Anselm Kiefer, “Abendland [O crepúsculo do Ocidente]”, 1989
O que é arrepiante no sr. Víctor Gaspar é sua irrefutável desonestidade intelectual. Analisando os resultados e ouvindo as novas propostas só poderemos concluir que ele ou é um charlatão ou um mistificador. Em ambos os casos um desqualificado.
Charlatão:
Se o objectivo de todas as medidas tomadas antes era baixar o deficit e com isso sanear as finanças do estado português, o falhanço foi inequívoco: todas as previsões, mesmo com os ajustes intermédios, foram um logro. Exige então o espírito científico que o erro seja reconhecido, destacado, ponderado e corrigido. Nada disto foi feito ou não foi comunicado à população – sequer se assumiu o erro. Deste modo, cai pela base qualquer credibilidade em relação às propostas seguintes, corrompidas de imprudência.
Mistificador:
Chegados a este ponto torna-se pertinente colocar uma hipótese um pouco conspirativa, é certo, mas funcional: o objetivo das medidas não é salvar as finanças portuguesas, como o sr. Víctor Gaspar tem anunciado, mas, de um modo mais lato, reabilitar o Euro. Assim sendo o que se passa é algo de comum em estratégia militar: proceder a um recuo organizado e sacrificar uma praça de forma a proteger o bastião. Neste caso, Portugal não passa de um peão prescindível, cujas finanças e economia podem e devem ser sangradas com indiferença e numa política de terra queimada, em defesa do objectivo central. Isto colocaria o sr. Víctor Gaspar na desagradável posição de ser um mentiroso por nos iludir quanto ao que realmente quer atingir e de proceder como um títere das forças que o comandam. De um modo consciente e deliberado, ele não estaria apreensivo com a situação portuguesa mas com o ganho pessoal que poderá obter nos círculos profissionais que tem frequentado, muito distantes de Lisboa.
Esta segunda possibilidade é extremamente indesejável porque nos obriga a considerar não apenas a impostura intelectual do sr. Víctor Gaspar mas sobretudo a sua honra pessoal. Não sei se Bruxelas, ao contrário de Roma, paga a traidores, mas, se sobrevivermos a isto, estaremos cá para ver.
De qualquer modo o sr. Víctor Gaspar, pelo menos desde ontem, tem a sua reputação destroçada e, quem sabe, a sua vida desgraçada.


Não tem nada que ver com o euro. È simplesmente ir buscar dinheiro onde o Regime Socialista e o PS deixam.
corajosa e lúcida análise da realidade governativa:todo o meu respeito.
Obrigado Marta.
Bondade sua, ter colocado no título homem em maiúsculas…
Em França os Pombos revoltam-se:
http://www.facebook.com/lespigeonsentrep reneurs
http://www.atlantico.fr/pepites/loi-fina nces-2013-pigeons-entrepreneurs-disent-n on-499320.html
Se o lado mistificador corresponder à realidade (e já tive mais dúvidas quanto a essa possibilidade) estamos perante um caso de alta traição.
Antigamente punia-se com a morte de forma desonrosa.
Terrível (mas não treslida) conclusão.
Eu reservo essa benesse para os defensores do AO e para o gajo das PPP. Já nos livrávamos de bastante gente inútil.
José
Vitor Constâncio foi promovido por feitos muito idênticos, se for esse o cenário.
Ana
A envergadura dos feitos é diferente, mas é bem possível que seja um benchmarking.
Subscrevo inteiramente o comentário da Ana.
O José acaba de fazer uma análise muito lúcida e certeira, não haja dúvida!
Por que escreve Víctor, quando todos os jornais escrevem Vítor? Será que os jornais desconhecem a grafia que ele utiliza no seu nome?
Abendland significa “terra do crepúsculo”. Não me parece que possa ser traduzido da forma que se lê neste post.
http://nga.gov.au/conservation/painting s/details/14804.cfm
Pois, mas, sabe, as traduções que os ingleses fazem de palavras alemãs são frequentemente altamente inexatas.
Abend quer dizer “noitinha” ou “crepúsculo” ou “fim do dia” e Land quer dizer “terra” ou “país”. Embora a língua alemã seja rica em composição de palavras, não vejo forma de Abendland poder significar “crepúsculo do Ocidente”.
