O pior vem sempre depois, quando os epígonos radicalizam as ideias do mestre, procurando afirmar-se entre si nessa tresleitura. Foi o caso do noveau roman que acabou estilhaçado às mãos dos desconstrutores do discurso, desvitalizando-o irremediavelmente até se transformar na peça de museu que é hoje.
Com o noveau roman caminhou Alain Resnais no início e se os seus filmes sobreviveram ao despautério tal se deve à sua crença na narrativa. Uma narrativa que se vai pensando, à maneira kantiana, não é forçosamente uma narrativa que vai estiolando. E a prova ficou nos magníficos “Hiroshima mon amour” (com argumento de Margueritte Duras) ou em “L’Anée dernière à Marienbad” (com Robbe-Grillet). Estes filmes mantêm hoje uma doce frescura porque, tal como Resnais mostrou depois, acreditam no cinema.
E o dínamo desta crença terá sido a ironia (amável, não a jocosa), o que vem demonstrado em “Providence” (1977), em que a vaga e acintosa memória de um velho recapitula a sua vida, e em “Mon Oncle d’Amerique” (1980), que passa ao cinema os enredos da psicologia evolucionista de Henri Laborit. Em ambos os filmes o que sucede verdadeiramente é o nosso prazer em sermos enganados por uma narrativa, como se fossemos uns pobres James Stewart atrás da Kim Novak de “Vertigo”.
Bastariam estas delicadas e muito prazenteiras filigranas para acalentar Alain Resnais na memória. Vai uma aposta como daqui a 50 anos ainda estará vivo?
