À beira da reforma, o professor de português passava as aulas a olhar pela janela com supino enfado, enquanto tentávamos desbravar o texto que nos dera a ler – em silêncio! – durante a aula. Dúvidas? No fim. E no fim a campaínha apanhava-o já à porta da sala, prestes a desaparecer por entre os plátanos do pátio sul do Camões. Nesse ano de 75 as classes passaram a ser mistas e, entre outras novidades igualmente truculentas, o ar andava denso de hormonas. De tal modo a paciência de Vergílio Ferreira se havia esgotado que nem para se mostrar descontente tinha disposição. Era uma sombra de meio-dia que só desejava não ser importunada pelos estados de alma da época. Valia-nos que não se armava em pedagogo, nem concedia que o admirassem, pelo que também lhe fazíamos o favor de não lhe ligar. Anos depois, ao ler a “Conta Corrente” pareceu-me detectar uma referência à nossa azougada turma, numa frase suspirada como um encolher de ombros, mas sem pez pejorativo. Na verdade, a distância que Vergílio Ferreira nos impunha seria igual àquela que manteríamos em face de uma figura que sentíamos como imponente. Alguns de nós até havíamos lido os seus romances.
O profe de português do 1ºCC, turma G
enlil,

Eu sempre tive a teoria que é melhor não conhecer em pessoa um grande artista.
Confesso aqui em surdina, que hoje, apenas com dois anos a menos do que Vergílio Ferreira nesse ano, o entendo muitíssimo bem…
Onde se lê “Virgílio” deve ler-se “Vergílio”. Penso eu! Com os melhores cumprimentos. (P.S. não é necessário publicar o comentário, só rectificar, se eu estiver correcto) Sombra
Tem toda a razão e já corrigi. Isto é quase uma “private joke” já que tenho convivido recentemente com um Vergílio e um Virgílio e agora – acto falhado? – tropecei no nome.
Ainda falta a tag…
Acontece a qualquer um. Mas esqueceu-se de corrigir o tags. Desculpe lá o preciosismo. Sombra
Não me lembro de algum grande jogador de futebol ter sido um grande treinador de futebol.
Pelo que tenho lido e ouvido nos últimos dias, também Vergílio Ferreira não terá sido um bom professor.
Compreende-se.
São coisas muito diferentes.
Ele mesmo o diz algures na Conta Corrente:—Não gosto de ensinar,cumpro
codilhado mas cumpro,ao contrário de outros que dizem gostar.
Eu não fui seu aluno,descobri-o através da Conta Corrente e não parei.
Não é escritor de “massas”,só o descobre quem partilha as interrogações
fundamentais do ser humano.Nem Nobel como o Antunes…