Qual a novidade?


enlil,

É sempre intrigante deparar com consternação e estranheza em reacção às contumazes declarações de irredutibilidade ideológica do PCP. A resiliência do PCP trouxe-lhe pelo menos duas vantagens políticas que são verdadeiramente admiráveis. A primeira constata-se no plano estratégico. Graças ao seu acastelamento ideológico o PCP alcançou uma proeza absolutamente singular no continente europeu: foi o único partido comunista a sobreviver à calamidade da “perestroika” tornando-se, de facto, no único partido comunista europeu. Olhe-se para o sucedido com o PCF, o PCI e o PCE, que até ao final a década de 80 dominavam as esquerdas nos seus países, e depois se fragmentaram em cisões social-democratas e se dissolveram nas pautas eleitorais. Nestas cantigas não embarcou o PCP; meia dúzia de personalidades indispostas com a disciplina e a obediência cega do centralismo democrático foram expulsas com mão de ferro e o Partido manteve-se no essencial incólume aos sopros de mudança, como provam os seus resultados eleitorais. Não cresceu? Envelheceu? Pois sim – manteve-se, e o resto são balelas. Porque haveria o PCP de mudar se a mudança se comprovou ser perniciosa? A segunda vantagem da inflexibilidade política do PCP é sua clareza, pelo que nunca nos desilude. Com o PCP é garantido que não há a efémera agitação de “questões fracturantes” nem a excitação das “transversalidades”, nem qualquer envernizamento ideológico pequeno-burguês para seduzir o descontentamento das depauperadas classes médias com a conversa fiada das “alternativas”. O PCP não é um soufflé, é conduto e do sólido, dizendo de caras ao que vem: um processo de transição mais ou menos complexo (mas inscrito pelo determinismo histórico e “científico” na ordem natural das coisas) desta democracia burguesa em que vivemos para a ditadura do proletariado como fase de instauração do verdadeiro socialismo, rumo ao comunismo – quem quiser come, quem não quiser não come. Onde outros gaguejam quando se lhes acabam os tirinhos de pólvora seca e são compelidos a propôr soluções objectivas (à melhor envolvem algumas barbaridades irrealistas e irrealizáveis num tom de profecia académica), o PCP tem o supremo condão de nunca surpreender ou tergiversar: ele diz o que sempre disse e tudo indica que dirá. Ao cabo destes anos todos, onde é que isto provoca espanto? O problema habita, portanto, numa certa esquerda, que poder-se-á classificar como alienada, porque não se quer confrontar com o facto que o PCP torna evidente: não haverá socialismo sem os instrumentos necessários ao socialismo, ou seja, a aniquilação – física, pois então… – de uma classe por outra. A revolução não é um chá dançante (nem um fórum de discussão aberta) e o poder está na ponta da espingarda – salvo para quem apreciar as comodidades da democracia liberal e não perfilhar a religião da luta de classes.

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9 comentários em “Qual a novidade?”

  1. E, apenas por mera curiosidade, isso da aniquilação física de uma classe por outra não será, porventura e estudado o assunto com atenção, contra a CdR de que o PCP é grande defensor, apesar de ter estado sistematicamente contra todas as revisões dela? Talvez seja um assunto a colocar ao pai da constituição, pode ser que ele saiba a resposta.

    1. O PCP defenderá sempre e sistematicamente a última versão da CdR contra qualquer revisão, porque é aquela que estará mais próxima da frase do Preâmbulo da versão de 76 que declarava estar-se na etapa histórica em que se apontava para: “abrir caminho para uma sociedade socialista”. Passos atrás? Que sejam para tomar balanço.

  2. O que diz não oferece dúvidas.
    A história de horrores do comunismo no séc XX não deve ser esquecida.
    Em especial as esquerdas a borboletear à roda do PC sabem já o que lhes
    acontecerá depois de o PC apanhar o poder.É só rever os processos de Moscovo,
    a Revolução Cultural,Kmers Vermelhos,assassínio de Trotsky,etc.
    Não brinquem,meninos,o PC não esconde o “pó” que vos tem.

  3. O que eu não percebo é o seguinte: se o PCP mudasse, em que é a vida de José Andrade de Navarro melhoraria? Portugal seria um país melhor por isso? O mundo seria um lugar melhor por isso? É o insignificante PCP com a sua obstinação ideológica que atrasa o progresso e a utopia do mundo? E em que rumo é que devia mudar a sua ideologia? Ser mais socialista como o PS que afundou este país? Ser mais neoliberal como o PSP que o está a afundar ainda mais? Ser um pouco como o Martin Schultz ? Ou mais como o Juncker ? Há tanto por onde escolher, não é?

    Deviam todos dar graças pelo PCP; se não o tivessem para vos distrair, apenas teriam a triste verdade de que não há ideologias quaisquer hoje em dia, há apenas ganância, fraudes fiscais, colaboração de democracias com ditaduras, abstenções em massa e uma enorme insatisfação com a política europeia. Mas vão tendo o PCP parado no tempo e por isso podem todos fazer pouco dele por não se juntar aos tempos modernos, sem alguma vez se perguntarem se os tempos modernos são algo a que vale a pena se juntarem.

    1. Caro Miguel, concordo com a resposta implícita à sua primeira pergunta, que responde por todas as outras. Discordo quando presume que estou a “fazer pouco” do PCP; pelo contrário, considero-o o mais respeitável dos adversários.

    2. Se o PCP mudasse tinha de mudar de nome. Tinha de acabar. Foi o que aconteceu a todos os outros. Bem não ao PC Chinês…mas quem quem está no poder não pode mudar de nome sem colocar a causa a sua legitimidade.

      Se acabasse o PCP que é tudo menos insignificante – para começar paira como espectro sobre toda a esquerda que o reverência como um viciado reverência heroína pura. Deixaríamos de ter quem defenda na assembleia os crimes do Comunismo. Quem defenda o Totalitarismo.

      Suponho que se 15% defendessem um regime Nazi em Portugal não seria para si não tão insignificante.

  4. “É sempre intrigante deparar com consternação e estranheza em reacção às contumazes declarações de irredutibilidade ideológica do PCP.”

    Das coisas que sempre me surpreendem em Portugal , embora na verdade dada a “flexibilidade” de muitos não o deva. Quem faz essa crítica considera normal mudar completamente de posição mantendo a mesma identificação.

    Dito isto, pelo contacto com Comunistas de base e pessoas de Esquerda próximas do PCP estão bem mais próximos ideologicamente do Fascismo do que do Comunismo. Todos gostam de ter a sua propriedade, muitas vezes várias. Querem é que o haja um Estado que nacionalize/controle tudo o que passa uma certa dimensão. Mais Socialistas que Comunistas.

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