Com o esclarecimento semantico do Vasco (em baixo) e com o link, ja devia ter percebido a diferença entre o mero significado da palavra “Abenland” e o título do quadro.
Fui ver ao dicionário. Abendland significa “Ocidente”, no sentido em que é comummente utilizado em, por exemplo, “os valores do Ocidente” ou “a civilização ocidental” ou “as democracias ocidentais”, etc. Nada tem a ver com “crepúsculo”, portanto. O título do quadro é simplesmente “Ocidente”.
Não Luís, o título do quadro é “Abendland, o crepúsculo do ocidente”. É assim que aparece em todas fontes, foi assim que o pintor quis por mais estranho que lhe possa parecer. Pode sempre tentar entrar em contacto com Anselm Kiefer para o corrigir.
Abenland significa Ocidente em Alemão.
O que faz é um processo de intenções, actividade muito querida dos portugueses (e da sempre saudoso Santo Ofício e respectivos familiares – alguns dos quais transitaram sem estranheza para outras obediências, hoje muito activas).
Embora tenha algumas dúvidas quanto à coragem política do 1º ministro e do ministro das Finanças, não me esqueço que vivo num país que há 11 anos deixou de crescer mas em que a dívida pública se ia acumulando de ano para ano. Não vi, então, grandes gritos de “traição!, traição!” ao que não deixava de o ser. As reacções negativas ao que se passava estavam a cargo de seres que eram tratados com a condescendência resarvada aos pobres diabos tomados por uma ideia fixa (v.g. Medina Carreira).
Mais tarde, e há pouco mais de um ano, lembro-me do insuspeito Silva Lopes falar de uma extremamente difícil – se não impossível – correcção e de duvidar da possibilidade política da a levar a cabo em tão curto espaço de tempo.
Dito isto, acho cedo para reeditar uma versão maria papoila da “Dolchstoßlegende”
caro “c”: não faço qualquer processo de intenção, limito-me a tirar conclusões que me parecem lógicas de hipóteses que me parecem cada vez mais plausíveis.
Tem toda a razão quando diz que há 11 anos ninguém gritou “traição!” com o crescimento da dívida pública: nem os governos, nem a banca (portuguesa e alemã), nem os comissários de Bruxelas, nem os governos no Conselho da Europa, nem a Bolsa de valores (de Nova Iorque e não só), nem as empresas de construção civil – ninguém, mesmo. Ou talvez só o sr Medina Carreira, mas quem diz sempre que amanhã vamos morrer, um dia acabará por ter razão.
A não ser que ice o paternalismo – pior, o jardim-escolismo a regime político e económico, o facto de a economia não crescer há 10 anos não é imputável senão aos portugueses. Creio que, essencial e geralmente, os europeus (1) se limitaram a tratarem-nos como adultos capazes de medir minimamente as consequências das suas decisões.
Quanto a Medina Carreira, nada de mais injusto. A sua denúncia nada tinha de mecânico-compulsiva. Foi precisa, situada no tempo, sensata e racional… De facto, apenas dizia alto o que outros (Silva Lopes, por exemplo) por motivos que eles lá sabiam, resolviam não dizer.
(1) Falar das bolsas de NY como causadoras dos nossos males (que radicam todos na nossa incapacidade de crescimento, desde 2000) não é intelectualmente sério, como sabe.
Caro “c”:
Na situação em que estamos, ficaria muito mal apontar o dedo a outros por termos chegado aqui; isso é o que fazem certos políticos que nunca são responsáveis pelos seus actos e falhanços. Todavia, é também inaceitável lições de moral e de boa “governance” da parte de quem tanto lucrou com o nosso endividamento e que tanto o estimulou. Fomos tolos? É possível. Fomos mal aconselhados? Decerto. Ou não se lembra do mantra económico nos idos de 2000: endividem-se, endividem-se à vontade e muito, senão não crescem… Os economistas são de facto uma fauna exótica: dizem uma coisa e o seu contrário conforme a época e sempre com uma ar de ciência certa.
