixar cair nas mãos de quem a quer destruir. Só discordo quando diz que outros caminhos históricos vão dar ao mesmo. Pondo entre parentesis as antiquíssimas e notabilíssimas civilizações chinesa e indiana (que dir-se-ia – é discutível – estarem a superar-nos com uma sapiente instrumentalização da nossa própria modernidade), não é nada, mesmo nada, o caso do ISIS, que não passa de um apocalíptico desejo de retrocesso. Se isso é congénito a essa civilização, é o que não me sinto habilitado a dissertar.
Tem aqui uma outra notícia que nada tem que ver com o ISIS mas com o Paquistão (olhe que estes, o Paquistão, também quer combater o ISIS), solicito que dê destaque num dos seus posts:
http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.asp x?fid=29&did=165476
O ISIS não é matéria religiosa, mas social. As oligarquias locais, na região, associadas aos apoios ocidentais e não só, criaram um apocalíptico caldeirão que agora transborda. Até a Alqaeda, hoje mesclada no ISIS, foi usada por ocidentais para manter a guerra na Síria, no Iraque, na Líbia…
What goes around comes around, é a natureza cósmica da história em todo o seu “esplendor”.
Se me permite, desejo incluir um link sobre algumas questões abordadas com um comentador num post de Teresa. Questões estas que julgo pertinentes para que haja uma maior lucidez na interpretação do passado.
Vide, em particular, os últimos comentários no post:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/dup licidade-e-cobardia-6769517#comentarios
Grato
Tivemos o habitual camaleonismo marxista vinda de Vento.
Hoje foi a vez de elogiar as matérias primas – porque conveniente – noutra discussão onde não seja, teríamos o elogio da pessoas.
“é que toda esta civilização que lhe permite apregoar o que apregoa tem vivido dos recursos e das receitas que muitos dos que vivem naquelas paragens não podem usar, e estes recursos e recitas também lhes pertence.”
Não, são aqueles naquelas paragens que vivem dos recursos e receitas para que nunca contribuiram que agora o conseguem barato. Até podemos incluir Portugal na lista.
Todo o saber que permite mais de 1500-2000$ per capita foi desenvolvido no Ocidente – incluo o Japão –
O facto de o trabalho infantil ter desparecido deve-se ao Ocidente, a mais ninguém.
O facto da maior parte da escravatura ter desaparecido deve-se ao Ocidente a mais ninguém.
O facto da esperança média de vida ter duplicado, de a esperança media de vida de uma criança ao fim de um ano ter melhorado várias vezes foi obra do Ocidente.
De mais ninguém.
Poderíamos falar de milhões de outras coisas incluíndo estar aqui a escrever no blogue. Livremente.
Note-se o número milhões. Das teorias da liberdade individual à liberdade de comércio.
Como consequência desta consciência veio a arrogância. O cientismo expandio-se para tudo.
Como por exemplo a pior coisa que o Ocidente deu ao resto do Mundo :ideias de romanticas de perfeição da sociedade como o Marxismo Leninismo e Eugenismo. Ideas Românticas vinda da arrogância de que a perfeição ciêntífica da sociedade e das pessoas é desejável, atingível e legítima a sua imposição a quem não a quer…
Podemos ainda incluir o Colonialismo na idea de desenhar a sociedade, embora estes não acreditassem na perfeição.
O lucky é mesmo uma vedeta. Nem este blog se valorizaria sem um personagem como você.
Garanto-lhe que não é intenção minha irritá-lo, em contrapartida você diverte-me.
Os seus romances, ainda que com alguns laivos de realidade, são uma mescla de bovarismo e vitorianismo.
Vitoriano, porque aborda sentimentos mas entende que o sexo é matéria pesada para ser escrita; e bovarista, porque parece a madame de Bovary, a personagem apaixonada pelo amor mas incapaz de o concretizar.
Quero com isto dizer-lhe que o caro lucky omite em seus romances outros aspectos muito significativos da existência.
Eu compreendo-o, porque para escrever romances é necessário vida, não basta só ler a respeito de qualquer coisita.
Confesso que me estava a assustar quando li a primeira frase, mas o post é perfeito. Concordo com quase tudo o que lá está escrito. Apenas prefiro não dizer que é com tudo porque não vejo visões religiosas como utopias. Estas são – para mim – políticas (e dependem de opinião e, à falta de melhor palavra, gostos) e as outras dependem de uma qualquer visão de fé. No entanto o resultado é de facto semelhante (o comunismo e o liberalismo nas suas formas mais puras são indistintas da religião).