Ó Pátria sente-se a voz


enlil,

Foi necessário chegar ao 9º penalty para resolver a 2ª Final Autêntica do Euro 2016 entre a Itália e a Alemanha. A 1ª Final Autêntica fora o Itália-Espanha em que o campeão europeu em título acabou derrotado pela Itália. Compreende-se porque tanto demoraram agora os fados a encontrar um vencedor: primeiro porque ninguém merecia ter perdido, mas, sobretudo, porque cada um dos marcadores de penalties tremeu ao ver que tinha pela frente o melhor guarda-redes do mundo, fosse ele Neuer ou Buffon. De modo que 4 rematadores italianos, contra 3 alemães, cederam à responsabilidade cósmica que lhes apertava o coração – como moribundos hão-de ter revisto a vida diante dos olhos nos segundos em que corriam para a bola …
No assim chamado “tempo regulamentar” a titanomaquia ficou filosoficamente indecisa entre o realismo de Maquiavel dos italianos e o determinismo de Schopenhauer que motivava os alemães. Sucedeu isto porque, durante o jogo, os 21 algoritmos de calções que evoluíram em campo mostraram-se incapazes de falhar, mesmo quando o cansaço lhes tolhia os movimentos, provando que o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O 22º jogador foi Buffon, que se comportou com o panache a grandeza de um doge veneziano, fiel depositário do ceptro recebido de Pirlo (o melhor meio campista de sempre da história do futebol) que por sua vez o herdara de Maldini (o melhor defesa esquerdo da história do futebol).
Agora na meia-final, em boa verdade a 3ª Final Autêntica, os alemães enfrentarão das duas uma: ou os anfitriões franceses que têm revelado pouquíssima vontade de serem mansamente cornudos – em futebolês, como é óbvio – como o original Anfitrião de Molière, ou o prolongamento da saga nórdica lavrada em runas de fogo pelos vulcânicos islandeses.
De qualquer modo tudo isto são péssimas notícias para a Pátria, a nossa. Portugal tem que ganhar com veemência e larga margem a Gales. Se fizer mais um daqueles jogos sofridos, manhoso como um lavrador beirão, sonso como uma tia de Cascais e entregue aos azares de uma biqueirada cega, sem estatísticas que ratifiquem a vitória, chegaremos à final como a mais negra e ronhosas das ovelhas de que haverá memória em torneios futebolísticos e seremos execrados por milhões em todo o mundo a rezarem pelo nosso justo esmagamento. Da pele do “orgulhosamente sós” nunca nos conseguimos livrar por completo, é verdade, mas é escusado encasquilharmo-nos ainda mais nela.

Fora de série (9)


enlil,

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Foi no tempo em que os animais ainda não falavam, quando não eram sencientes nem semi-humanos, tal como nós, outrora, também fomos semi-deuses. Não falavam mas já cometiam proezas extraordinárias, como Skippy, o canguru, que conseguiu pôr as patitas no volante e impedir in extremis que um jipe se despistasse; ou Flipper, o golfinho, que apanhava malfeitores nas águas da Flórida bem antes de Miami Vice. “No one you see is smarter than he”, cantava o genérico, logo, sendo televisão, não podia ser mentira. Bem mais espertas estas alimárias que o Rin Tin Tin, limitado a ladrar quando lhe faziam uma pergunta e punha todo a gente a terminar o episódio a rir.

Nesses tempos, como se sabe, não havia sexo em Portugal, pelo menos para quem fosse filho único e ainda não frequentasse os últimos anos do liceu e concomitantes bailes de garagem. As miúdas eram uma miragem distante, uma inexistência tanto formal como prática. Até que em 1971, fizera eu 12 anos, passou na televisão a série “Os Pequenos Vagabundos”.

Portugal era uma estopada, porque na aldeia onde passava parte das férias grandes nunca consegui topar bandos de ladrões para desvendar e criminar como sucedia sistematicamente aos Cinco em Inglaterra e agora a estes miúdos belgas. Por isso, cada episódio de “Os Pequenos Vagabundos” só reforçava o meu cepticismo. Mas veio a cena final e a minha vida mudou. Marion, a loiríssima e intangível Marion, que havia enturmado com os rapazes sem que os pais a proibissem – uma inverosimilhança – convida Jean-Loup (um par de lambadas naquelas fuças andei eu a prometer-lhe durante toda a série, só com inveja dele) a ir visitá-la Montreal, e remata com os olhos em alvo: “c’ést feérique…” Uma frase, apenas uma, e a testosterona referveu em ebulição dentro de mim como nunca dantes a sentira, e foram noites intermináveis e seguidas a masturbar-me debaixo dos lençóis derramando, de certeza, o equivalente à população da China. Nenhuma Marion me falou assim e ainda hoje não encontrei em filme ou série cena tão mal interpretada e tão devastadora como aquela. Também é verdade que só se sofre os 12 anos uma vez na vida.

