Foi no tempo em que os animais ainda não falavam, quando não eram sencientes nem semi-humanos, tal como nós, outrora, também fomos semi-deuses. Não falavam mas já cometiam proezas extraordinárias, como Skippy, o canguru, que conseguiu pôr as patitas no volante e impedir in extremis que um jipe se despistasse; ou Flipper, o golfinho, que apanhava malfeitores nas águas da Flórida bem antes de Miami Vice. “No one you see is smarter than he”, cantava o genérico, logo, sendo televisão, não podia ser mentira. Bem mais espertas estas alimárias que o Rin Tin Tin, limitado a ladrar quando lhe faziam uma pergunta e punha todo a gente a terminar o episódio a rir.
Nesses tempos, como se sabe, não havia sexo em Portugal, pelo menos para quem fosse filho único e ainda não frequentasse os últimos anos do liceu e concomitantes bailes de garagem. As miúdas eram uma miragem distante, uma inexistência tanto formal como prática. Até que em 1971, fizera eu 12 anos, passou na televisão a série “Os Pequenos Vagabundos”.
Portugal era uma estopada, porque na aldeia onde passava parte das férias grandes nunca consegui topar bandos de ladrões para desvendar e criminar como sucedia sistematicamente aos Cinco em Inglaterra e agora a estes miúdos belgas. Por isso, cada episódio de “Os Pequenos Vagabundos” só reforçava o meu cepticismo. Mas veio a cena final e a minha vida mudou. Marion, a loiríssima e intangível Marion, que havia enturmado com os rapazes sem que os pais a proibissem – uma inverosimilhança – convida Jean-Loup (um par de lambadas naquelas fuças andei eu a prometer-lhe durante toda a série, só com inveja dele) a ir visitá-la Montreal, e remata com os olhos em alvo: “c’ést feérique…” Uma frase, apenas uma, e a testosterona referveu em ebulição dentro de mim como nunca dantes a sentira, e foram noites intermináveis e seguidas a masturbar-me debaixo dos lençóis derramando, de certeza, o equivalente à população da China. Nenhuma Marion me falou assim e ainda hoje não encontrei em filme ou série cena tão mal interpretada e tão devastadora como aquela. Também é verdade que só se sofre os 12 anos uma vez na vida.


Os homens nunca reparam nos pormenores. O meu Jean-Loup era parisiense (bien-sûr), a sonsa da tua Marion era canadiana, lá das berças, os outros não me lembro (para mim não existiam, praticamente) mas eram também de outros países. E estavam todos num campo de férias na Bélgica, longe de casa e portanto em que os pais não tinham nenhum controle. 🙂
O Paraíso era o meu campo de férias e fosse lá alguma rapariga desencabrestar à solta com os rapazes. Era uma aldeia portuguesa com certeza…
Imagino, coitada. 🙂
Uma série marcante para quem na primeira metade dos anos 70 se encontrava entre os 6/7 anos e o começo da adolescência. Nunca mais me esqueci do genérico e da sua respectiva música, que agora, graças às novas tecnologias, posso escutar e reescutar sempre que a saudade ataca – https://www.youtube.com/watch?v=gplqEeK n-lA
Não conheço pessoa da minha idade para quem Os Pequenos Vagabundos não tenham sido um dos seus marcos televisivos, numa altura de tão pouca opção.
Apesar de ter espírito de aventureira e no meu intimo estar sempre a competir com os rapazes , principalmente por os achar um tudo-nada burros, , de certeza que não competiria pela Marion, uma piquena um bocado Hippie- naif-canastrona, que tinha um palminho de cara, ou dois, já que era bastante para o comprido.
… O que me faz lembrar do Mister Ed, que ia ver com a minha Madrinha para ” A Provinciana” na Calçada do Galvão 🙂 🙂 🙂
Os rapazes são de Marte e as raparigas de Vénus.
Absolutamente
Agradeço a evocação de «Os Pequenos Vagabundos», que foi também para mim uma das séries televisivas mais marcantes na infância e na juventude – tal como, aliás, «Espaço 1999», anteriormente lembrada. Porém, dispensava as reminiscências onanísticas… 😉
Já agora, pergunto se «O Segredo dos Flamengos» e «Os Quatro de Blindados e o seu Cão», outras das minhas favoritas, poderão vir a ser objecto de referências no «Fora de Série».