Às primeiras horas da madrugada de hoje


enlil,

Ontem, ao soar da meia-noite, estralejaram foguetes em vez de badaladas, e no Largo de Santos, ruiu uma bátega que só vista. Abrigados debaixo de um beiral, oito cinquentões ergueram os cravos que traziam e soltaram-se a cantar a Grândola. Nesse instante passou por eles um grupo de miúdos demasiado jovens – não haviam de ter mais de 14 anos – de cerveja na mão e os cotas saudaram-nos com um “viva o 25 de Abril!”. Retorquiram os garotos com um esgar inibido: ter-se-ão assustado com a interpelação? Terão ficado embaraços com a figura que estavam a fazer aqueles maduros? Ter-lhes-á parecido paleolítica ou despropositada a manifestação de jovialidade?

Eu era um dos oito veteranos. Estava radiante por me encontrar vivo, porque ao fim de meio século aprende-se a não ser invulnerável; alegre por ainda estarmos ali juntos, camaradas de faculdade desde lá do fundo dos décadas; contente por poder continuar a festejar o 25 de Abril. Bem sei que é uma felicidade melancólica, aquela que se tem por aquilo que não se perdeu. Mas o que mais me tranquilizou no festejo foi a atitude dos adolescentes; para eles, que nasceram muito depois, a data é tão longínqua como o 5 de Outubro ou como o 28 de Maio eram para mim – pura História.

Confesso, por isso, algum desconforto perante o cerimonioso afã institucional, a enfatuada seriedade, ou, nos piores casos, a senatorial altivez etária (“vocês não sabem como era dantes”) nas comemorações oficiais do 25 Abril. Ainda mais entristece a versão ressentida e fracassada de um suposto 25 de Abril que não aconteceu, que transforma a data num repositório arbitrário de todos os sonhos não realizados, o 25 de Abril do que poderia ter sido, como se em vez de uma conquista – a bem dizer de uma dádiva de uns moços de 30 e poucos anos, com a pele endurecida por duas comissões de guerra – o 25 de Abril tivesse sido um malogro.

Bem andaram os miúdos de sexta à noite dos bares de Santos: a maior vitória do 25 de Abril é não ser preciso celebrá-lo – a que melhor pode aspirar a democracia senão a ser uma evidência?

0 comentários em “Às primeiras horas da madrugada de hoje”

  1. “A maior vitória do 25 de Abril é não ser preciso celebrá-lo”. Inteiramente de acordo.
    Acrescentaria apenas que, quem quiser pode celebrá-lo, mas o que não deve é adulterá-lo.
    Viva o 25 de Abril!

  2. Será para o ano que vamos debater com muito pormenor e contradição o que já deviamos ter debatido há muito tempo: o desmantelar quase por completo das corporações que têm tolhido a liberdade real. Todos nós vemos tanta restrição ao livre exercicio da cidadania , artificialmente mantido porque convem a muitos manganos. Onde se encontram os resultados de tanto processo aberto aos mal gastos dinheiro da UE? Onde estão escondidos as investigações sobre as votações dos deputados engajados com interesses privados? …tudo isso é que muitos portugueses gostariam ver debatido durante as semans de comemoração com o 25 Abril como apresentação do que tivesse sido possivel apurar. A grande 25 abril

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