Blogue da Semana


enlil,

Poucas coisas haverá mais desanimadoras do que ser burlado num restaurante, pagando uma conta calada por uma má refeição. Tal como comprar livros e música, jantar fora é um investimento que requer recomendações seguras. Dantes, quando os jornais tinham algum amor-próprio e por isso eram lidos, havia o David Lopes Ramos e o José Nogueira Gil, cujos conselhos restaurativos podiam ser seguidos às cegas – eram independentes e verazes. Hoje o desamparo é grande, há publicistas não há críticos; quem escreve sobre a matéria debita opiniões mal cozidas com molhanga de adjectivos, não demonstrando um mínimo de cultura gastronómica expressa substantivamente.

A causa desta impostura é evidente: os ditos críticos passaram-se para o lado dos fornecedores e abandonaram o cliente/utente/consumidor (escolha-se o estatuto conforme a ideologia). Tal sucede, nuns casos, porque também eles ambicionam participar no negócio, organizando festivais e eventos, para os quais pedem a comparência dos chefs. Outros apreciam por demais os jantarinhos promocionais à borla que esses chefs legitimamente organizam, para o incremento e defesa do seu negócio que, todos sabemos, é arriscado, precário e assaz trabalhoso. Por fim isto cria – bem à portuguesa – um clima corporativo, uma cultura bacteriana, em que o sentido de pertença é condição sine qua non: quem não alinha na manada é posto fora do circuito e fica sem tema nem emprego.

Um blog, porém, tem capacidade para ser diferente. É o recente Assins & Assados de Paulina da Mata. A autora dedica-se ao estudo científico e molecular da culinária (espero estar a descrever a sua actividade com pertinência), de modo que não só tem autonomia económica para dizer o que lhe apetece, como demonstra saber o que diz. Ao que se pode acrescentar uma abertura de espírito, um gosto e uma curiosidade que lhe permite tanto ir à procura da melhor lampreia numa tasca à beira Tejo, como sentar-se à mesa do The Fat Duck. Denota algumas insuficiências estilísticas na escrita e não resiste a tecer rasgados elogios a quem lhe oferece jantares, mas para isto há remédio: é nunca pôr os pés em casa que execute tais operações de marketing.

Sageza


enlil,

Agora que todos têm acesso à informação em qualquer lugar e momento, fica claro o que parece cada vez mais obscuro: a novidade é a crisálida da velharia. Só conta verdadeiramente o que é antigo.

Já está tudo dito? Ainda, bem, assim teremos o prazer redobrado de ouvir outra vez.

Kenny Barron e Bill Charlap não têm nada de novo para dizer. Apresentam-se no mais convencional trio de piano a interpretar standards, ou originais tão mainstream que parecem standards. Ascenderam ao estado supremo da sabedoria que a maturidade a experiência trazem a quem já ouviu tudo, tocou tudo e por isso ganhou um espírito aberto.

A música de Kenny Barron e Bill Charlap não é Ferrari (como o de Miles), é Rolls Royce; não é champagne, é um Porto Vintage; não é Zara é Savile Row.

Puro júbilo.

(E que belíssimas capas tem esta renascida Impulse!)

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Cinemanias


enlil,

O autorismo em cinema é conceito tão operacional e contemporâneo como a tecnologia usada para levar o homem à Lua. E, no entanto, persiste, como as pulgas no pêlo do cão. Agora deu-lhes – hossanas nos céus! – para esgravatar a boçalidade esteroidal de Verhoeven à cata de um “auteur” Força rapazes que ainda haveis de descobrir “diferância” em Harlan e rizomas em Pudovkin.

