Desapareceu


enlil,

 

A revolução coperniciana ainda só tem quatrocentos e picos anos, um tempo manifestamente insuficiente para a termos interiorizado no nosso dia-a-dia.  Depois dela, compreender a natureza passou a ser uma pura construção mental, feita de modelos matemáticos e observações que os vão reiterando. Ou seja, o senso-comum, esse bem tão precioso em certas instâncias da actividade humana, pode bem ser um obstáculo quando se quer demonstrar que ainda ninguém viu claramente visto a Terra girar à volta do Sol, e que não há nenhuma prova empírica para essa bizarra ideia, todos os dias desmentida pela nossa observação. Sucede simplesmente que o modelo continua a funcionar e por isso continuar-se-á a tomá-lo como correcto.

Repare-se que do vôo MH370 até agora não se achou nem se viu nada. Os únicos elementos que existem dele são meros sinais elétricos que foram arduamente interpretados a partir de conjecturas matemáticas. Ora aqui está um exemplo supremo do intenso combate entre a inteligência humana e a natureza; o pouco que sabemos, sabemo-lo por pura dedução e por esforçada inferência, a partir de instrumentos.

Este caso extraordinário deveria reconduzir-nos à consciência não só da nossa abissal ignorância, como tem tudo para nos fazer reflectir sobre a forma como habitualmente pensamos as coisas, sobretudo noutras áreas da nossa vida: porque temos sempre que ir a correr para explicações quando elas simplesmente não existem? Porque nos entregamos ao logro imenso da especulação a partir de esquivas e insonsas provas empíricas? Porque levamos tão a sério o jogo rectórico onde sempre triunfa aquele que fala mais alto ou mais persuasivamente?

Sim, é possível que um vulto gigantesco como um Boeing 777 desapareça da realidade sem deixar rasto. Contra isto não há opinião que valha.

14 comentários em “Desapareceu”

  1. No famoso triângulo das Bermudas estão os sinais desta ignorância que nos dá conta. E tem anos, muitos anos mesmo.

  2. A mim parece-me mais o caso daqueles que apontam numa direcção para desviar o olhar, não vá ele cair sobre o que se pretende esconder.

      1. Touché! Tem toda a razão. Não foi, mas poderia ter sido, por contágio: “viu claramente visto a Terra girar à volta do Sol”. 🙂

  3. O Sr. José Navarro de Andrade tem todo o direito de ser uma pessoa incuriosa, talvez se possa dar a esse luxo neste mundo em que tudo lhe chega como adquirido, mas já os nossos antepassados, não os renascentistas, mas mais anteriores ainda, os que nem tão-pouco haviam inventado um sistema de escrita sequer, não podiam senão “compreender a natureza,” não como o passatempo intelectual que foi para Copérnico, que provavelmente nem sabia como fazer uma fogueira no meio da selva, mas como questão de sobrevivência.

    Mas como também deve dar a sua sobrevivência como adquirida, e não como a soma da curiosidade de milhões de pessoas que lhe construíram um mundo onde pode dar-se ao luxo de não querer compreender os mistérios com que nos deparamos, compreendo perfeitamente o seu desdém por pessoas que andam atrás de explicações e que tentam extrair ordem do caos para proveito de todos nós.

    Uma questão à parte: devia decidir de que forma quer escrever: com a ortografia pré-1990 (conjectura), com a pós-1990 (elétrico) ou em espanhol (rectórico). Das três, há duas que não me incomodam. Deixo à sua especulação quais. Ah, mas como não é uma pessoa curiosa, provavelmente não especulará.

      1. Meu caro José Navarro de Andrade, a pensar assim há 10,000 anos teria morrido no meio da selva. Já não fazemos fogueiras, mas construímos aviões, e é preciso compreender-se porque é que eles desaparecem, não apenas para salvar as vidas de futuro passageiros, mas para dar aos parentes dos actuais alguma paz de espírito.

        Eu deste artigo não extraio mais nada do que, Desapareceu um avião, azar, porquê perder tempo a procurá-lo? Talvez não fosse isso que quisesse dizer, mas foi o que deixou transparecer.

  4. Foi precisamente o “logro imenso da especulação a partir de esquivas e insonsas provas empíricas” que permitiu à nossa espécie chegar ao estádio de desenvolvimento actual, permitindo-lhe, por exemplo, viajar de avião.
    O mesmo logro permitiu também outros desenvolvimentos que se traduziram, por exemplo, na possibilidade do senhor escrever num blog sobre um avião que desapareceu do outro lado do mundo.

    É tudo uma questão de coerência…

      1. E a Ciência nasceu de….? O acervo de conhecimento que hoje existe (de forma explicita) resultou, na sua génese, do tal “logro imenso da especulação a partir de esquivas e insonsas provas empíricas”, que mais não é do que um resultado da curiosidade inerente ao ser humano. O edifício da Ciência parece hoje muito mais suportado, mas nem sempre assim foi, no seu início era constituído por “insonsas provas empíricas”. A expressão é sua….
        E mesmo hoje, em áreas pouco exploradas, caminhamos em pequenos passos também suportados em ténues provas empíricas.
        Ao seu olhar aparentemente isto é tudo mesquinhez…mas felizmente nascemos com este espírito e é graças a ele que nos mantemos em constante procura por novo conhecimento.
        Apenas achei que a sua opinião merecia contraditório.

        1. Não sei se estamos a dizer a mesma coisa porque não percebeu o meu texto, ou se estamos a dizer coisas diferentes. Quis opôr o espirito científico à pululante opinião que sobre tudo especula sem hipostasiar, aferir, medir, comprovar. Quis demonstrar que tudo o que sabemos sobre o avião desaparecido é pura ciência e que, perante tal mistério, não devemos ceder à tentação de digressar com especulações sem fundamento. Se percebeu isto e discorda, então discordamos. Se era isto que queria dizer então não haverá desacordo.

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