E ainda agora começou


enlil,

Ainda vai no adro a procissão do que se poderá chamar “Caso José Sócrates” e já estão em desenvolvimento formidáveis teorias da conspiração, em que nada é o que parece ser mas outra coisa qualquer que só os mais espertos e previstos conseguem perscrutar, e connosco partilham generosamente.

Já apareceram coisas lindas de se lerem, por exemplo esta:

“Ou seja, a Justiça cometeu o crime de violação do segredo de Justiça ou pior, de manipulação do caso, que posso legitimamente suspeitar ser manipulação política dadas as simpatias dos ditos jornais [Correio da Manhã e Sol] pelo regime no poder. Suspeito, apenas. Tenho esse direito.”

Ora aqui está uma opinião com entrada directa para os anais da ignomínia intelectual. Impressiona como num parágrafo se pode acusar tão peremptória e cabalmente a Justiça das hediondas práticas de “violação do segredo de Justiça” e de “manipulação política”, para no parágrafo seguinte, em vez de comprovar a dedução com factos, como mandaria a decência (adeus ó ética jornalística), desarmar tamanhas certezas com o singelo advérbio “apenas”: apenas suspeita do que disse. Mas tem esse direito lá isso ninguém lho tira – que direito? Direito a quê? e porque razão considera que o tem?

Poderei, então, a meu bel-prazer invocar uma fantasmagórica “legitimidade” (atribuída por que instância? Baseada em quê?) para suspeitar que a autora deste dislate usa umas cuecas às pintinhas oferecidas pelo Sr. José Sócrates. Apesar de ter tantas provas factuais como ela, também acho que tenho o direito de bolçar suspeita tão parva.

Isto é a ponta do iceberg dos contorcionismos e denegações que vêm a caminho e atingirão muito em breve o ponto de rebuçado mediático nas chamadas redes sociais. Desde logo começou a circular por aí um twitter, emitido por outra senhora, esta com responsabilidades institucionais, que se lhe aplicássemos a lógica formal seria como adicionar uma laranja com uma pera para dar o resultado de dois ananases, ou seja junta a detenção do Sr. José Sócrates com o caso dos vistos gold, dizendo que uma mão veio para lavar a outra. Descobrir coincidências temporais (é fácil, pois não estão sempre a acontecer?) e deduzir nelas implicações causais (é ainda mais fácil, basta imaginar e suspeitar) é como supor que um desastre de automóvel poderia ter acontecido em melhor altura.

Como diria Bette Davis: “fasten your seatbelts, it’s going to be a bumpy ride.”

7 comentários em “E ainda agora começou”

  1. Curioso foi o discurso duma pluma que defendia que tinha havido noticias “sopradas” para os medias com malvadas intenções e logo a seguir se insurgir contra o silencio a que o Ticão se remete quando temos o direito a ser cabalmente informados do que se passa com o interrogatório do amigo Socrates!

  2. Se fosse outro qualquer que almoçasse em Lisboa a uma terça-feira com um ex-PGR, partisse para Paris, anulasse à última hora o regresso a Lisboa na quinta-feira seguinte e regressasse na sexta-feira, sendo detido à chegada, que suspeitas não iriam por aí.

    1. Caro “Dualidades”, publico o seu post com o intuito exclusivo de lhe responder. Num momento tão sensível para o regime democrático e para as suas instituições, toda e qualquer especulação não fundamentada sobre o “caso José Sócrates” não é nada bem vinda. Eis um momento que exige um máximo de cautela nas afirmações, para não aumentar o ruído e a poeira, e em que toda e qualquer “opinião” superficial e apressada tem um efeito meramente corrosivo. Corre-se, como nunca, o risco eminente de extinguir a ética e só ficar o moralismo e o que decorrer disto será inimaginavlemente pior do que a actual situação.

      1. Agradeço a resposta, que compreendo, apenas me quer parecer que, se essas especulações não fundamentadas (mas não desmentidas, no que toca ao almoço citado, com alguém que interveio na destruição de certas escutas, mas de cuja honorabilidade não duvido) dissessem respeito a outro, o que para aí não iria…

  3. cuecas às pintinhas, oferecidas por zésócrates?
    é esse o padrão de cuecas que esse indivíduo costuma oferecer? e lhe ofereceu a si?