O profe de português do 1ºCC, turma G


enlil,

À beira da reforma, o professor de português passava as aulas a olhar pela janela com supino enfado, enquanto tentávamos desbravar o texto que nos dera a ler – em silêncio! – durante a aula. Dúvidas? No fim. E no fim a campaínha apanhava-o já à porta da sala, prestes a desaparecer por entre os plátanos do pátio sul do Camões. Nesse ano de 75 as classes passaram a ser mistas e, entre outras novidades igualmente truculentas, o ar andava denso de hormonas. De tal modo a paciência de Vergílio Ferreira se havia esgotado que nem para se mostrar descontente tinha disposição. Era uma sombra de meio-dia que só desejava não ser importunada pelos estados de alma da época. Valia-nos que não se armava em pedagogo, nem concedia que o admirassem, pelo que também lhe fazíamos o favor de não lhe ligar. Anos depois, ao ler a “Conta Corrente” pareceu-me detectar uma referência à nossa azougada turma, numa frase suspirada como um encolher de ombros, mas sem pez pejorativo. Na verdade, a distância que Vergílio Ferreira nos impunha seria igual àquela que manteríamos em face de uma figura que sentíamos como imponente. Alguns de nós até havíamos lido os seus romances.

2015, o jazz


enlil,

Como de costume, ver as listas de “os melhores do ano” compostas por outrem é motivo de decepção. Sem dúvida que “outrem” dirá o mesmo desta, pois mil e uma cabeças ditarão mil e uma escolhas diferentes, boa parte delas conflituosas entre si, o que poderá atestar que, afinal, o jazz não está tão morto como isso. Também é certo que um género musical com necessidade constante de fazer prova de vida, não pinta demasiada saúde. Por isso cá vai uma lista minha, muito minha, que aceita com prazer a acusação de convencional, porque jazz é escola e escola é tradição, nem que seja para contraria-la.

 

 Vijay Iyer, “Break Stuff”

Apesar de ter sido capturado pela petulante ECM, que desde há décadas tem vindo a agasalhar o jazz numa frigidez setentrional, Vijay Iyer não se deixou vencer pelo cerebralismo. Houve quem ouvisse esvoaçarem nesta música as fórmulas matemáticas do espectralismo de Steve Lehman, mas “-ismos” aparte, Iyer densifica ritmos com a mão esquerda, ora estranhos ora compulsivos, e, à mão direita, vai desenhando ideias melódicas, algumas encantatórias outras dançantes. Uma surpresa ao virar de cada esquina.

 

Maria Schneider, “The Thompson Fields”

A música de Maria Schneider nunca toca no chão, desliza no ar, empurrada de um lado para o outro pela requintadíssima orquestração. Um francês evocaria a “tessitura”, outros mais simples diriam que a compositora, mas sobretudo a orquestradora, tem o secreto condão de transformar a música em paisagem. É como se estivéssemos lá, nas desmesuradas pradarias do norte, onde o céu se dissolve no horizonte. Em termos domésticos experimentem ouvir o disco no Alentejo – que pancada!

 

José James, “Yesterday I Had the Blues, The Music of Billie Holiday”

A proposta mais insensata que poderia passar pela cabeça de alguém: recriar com voz masculina o canto de Billie Holiday, no ano do seu centenário. Oportunismo e contrafacção – nos ídolos não se toca – seria o mínimo que se lhe poderia invectivar. Pois meta-se a viola no saco. Que o Zé tenha voz de algodão e crocante só lhe dá um certo mérito, pois se até na pobre da pop actual há cordas vocais formadas em conservatórios. O ponto mesmo é a calibragem certíssima entre dramatismo e contenção, capaz de lançar toda uma nova luz no repertório de Lady Day.

 

Rudresh Mahanthappa, “Bird Calls”

Aplicar a sintaxe e o vocabulário da música cárnatica à velocidade balística de Charlie Parker, endossar a coisa com o poder de impacte que tem sido o seu timbre, eis a promessa e o conseguimento (estás a ver Sãozita como de alguma coisa serviu a tua verve estrambólica) de Rudresh Mahantappa. Bem podem deitar as cartas que não se encontrará, nos dias de hoje, melhor e mais pujante saxofonista alto.

