cante quem for de lá


enlil,

Os deserdados cantam. Os negros das charnecas do Mississippi, os ciganos andaluzes, os ganhões do Alentejo – e outros, noutros lugares, haverá – cantam para levantarem a voz ao céu e tirarem-se da terra, num instante de liberdade. O canto trabalha como as vacinas: cantam-se os lamentos para aliviar a tristeza e espantá-la para bem longe. Cantar é primitivo, é anterior aos sentimentos e aos sentidos, não se canta por revolta ou submissão, canta-se para desafiar a sorte e o destino. Por isso o cante do Alentejo é irredutível e impermeável ao verniz da cultura; o resto da humanidade, nós, pode escutá-lo – que eles são generosos e partilham-no – mas só os alentejanos é que o sabem.

3 comentários em “cante quem for de lá”

  1. Concordo. É algo ancestral, inexplicável, o que o som, a toada daqueles cantares nos fazem sentir, mesmo depois de muitos anos transportados para outras realidades que, na verdade, nunca nos aculturam. O Alentejo é um vício, uma marca, uma matriz inescapável, uma melancolia sufocada. Ou, se quisermos, em linguagem moderninha mais de acordo com o novo conceito do Alentejo turistico e mundializado um “life style” …

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