“Ou não se lembra do mantra económico nos idos de 2000: endividem-se, endividem-se à vontade e muito, senão não crescem…”
Quem mantrava tal?
Os economistas? Exactamente quais? Nem sequer os keynesianos aconselhariam tal numa economia aberta como a nossa.
Os bancos? Os bancos prosseguem uma actividade comercial, não são instituições de beneficência.
Quanto ao plural, agradeço que me exclua dele. Há muito que tenho as maiores apreensões sobre este país, onde o estado de D. João V co-existe com a pobreza do século XXI.
Quem aconselhou foram os políticos e os jornalistas mas embrulhados paixões e estímulos, sem faltar o circus maximus para o povo futebol, mais newspeach dos sindicatos em “dignificação de carreiras” .
Desvalorizar as nossas responsabilidade com “Fomos tolos? É possível. ”
É extraordinário dizer isso quando nós somos os únicos responsáveis. Com opiniões dessas fica certo que vamos repetir.
Ainda não vi uma conferência sobre :
Responsabilidades da Universidade na bancarrota de 2011 – o que ensinar para não voltar a acontecer.
Ainda não vi uma conferência sobre : Responsabilidades da Escola Publica na bancarrota de 2011 – o que ensinar para não voltar a acontecer.
Ainda não vi uma conferência sobre : Responsabilidades dos Media na bancarrota de 2011 – o que noticiar para não voltar a acontecer. O caso dos suplementos sobre o Aquecimento Global e a falta de suplementos sobre a Dívida Publica e Endividamento.
Ando há tempos a dizer que das duas uma, ou quem nos (des)governa é completamente burro e incompetente, o que me faz alguma confusão, ou tem objectivos diferentes daqueles que apregoa, mas que não sei quais são.
O que o José Navarro de Andrade propõe parece-me muito plausível. Obrigada.
Cara Gi:
Ponha uma hipótese intermédia em relação ao seu primeiro caso. E se em vez de burrice e incompetência houvesse apenas cegueira ideológico ou incapacidade para superar dilemas? Olhe à sua volta e veja lá se não encontra tanta gente com os neurónios afinados mas incapaz de resolver problemas; ou gente brilhante na cátedra mas de todo inepta no terreno. O que não pode ser é intelectualmente desonesto e pura e simplesmente escamotear os erros. Ou então…
Não sou tão linear como o Lavoura, mas também acho os epítetos exagerados.
Também me parece que é a segunda hipótese que se aplica ao Gasparzinho. Só isso poderá explicar como este peão passou em duas ou três semanas de ultraneoliberal, com a TSU (confisco de mais de dois mil milhões de euros aos trabalhadores para os entregar de mão beijada aos patrões), para este novo pacote de impostos, que alguns chegam mesmo a classificar como esquerdista, por aparentemente incidir com mão mais pesada sobre os rendimentos dos mais ricos.
Além de ser uma tentativa tardia para reconquistar a confiança do povo, esta cambalhota ideológica demonstra claramente que a única coisa que interessa para ele (e para o chefe Passos, evidentemente) é cumprir as ordens da gorda.
Estão cegos, obcecados com o euro e para eles nada mais interessa, doa a quem doer, morra quem morrer.
Enquanto lá estiverem, vão aumentar impostos as vezes que for preciso.
Infelizmente, não creio que lhes possa acontecer algo parecido com o que aconteceu aos traidores de Viriato, porque neste país o crime compensa…
A hipótese colocada não me ocorrera até agora!
Mas pensando bem e tomando os exemplos da classe politica que subiu na vida internamente e aquela que subiu externamente vitor constâncio ) talvez possa ser considerada plausível. O outro fugiu para Paris , os actuais triplicaram a segurança e evitam a todo o custo aparecer escondendo e escondendo-se.
Quanto ao pormenor do mantra (endividem-se) rebatido pelo facto de os bancos não serem instituições de beneficência , só para lembrar que isto começou com eles a ganharem por emprestarem , continuou com eles a receberem ajudas pagas por todos nós com emissão de divida dos estados para os salvar e contínua com eles a ganharem porque não emprestam ou emprestam pouco a juros usurários que põem de joelhos nações inteiras.