Almanaque de curiosidades americanas


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Se nalguma coisa a Europa ainda lidera no mundo será em jactância. Um dos traços mais agudos dessa maleita é o modo como por vezes derrama condescendência sobre os Estados Unidos, desdenhando-os como uma nação nova, sem memória nem passado.

Há no entanto algumas curiosidades em que convinha reparar:  

 

Se Mitt Romney vencer as eleições será o 45º presidente dos Estados Unidos, se não, Obama continuará a ser o 44º. Correntemente o Congresso dos Estados Unidos está na sua 112º sessão ininterrupta. À excepção do regime parlamentar saído da Glorious Revolution de 1688 que ainda hoje modela o Reino Unido, as instituições governamentais dos Estados Unidos são, entre as que actualmente vigoram, as mais antigas do mundo.

 

A bandeira americana foi criada em 1877 e desde então manteve-se estruturalmente inalterada, só com o pormenor de terem sido acrescentadas estrelas à medida que novos estados iam sendo incorporados na federação. Durante o mesmo período Portugal já teve 3 bandeiras.

Foi ao correr do início do séc. XIX que as nações ganharam o hábito de se fazerem representar por bandeiras. Antes, esta identificação flamejante e colorida estava confinada aos pavilhões navais ou a estandartes reais, içados em campos de batalha. Com a notória ressalva da Dinamarca, quase todas as bandeiras atuais são posteriores ao desenho definitivo da bandeira americana. A própria Union Jack só nasceu oficialmente em 1801 quando à Union Flag se acrescentou a relevante cruz vermelha em aspa de S. Patrício, representando a Irlanda.

 

Com 223 anos, a Constituição americana, ratificada em 1789, é a mais antiga em vigor no mundo. Seguem-se a norueguesa (1814) e a belga (1831). Desde 1822, data da primeira constituição em Portugal, já tivemos mais 5: 1826-1838-1911-1933-1976, esta tendo já recebido 7 revisões.

 

Desde 1845 que as eleições federais nos EUA decorrem sempre, e por lei, na terça-feira a seguir à primeira segunda-feira do mês de Novembro. Recorde-se que no início os Estados Unidos viam-se como uma Arcádia de lavradores, por isso esta data foi escolhida por conveniência agrícola. Em Novembro porque já as colheitas de Verão estavam enceleiradas e era suposto ainda não terem começado as neves de Inverno que tornavam as viagens desconfortáveis e as estradas intransitáveis. Numa terça-feira porque assim permitia que o eleitor guardasse o Domingo como dia de missa e descanso, dispusesse de tempo para ir a cavalo até à assembleia de voto, numa jornada que poderia durar um dia e regressasse a tempo da feira semanal, normalmente às quartas-feiras. Tais preceitos eleitorais devem ser os mais antigos do planeta, ainda em vigor.

 

14 comentários em “Almanaque de curiosidades americanas”

  1. Outro facto curioso é que o Obama é o 44º presidente mas apenas o 43º homem a ocupar o cargo. Grover Cleveland ocupou o cargo em 2 mandatos não consecutivos, tornando-o simultaneamente no 22º e 24º.

  2. Há algo que também se manteve quase imutável nos Estados Unidos: a ortografia do Inglês.
    Aqui já ocorreram diversas mutilações (fruto de leituras de más traduções de autores de 2ª linha do positivismo francês de meados do século XIX) mantendo Portugal , hoje, 20% de analfabetos e o Brasil (que tem apenas menos 60 anos que os Estados Unidos como nação independente) 75%.

    1. Fenómeno somos nós, André. É uma velha admiração que começou no cinema e enraízou-se com uma longa viagem pelo velho Oeste, nos idos de 90. Não tenho, nem por sombras, o teu conehcimento sobre as instituições e apolítica, porque navego mais nas águas da artes e da literatura. Sou um urbanite…

  3. Ora toma. É sempre bom que a Europa baixe um bocadinho a proa. Estamos a transformar-nos numa espécie de museu do mundo e nem damos por isso, tão convencidos que estamos da nossa superioridade.

    1. E uma coincidência para ver se acaba:
      Nas eleições americanas efectuadas a 6 de Novembro até agora o Partido Republicano ganhou sempre:

      1860 – Abraham Lincoln over Stephen Douglas
      1888 – Benjamin Harrison over incumbent Grover Cleveland
      1900 – William McKinley over William Jennings Bryan
      1928 – Herbert Hoover over Al Smith
      1956 – Dwight Eisenhower over Adlai Stevenson
      1984 – Ronald Reagan over Walter Mondale

  4. O Almanaque do Dr Franklin…

    Ainda um destes dias reflectia sobre a ausência de cultura colectiva (histórica) que há nos EUA, em comparação com a Europa e, sobretudo, com a Ásia.

    No entanto, a verdade é que têm aquela que é, para todos os efeitos, a mais antiga democracia do mundo, com instituições que depois foram replicadas por todo o globo.

    Isto explica que a cultura democrática tenha nos EUA o papel agregador que na Europa é obtido de outras fontes. A democracia e também o capitalismo ou o cristianismo (agora menos).

    É inegável (julgo) que a cultura colectiva é menos forte nos EUA, o que de resto traz tanto desvantagens (ex: violência) como vantagens (ex: espírito de iniciativa), mas é indubitável que a cultura democrática, essa, é bem antiga (e, ademais, continuada, coisa de que
    poucos países se podem gabar).

    1. Tenho grandes dúvidas, José, sobre a tua permissa de a cultura colectiva nos EUA ser menos forte que noutros países. Precisaríamos de desenvolver um pouco mais o conceito para discutir o caso, porque assim a seco, vejo nos EUA, precisamente um sentido colectivo às vezes tão forte que chega a ser messiânico, sobretudo nos segmentos mais conservadores.

      1. A minha análise é muito superficial, mas eu diria que nos EUA há não uma cultura colectiva muito forte, mas sim um leque de culturas colectivas muito fortes, e, aí sim, mais fortes do que na Europa, por exemplo. No entanto, mesmo aí, fico sempre com a impressão de que esse sentido colectivo, precisamente devido a uma falta de cultura unitária subjacente, se vê forçado a passar por dimensões mais abrangentes, mais palpáveis e agregadoras, como a religião.

        Mas isto, repito, é uma análise superficial…de café.

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