Em 1991 Lars von Trier estreia “Europa” e ascende ao galarim do cinema. Qualquer espectador prudente sabe que é atingido pelos filmes, dependendo do humor que tinha quando o viu, do estado de espírito que a vida lhe proprocionava naquele momento, do maior ou menor interesse da companhia ou, mesmo, da dureza da cadeira. A mim, “Europa” atravessou-me como um raio de luz negra, definitivamente esclarecedor. Muitas são as vezes que o recordo, a sussurrar-me ao ouvido explicações para o que ao meu redor vai acontecendo. Hoje, por exemplo, não consigo livrar-me da sequência inicial de “Europa”, a repetir-se na minha memória.

Aconteceu-me algo parecido mas foi com o “Melancholia”…
“A mim, “Europa” atravessou-me como um raio de luz negra, definitivamente esclarecedor.”
A mim também. Vi-o duas vezes, em dias seguidos, já não me lembro em que cinema de Coimbra. Para mim, que na época (sejamos optimistas) tinha péssimo gosto em filmes, constituiu um WTF moment. E depois, vá-se lá saber porquê, a Barbara Sukowa sempre me disse qualquer coisa.
Ladrão. Esta cena estava na minha lista futura. Já comuniquei o furto à GNR.
P.S. Grande filme. O Lars esteve bem nos anos 90. Depois começou a fazer umas coisas duvidosas e ultimamente não acerta uma.
Ladrão?! Ora essa… O meu amigo anda com as leituras de Leibniz muito atrasadas; a razão não está com quem teve a ideia antes mas com quem a realizou primeiro.
Que gostinho dá assistir a esta discussão. Fizeram-me lembrar este trecho de O Crime do Padre Amaro:
“Amaro afastára a cadeira, puzera-se em attitude de controversia, contente de poder, diante d’Amelia, «enterrar» o conego, mestre de theologia moral e um colosso de liturgia pratica. Sustento, exclamou, sustento com Castaldus… Alto, ladrão, bramiu o conego, Castaldus é meu! Castaldus é meu, padre-mestre!
E encarniçaram-se, puxando cada um para si o veneravel Castaldus e a auctoridade da sua facundia. D. Josepha pulava de gozo na cadeira, murmurando para Amelia com a cara franzida de riso: Ai, que gostinho vêl-os! Ai, que santos! Amaro continuava, com o gesto alto: E além d’isso tenho por mim o bom-senso, padre-mestre. Primò, a rubrica, como expuz”.
imagens que poderiam ser utilizadas para um videoclip do:
http://www.youtube.com/watch?v=qBGNlTPgQ II
Não gosto habitualmente dos filmes de Lars Von Trier. Mas fiquei absolutamente fascinado com Europa. Acho que esclarece com profundidade a humilhação alemã no pós-guerra, que provavelmente estamos a pagar hoje. Mas a cena mais arrepiante do filme é precisamente a final que, se bem me recordo, dizia que queríamos acordar e sair de Europa, mas que isso não era possível. Uma metáfora para o que vivemos hoje.