 

Ryan Truesdell, “Lines of Colour (The Gil Evans Project: Live at Jazz Standard)”

Reviver um orquestrador é empresa bem mais árdua do que reinterpretar ou recriar composições. Sendo Gil Evans o evocado, que para nossa felicidade nos legou tantos e tão diversos diamantes lapidados, de brilho capaz de ofuscar os imprevidentes – vamos lá ouvir em que se meteu este Truesdall. O disco foi gravado ao vivo: não se excitem com a ideia de risco e ausência de margem para o erro, esta gente sabe o que faz. Ao vivo quer dizer caloroso e corroborado pelo entusiasmo do público, assim saibam os músicos suscitá-lo. Souberam. Soube também Truesdell ser fiel sem subserviência, swingar sem nostalgia, quando foi preciso, reinventar o cool sem Califórnia. Uma hora muito bem passada.

 

Se me pedissem, eu até alinharia mais escolhas, mas assim já têm trabalho de casa quanto baste. Falta ainda o orgulho nacional. Não há “melhor do ano” sem haver o melhor da Clean Feed: “Epicenter” de Cris Lightcap, cintado por uma formação que é a fina-flor de um jazz despreocupado com parentescos.

Quando a música parar


enlil,

Estamos cada vez mais próximos da década de 30 do século passado.

A democracia liberal, ou “burguesa” como à época era desdenhosamente apodada, estava nas lonas e contra ela experimentavam-se modelos de estado positivistas, anti-plutocráticos e igualitários, desconfiadíssimos do capital, que em nome do povo ou da pátria – entidades ontológicas e essenciais – repugnavam os mecanismos da democracia representativa. Eram, em suma, estados socialistas, fossem em versão bolchevique ou nacionalista, e receberam o entusiástico aplauso de não poucos grandes espíritos, de Aragon a Céline ou de Hemingway a Ezra Pound.

O que presenciamos hoje, na parte do mundo em que as democracias liberais são mais sólidas e antigas, é o crescimento de uma oposição radical a elas, que se vai metamorfoseando consoante o território em que aparecem. De Tsipras a Donald Trump, passando pelo “caso Orban”, por Le Pen, por Corbyn, pelo Podemos espanhol, pelo Kokoomus finlandês, pelo FPO austríaco, pelo PVV holandês, e mais uma miríade de organizações por essa Europa fora, o que se nos depara é uma nítida clivagem entre quem está por “isto” ou contra “isto”.

Dividir binariamente o espectro político entre quem defende os valores e as instituições vigentes da democracia liberal e quem os pretende reformular radicalmente – para eufemisticamente não dizer “derrubar” – parece mais operativo e clarificador do que recorrer à vetusta antinomia entre “esquerda” e “direita”, cada vez mais inócua quanto maior for a classe média. (Bem se sabe que quem recusa a dialéctica esquerda-direita é logo denunciado pela esquerda como sendo de direita, de modo que, antes do mais, existe uma incompatibilidade ideológica sem grande entendimento à vista.)

Em face dos resultados eleitorais de 4 de Outubro levantou-se a contumaz algaraviada de comentadores e opinadores, que são gente que diz tudo o que pensa e pensa pouco no que diz, motivada pelo facto de não ser responsável por qualquer decisão. Das aritméticas possíveis para interpretar tais resultados do 4 de Outubro, e muitas e desvairadas foram utilizadas até agora, a do Presidente da República, tal como foi expressa no seu discurso do dia 22, afigurar-se-á como a mais sensata e menos paroquial. (Refira-se, muito a seu favor, que em boa medida alinha com o teor genérico os escritos de Vasco Pulido Valente o qual, por ser clamorosamente céptico, costuma ter razão muitas vezes.)

É na verdade muito estranho querer introduzir na governação “disto” quem está contra “isto”, sobretudo se acumuladamente não atingiu sequer os 20% dos votos, nem assenta em mais do que 36 lugares no Parlamento. Que a democracia liberal seja assaz ampla e eclética para acomodar a sua própria refutação política é uma bonita coisa, que permita aos seus inimigos alcançarem o poder pelas vias que põe ao seu dispor será, ainda, simpático, mas já parece um pouco autofágico que dê mando aos que “defendem a revogação do Tratado de Lisboa, do Tratado Orçamental, da União Bancária e do Pacto de Estabilidade e Crescimento, assim como o desmantelamento da União Económica e Monetária e a saída de Portugal do Euro, para além da dissolução da NATO”, que segundo as últimas verificações são basilares a “isto”.

Como é costume em Portugal, pelo menos desde as invasões napoleónicas, tudo se resolverá de fora para dentro. No regresso da primeira romaria a Bruxelas a pedinchar financiamento para o almoço que desde há anos temos comido sem dinheiro para o pagar, a putativa coligação PS-BE-PCP ou vira “isto” de barriga para o ar, e então vai ser um ver-se-te-avias, ou verá esfumado o capital de esperança que os seus apoiantes puseram nela e fica tresloucada como os balões quando perdem ar de repente.

