
Wolinski sale con, esta nem de encomenda…
Educado numa dieta de Tintin e Pilote, quando nos fervores de 74 me caiu nas mãos o voluminho “Ils ne pensent qu’à ça” de Wolinski, recuámos horrorizados, eu e o meu puritanismo revolucionário de então. Um tarado que se dizia de esquerda, como toda a gente à época, publicava (e logo na esmerada In Folio da Gallimard) um punhado de cartoons verdadeiramente ordinários e meramente provocatórios, abusadores da “liberdade burguesa” mas sem uma “perspectiva” (como se dizia) de libertação, vinhetas machistas, onanistas e solipsistas, repletas de mulheres-objecto e homens falocratas.
Mais tarde dei conta dos antecedentes desta pouca vergonha: o efémero pasquim “L’Enragé”, nascido nos contra-tudos do Maio de 68 de parceria com outros delinquentes da estirpe de Siné, Cabu, Topor e Williem. Um radicalismo quase niilista, à margem de qualquer disciplina, com o fito exclusivo de irritar o burguês francês (e, mon Dieu, nunca houve burguês como o francês), ou seja, sem apontar “alternativas”, “atitude indispensável” para uma “política consequente e transformadora” – estão a ver pelas aspas no que deu hoje a esquerda de antanho?
Pois este Wolinski nunca desde então moveu uma palha para cá dos limites da ordinarice, dos ataques pessoais, da piada porca, do insulto rasca, ou seja dos indefinidos confins da liberdade de expressão.
Morrer desta maneira aos 80 anos foi o melhor que lhe poderia ter acontecido. Abençoados terroristas que transformaram Wolinski no produto supremo da nossa civilização, a única – sim é etnocentrismo – capaz de aceitar com simples um c’est la vie a obra deste genial bandalho.
Wolinski, a partir de hoje serás o meu herói e quando me vierem falar de liberdade, terei um argumento atómico: “permitirias um Wolinski?” Menos que isto não interessa.

Aposto que amanhã nenhum jornal vai perguntar :
Porque é que os cartoonistas e os empregados do jornal não tinham armas de defesa pessoal.
E aposta bem, pois por meia dúzia de dias após esta miséria humana, pelo menos, só são permitidas perguntas inteligentes.