As cartas de amor são todas ridículas


enlil,

Sempre zeloso pelo meu bem-estar, o sr. José A. de Azevedo Pereira voltou a escrever-me.

Embora unilateral, esta correspondência encanta-me, dado que o cavalheiro supra, investido da qualidade de Director-Geral da Autoridade Tributária e Aduaneira, não mede esforços no sentido de despertar na minha alma a honra e o sobressalto cívico. Imagino-o altas horas da noite, sentado na borda da cama, cabeça entre as mãos, revolvido de angústia e sua esposa estremunhada: “que se passa Zé A.?” E ele: “ainda não escrevi esta semana ao Navarro…”

Vem agora ele propor-me um brinde assaz equivalente àquelas viagens a Fátima que às vezes telefonam cá para casa a oferecer – só tenho que ir levantar os bilhetes a tal sítio, a tal hora.  Que me oferece? “Uma dedução à coleta do IRS no montante correspondente a 5% do IVA pago em cada fatura”. Estive para me agarrar logo ao telefone a reservar mesa para cinco no Belcanto e a combinar com uma malta amiga ir ter com o Rui Rocha a Matosinhos para uma mariscada, que não há melhor no mundo.

Mas depois houve, sei lá, uma desconfiança, que me compeliu a ler o resto do mail – logo vi! O sr. De Azevedo Pereira, na verdade, não exige em troca que lhe compre um trem de cozinha, mas pôs-me entre a espada e a parede, varado por um dilema: para “usufruir desse benefício”, como ele insidiosamente introduz a questão, tenho de pedir factura ao sr. Lino e ao sr. Miguel.

O sr. Lino é o dono do café de esquina onde todas as manhãs sorvo a bica que me põe em marcha. O sr. Miguel é o barbeiro que se distrai com digressões de fervor sportinguista e me rapa valentíssimas carecadas. Ora ambos já me avisaram, com o IVA a 23% o sr. Lino fecha as portas e volta para a terra que o negócio nem para o tabaco, e o sr. Miguel do alto dos seus 70 anos, não está para aturar “lampiõezices” e vão-se todos foder (eu não queria escrever isto, mas, para quem não saiba, é esta a linguagem nas barbearias de bairro).

Ora eu passo pior sem o café matinal e sem a carecada trimestral do que o Estado sem a coleta feita ao sr. Lino e ao sr. Miguel. Acresce que, não estando o sr. José A. De disposto a pagar-me a bica e o corte de cabelo, também passarei melhor sem a rapacidade do Estado, que lhe paga o ordenado, do que sem os serviços destes dois comerciantes.

Assim sendo, e fazendo prova que o proselitismo moralista das missivas do sr. Azevedo Pereira não caiu em saco roto, sugiro o seguinte: eu não chateio o srs. Lino e Miguel por causa das facturas, mas, em contrapartida, também não chateio o Estado por causa daquele poste de iluminação na minha rua que está fundido há mais de um mês. A coisa deve ficar ela por ela.

9 comentários em “As cartas de amor são todas ridículas”

  1. Como habitualmente por esta altura, costumo comprar uma lenhita para aquecer o esqueleto neste inverno que se prevê ser frio e chuvoso. 14 cêntimos por quilo, avisou-se o fornecedor. Venham de lá 1.000 quilitos, adiantei eu. Em troca do material andaram 140 euros. Então depois de ter a lenha arrumada ia exigir do homem uma fatura para pagar mais 23%?. O Sr. da AT deve pensar que somos todos burros.

  2. Bom, pensava que era só eu, mas afinal há mais.
    Gostava eu que nos tempos em que estamos, a lei mais basica do negocio (dar algo em troca de algo) pudesse funcionar naturalmente em todas as diferentes relações, mas não, não funciona.
    Triste desilusão a minha quando percebi que afinal uns comem e outros lixam-se, é f..(aquela cena) Mas, muito mais engenhosa é a cena quando os que comem ainda desvalorizam os que são comidos. É quase como aquele chulo que bate e chama a mulher como se ela fosse um excremento da vida e ao mesmo tempo come do seu corpo e da sua alma.
    É lindo, não é?

    (não se esqueça da gorjeta, pois esta contribuindo para uma boa cena)

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