Entretanto só faltam 4 anos para o octogésimo aniversário de 1939.

Ainda em tempo


enlil,

Dados os recentes acontecimentos, ou “evoluções”, como dramatizam os observadores, não consigo deixar de recordar esta fulminante, premonitória e já clássica, “Natureza Morta” de Sam Taylor Wood, em exposição na Tate Modern.

 

 

A queda dos graves


enlil,

Um inglês é convidado para uma festa. Apresentando-se de smoking constata que os convivas estão todos à volta da piscina em fato de banho. Murmura com os seus botões: “By jove! – se calhar ainda há ingleses que falam assim… – enganei-me no dress code.” 

Um português é convidado para uma festa. Lá vai ele de smoking todo nos trinques, mas ao chegar dá com uma farra na piscina, tudo em fato de banho. “Olha-me para estes gajos – exclama ele, alto e bom som – isto é maneira de se vestirem para uma festa?”

Outro exemplo desta genuína filosofia lusitana. Sai uma sondagem com números surpreendentes ou desagradáveis. De pronto palpitam duas reacções:

a) Isto é um povo de alienados (substituir por cretinos ou bestas, conforme o grau de acinte) que ainda não percebeu nada. Ilustre-se com citações de Guerra Junqueiro (demodée) ou Jorge de Sena (erudito).

b) Os números foram martelados. Insira-se este argumento em teorias da conspiração mais vastas, as melhores, quer dizer, as mais rebuscadas e complexas, irão ter à Casa Branca, ou a qualquer outra instituição americana (Pentágono, CIA, etc…) 

Retire-se o seguinte preceito: terás sempre um agucadíssimo sentido crítico, desde que ele não ponha em causa o teu sentido crítico.

 

 

Às primeiras horas da madrugada de hoje


enlil,

Ontem, ao soar da meia-noite, estralejaram foguetes em vez de badaladas, e no Largo de Santos, ruiu uma bátega que só vista. Abrigados debaixo de um beiral, oito cinquentões ergueram os cravos que traziam e soltaram-se a cantar a Grândola. Nesse instante passou por eles um grupo de miúdos demasiado jovens – não haviam de ter mais de 14 anos – de cerveja na mão e os cotas saudaram-nos com um “viva o 25 de Abril!”. Retorquiram os garotos com um esgar inibido: ter-se-ão assustado com a interpelação? Terão ficado embaraços com a figura que estavam a fazer aqueles maduros? Ter-lhes-á parecido paleolítica ou despropositada a manifestação de jovialidade?

Eu era um dos oito veteranos. Estava radiante por me encontrar vivo, porque ao fim de meio século aprende-se a não ser invulnerável; alegre por ainda estarmos ali juntos, camaradas de faculdade desde lá do fundo dos décadas; contente por poder continuar a festejar o 25 de Abril. Bem sei que é uma felicidade melancólica, aquela que se tem por aquilo que não se perdeu. Mas o que mais me tranquilizou no festejo foi a atitude dos adolescentes; para eles, que nasceram muito depois, a data é tão longínqua como o 5 de Outubro ou como o 28 de Maio eram para mim – pura História.

Confesso, por isso, algum desconforto perante o cerimonioso afã institucional, a enfatuada seriedade, ou, nos piores casos, a senatorial altivez etária (“vocês não sabem como era dantes”) nas comemorações oficiais do 25 Abril. Ainda mais entristece a versão ressentida e fracassada de um suposto 25 de Abril que não aconteceu, que transforma a data num repositório arbitrário de todos os sonhos não realizados, o 25 de Abril do que poderia ter sido, como se em vez de uma conquista – a bem dizer de uma dádiva de uns moços de 30 e poucos anos, com a pele endurecida por duas comissões de guerra – o 25 de Abril tivesse sido um malogro.

Bem andaram os miúdos de sexta à noite dos bares de Santos: a maior vitória do 25 de Abril é não ser preciso celebrá-lo – a que melhor pode aspirar a democracia senão a ser uma evidência?

belensíadas


enlil,

E assim a comédia descamba no grotesco.

Como já toda a gente reparou, este circo das presidenciais e dos putativos candidatos não passa de pura histeria mediática.

