Hoje em dia não há arte capaz de chocar as consciências, é uma afirmação sempre proferida com um lágrima de saudades pelos tempos do urinol de Duchamp, das latas de sopa de Warhol ou dos nús disformes de Freud – estes bem recentes, por sinal.
Damien Hirst é um dos mais controversos artistas plásticos contemporâneos, mas precisamente por isso acusam-no de ser exímio em provocações gratuitas (o que quer que esta expressão signifique), além de uma nefasta reiteração do “avida dollars”. Claro que para o provocado a provocação foi sempre perpetrada pelos piores motivos, até porque não há ninguém à face da terra que não se julgue detentor do mais refinado bom-gosto. E assim andamos.
Vem isto a propósito da iminente inauguração de uma enorme estátua de Hirst, com o grandiloquente título de “Verity”, na cidadezinha balnear inglesa (um oxímoro) de Ilfracombe em Devon. O critico do liberalíssimo The Guardian é taxativo: “The giant bronze woman holding up a sword in Devon not only resembles the art of totalitarian dictators, it is helping Hirst destroy British art.” O habitualmente circunspecto Daily Mail não resiste ao trocadilho: “Some call it the Angel of the West; others deride it as the Belly of the South.” E para que não houvesse dúvidas, foi recordada a sentença lançada em Abril passado pelo perito Julian Spalding do “The Independent”: “His work isn’t worth a cent, not because it isn’t great art, good art or even bad art, but because it isn’t art at all,”
Este coro de ultrajados faz em tudo lembrar aquele que se levantou – o escândalo que foi! – quando em 1973 se descerrou em Lagos a estátua de D. Sebastião da autoria de João Cutileiro.
Disto só é possível retirar uma certeza: nunca se sabe o que o tempo faz à arte (e ao gosto).




Acho a estátua inglesa feia. E o D.Sebastião do Cutileiro continua a fazer-me lembrar a Shirley Temple…mas pronto.
Quase acertou Fernando, foi a mulher de Cutileiro que deu o rosto à estátua, o que foi mais uma acha, e das grandes, na fogueira do escândalo.
No caso do Hirst não sei; continuo a achar o homem uma fraude, mas pode ser que venha a evoluir.
Já o do D. Sebastião está resolvido, porque vejo a estátua há muito tempo. Começa por M, maiuscúlo (o que não é o caso de todos os trabalhos de Cutileiro, longe disso).
O D. Sebastião é tudo de tal maneira ao contrário que cada vez gosto mais. E tem melhorado muito com o tempo, não ganha patine, parece que rejuvenesce enquanto nós envelhecemos. Quanto a Hirst acho que precisamos de mais 50 anos para ver. Creio mesmo, ó desplante, que estaria na hora de ver Dali de outra maneira.
E porque não rever o gosto, todos os gostos? Isto não tem nada a ver, claro, mas regularmente como ou bebo coisas de que não gosto, para saber se continuo a não gostar 🙂 (sim, eu sei, dali é impossível não ver, etc.)
Para lhe dizer a verdade nunca consegui deixar de ver dali como um panfletário dotado, sou mau crítico.
Mas é para estarmos sempre a rever o gosto que gostamos de arte, não?
É, José, é. Tal como estamos vivos para mudar de vida (de dez em dez anos, dizia-me uma amiga há algumas vezes dez anos). (Hoje ando voltado para associações desassociadas, aqui fica já o pedido de desculpa).
Mas tinha que ganhar patine…nada é eternamente jovem…
Ainda em tempo: mas o ponto é, Luís, que nem galeristas nem marchands (nem o Gagosian!) sabem o dia de amanhã. Maldosamente diria: muito menos os críticos.
Às vezes julgo que (outras vezes tenho a certeza) não é uma questão de gosto, mas uma questão de assinatura. Tivesse aquele Cristo da senhora espanhola a assinatura de alguém e seria uma obra de arte!
Quanto ao Sebastião sempre gostei da estátua. Representa aquilo que Sebastião sempre foi: Um puto a quem a roupa sempre foi grande demais. Quanto à moça, feia é ela. Se é arte não sei. (a arte não tem de ser bonita ou feia, julgo eu). Mas também não basta representar isto ou aquilo. Eu percebo a interpretação daquilo que está no alto do parque Eduardo VI, mas não deixa de ser uma xxxxx. A não ser que o autor queira dizer que o 25 de Abril não passou de uma mijadela e não de uma ejaculação capaz de emprenhar.
Parecida com a virgin mother do mesmo autor. Gosto muito.
Por momentos pensei que era uma nova versão da Justiça.
Não há Arte nenhuma nessas duas estátuas é só replica. Não há procura de nada.
Já agora a “pensionista” criou Arte ao destruir o fresco?
http://www.telegraph.co.uk/news/worldnew s/europe/spain/9492805/19th-century-chur ch-fresco-destroyed-by-rogue-DIY-pension er.html