  4. Não tem sido frequente trazer a este grupo questões de âmbito nacional mas um assunto como a detenção de José Sócrates é merecedora de reflexão.

    Não pelo facto em si que durante muitas semanas ou até meses será dominado pelas expressões da praxe : <

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    Não tem sido frequente trazer a este grupo questões de âmbito nacional mas um assunto como a detenção de José Sócrates é merecedora de reflexão.

    Não pelo facto em si que durante muitas semanas ou até meses será dominado pelas expressões da praxe : <<para a justiça o que é da justiça >>  ,  <<devemos assumir a presunção de inocência até decisão transitada em julgado>> ou <<investigue-se tudo o que houver para investigar>> ; 
    Mas por algo de muito estranho que se começa a desenhar:

    – o julgamento politico do juiz Carlos Alexandre e
    – A TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

    Se relativamente ao primeiro tópico , a questão é enquadrável exactamente no mesmo estilo de estar e fazer politica que levou à fulanização e expulsão dos magistrados portugueses de Timor , já no segundo tópico o assunto é ainda mais sombrio.

    A detenção de um ex-PM é um assunto com um impacto público e mediático tão grande que não questiono sequer aquilo que possam ser a solidez dos factos e das acusações que suportam tal decisão , já que se viesse a revelar-se apenas um acto precipitado seria o fim profissional de qualquer magistrado e o corolário de um longo ciclo de desprestígio para a justiça em Portugal.

    No entanto , começa a circular uma perigosa narrativa de teoria da conspiração que apresenta como principal facto de suspeita o timing da data da detenção de Socrates ter coincidido com a data das eleições (de lista única) para tornar oficial a liderança de Antonio Costa no PS.

    Esta suspeição que está a ser plantada pelo próprio PS apelando às leituras faceis e à ignorância da desinformação como se este assunto fosse um penalti mal marcado num jogo do benfica contra o sporting , abre no entanto uma caixa de pandora muito complicada não apenas por questionar os grandes princípios fundadores da separação de poderes e da independência dos actores judiciais , mas por algo muito mais terra-a-terra e principalmente muito mais sujo:

    Se isto tivesse rebentado à um ano (teria apanhado a data das autárquicas) beneficiando todos os outros partidos e prejudicando os 308 candidatos do PS e principalmente o candidato socialista a Lisboa , António Costa , pela sua próximidade a Sócrates;

    Se isto tivesse rebentado à uns meses (apanhava as primárias do PS) beneficiava o António José Seguro e prejudicava o António Costa porque suportou a sua vitória interna no seu reconhecimento e reverência pelo "legado" de Sócrates;

    Se isto viesse a rebentar daqui a uns meses (em cima das legislativas) beneficiava todos os outros partidos à esquerda e á direita e prejudicava dramáticamente o António Costa que se estaria a apresentar a votos com as suas listas recheadas de caras socrática (aquelas que internamente lhe permitiram alcançar a liderança mas que aos olhos dos portugueses são autenticas nódoas)

    Mas rebentando agora que o Costa já pode mudar o canhão-da-fechadura da porta do Largo do Rato instalando-se cómodamente lá dentro , e principalmente ficar caladinho à espera que o tempo passe para os portugueses lhe entregarem o esperado cheque em branco sem que ele tenha que fazer quaisquer promessas ou se comprometer com nada ;
    Exactamente nesta altura (a 8 dias do congresso) um acontecimento como a detenção de Sócrates é a oportunidade de António Costa para sanear a tralha socrática (que o ajudou) para fora dos novos órgãos nacionais ocupando os 2/3 da sua quota (nos orgaos nacionais e nas listas a deputados) com gente amorfa que em nada lhe condicione a acção ou a elaboração das listas a deputados e escondendo alguns desses seus camaradas menos amados para os bastidores.

    Mas atenção , que quem falou em conspiração ou insinuou que a justiça portuguesa é manobrável nunca fui eu , quem anda a insinuar conspirações é o PS !    Eu apenas estou a falar em conveniências e timings . . .

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