Tal como os maridos de Sábado de Vinícius, as instituições estão “funcionando regularmente” e o maioral da oposição bem tem feito em andar calado como um totem, porque a vida, a vidinha, a viducha (à semelhança, afinal, da gestão, do direito, da política e, até, dos matrimónios) é feita de minudências e não de causas, das ventosas ou das fracturantes, aspecto “syrisamente” comprovado. Quer dizer que, por aqui, no passa nada…

Fora esta bagatela de somenos que é a governação, todos os partidos, que são quem marca o passo da charanga, andam preocupados, quiçá ocupados – é a “agenda”, estúpido… – com um pormenorzito talvez não despiciendo: as eleições legislativas de Outono de 2015. Antes disso façam o favor de não os importunar com outros assuntos.

Ora esta normalidade causa grande transtorno à corporação dos comentadores. O seu múnus especulativo é como andar de bicicleta: se pára, cai.

Daí que os papagaios televisivos, sobretudo o jongleur que palra, significativamente, antes da Casa dos Segredos, ou essoutro adolescente tardio, que tropeça em todas as esquinas políticas, tenham dado ao badalo em toque de rebate e, acto contínuo, todo o cortejo de palhaços pobres lá seguiu atrás deles, aos pinchos e aos pinotes.

Devidamente estimulada, a comunicação social nunca prescinde de patentear os seus genes de lémure, correndo em magote e com grande desenvoltura para o abismo. O qual, por definição, é o vazio.

Estamos, portanto, naquela fase genericamente caracterizada pela expressão: “ó patego, olhó balão!” Por favor acordem-me só quando estiver para começar. Obrigado.

 

presidenciável, sem dúvida

 

A grandeza está nas pequenas coisas


enlil,

No passado dia 2 de Dezembro a Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou o meu livrinho “Terra Firme”, uma reportagem com laivos de ensaio, ou vice-versa, sobre uma herdade alentejana. À medida que me iam anunciando o programa comecei a sentir-me um pouco fora de pé: o belíssimo cenário mourisco da Casa do Alentejo? um rancho de cante a abrir a sessão? Um beberete final com vinhos e petiscos da planície? Não seria demais para uma obra de amador? A dimensão da coisa ganhou foros de susto quando mencionaram a magna figura convidada para comentar o livro – e que tinha aceite… Vai ser bom para a minha vaidade, pensei, prestigiar-me com a sua presença nesta cerimónia, decerto protocolar. Pois sim… Em vez das triviais generalidades simpáticas do costume, o cavalheiro, que não me conhecia de lado nenhum e a quem eu fora apresentado à entrada, sacou de um exemplar de “Terra Firme” ouriçado de Post-Its e durante uma hora analisou e dissertou em pormenor, com uma acuidade fulminante e uma desvelada gentileza.

Disseram-me depois que Sevinate Pinto era sempre assim.

HH


enlil,

Começou a contagem decrescente até que alguém se lembre da última atrocidade: enfiar Herberto Helder no Panteão. Entretanto, ó ironia do destino, os poemas que ele deliberadamente tanto resguardava, vão atulhar as “redes sociais”, com muito sentimento in memoriam, porque cada um crê que o meu Herberto é mais Hélder que o teu Herberto.

Resumo da semana


enlil,

Quando a casa começa a arder, vai tudo à procura do culpado. E quem procura culpados acaba sempre por encontrá-los.

Do mesmo modo, quem procura a verdade já sabe de que verdade anda à procura. Assim, mesmo que lhe passem diante dos olhos outras verdades, muito transparentes apesar das evasivas, não as consegue ver, porque não são as verdades ou os culpados que procura.

E no fim toda a gente diz que já percebeu, precisamente porque não percebeu nada.

Um homem insignificante


enlil,

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O Eng. Ilídio Monteiro foi muita coisa importante na vida, que mereceu devida menção na sua morte. Por mim vale por ter sido pequeno. Sempre que a banda do A.D.R. “O Paraíso” precisava de um instrumento novo, lá ia de bota cardada por aqueles vinhedos fora, fazer uma serenata à porta da sua casa de Vale Fornos, quando sabia que ele lá estava. O homem ouvia a charanga – que por acaso toca com muita afinação – e no fim passava o cheque com um “obrigado”. Uma insignificância nunca negada que só favoreceu uma aldeola.