Processamento de salários à moda do Gaspar


Rui Rocha,

Senhor Director de Recursos Humanos,

 

Na sequência da comunicação de ontem do Sr. Ministro das Finanças, permito-me sugerir a V. Exa. uma alteração de procedimento que, estou certo, em muito beneficiará a produtividade da nossa empresa em matéria de processamento de salários no ano de 2013 e, muito provavelmente, em todos os que se lhe seguirem. Vª. Exa. verá. A empresa, como bem sabe, insiste em processar as remunerações em cada um dos doze meses do ano. Dá-se, em consequência, ao incómodo de desenvolver um conjunto de tarefas administrativas, como a emissão de recibo, a transferência do valor líquido para a conta bancária, a retenção na fonte do imposto sobre o rendimento, a cativação da contribuição para a segurança social e a entrega aos competentes departamentos do Estado de tais importâncias. Ora tudo isto parte de um lamentável equívoco. Está a empresa convencida que me deve pagar como contrapartida do meu trabalho. Nada mais falso. Embora não saibamos qual a dimensão exacta da coisa, a verdade é que a maior parte dessas remunerações são do Estado. Percebo que o que afirmo possa provocar-lhe algum espanto. A questão entende-se melhor com uma imagem. Tomemos a remuneração anual como se fosse um bolo. Corte V. Exa., sem grande preocupação de rigor, uma fatia que não ande longe de nove catorze avos. Pronto? Muito bem. Tente agora entregar-me essa parte do bolo. Viu? O Estado já a abocanhou, não é verdade? É mesmo assim que a coisa se passa. Ora, sendo isto assim, como é, não há nenhuma vantagem em andarmos com esta maçada dos recibos, das transferências e de tudo o mais. Assim, melhor será que dê V. Exa. instruções aos serviços para, pelo menos até Julho de 2013, entregarem directamente a totalidade das minhas remunerações ao Estado. Depois, antes de V. Exa. ir de férias em Agosto, logo voltaremos a falar sobre o assunto. E já veremos, face às medidas concretas aprovadas no Orçamento de Estado de 2013 e a outras que entretanto venham a ser arremessadas, se é questão de alterar o procedimento. Ou se a realidade aconselha que o mantenhamos até Dezembro.

 

Com os melhores cumprimentos,


Rui Rocha

 

P.S. (salvo seja): no que diz respeito ao subsídio de alimentação, autorizo desde já V. Exa. a optar entre a entrega ao Estado ou, como me parece mais adequado, o envio directo à Fundação Mário Soares.

34 comentários em “Processamento de salários à moda do Gaspar”

  1. Assino por baixo.
    Acrescento mais um detalhe.
    Sr. Ministro, comprei uma casa em ruína, ao serão fui a recuperando ao longo de 5 anos, está quase como nova.
    Estou de parabéns, não é?
    Pois, mas pago renda ao banco, pago IMI com base na então avaliação da casa, agora o Sr. Ministro vai lá e faz uma nova avaliação, já sei, vai disparar o valor de IMI, depois não consigo chegar a tudo e entrego uma casa nova ao banco que me financiou uma ruína.
    Depois eu vou ficar muito zangado com o Sr. Ministro.

      1. Pois é, se chegar a ponto de me arruinar 5 anos de trabalho e suor, gasto mais algum numa passagem e vou pessoalmente dar-lhe um abraço de agradecimento, tipo o da ruiva ao bófia, tipo amor…

          1. Li algures, o que com sabedoria alguém escreveu: o “sarcasmo é o ultimo refugio dos desesperados”

      2. É isso mesmo ficar quieto, ter o minímo de chatices
        Ganhar mais de 800 euros? nah melhor nem ser promovido, para quê?

  2. eu faria milhares de cópias deste texto para ser enviado por mail para os diversos directores. muito bom. a necessidade aguça o engenho 🙂

  3. Este vai já para os nossos Recuros Humanos. É que é já a seguir!

    Divino! (aquela do sub. de alimentação para a fundação foi de arraso…!Eheh… olhe que o home inda tem uma apoplexia )

  4. Rui, apesar de concordar com o teor da “carta”, discordo do tom jocoso em que se discute este tema. Há pessoas a passar fome e milhões que fazem enormes sacrifícios, tudo por causa do roubo que nos é imposto por alguns iluminados (que desconhecem a História da Economia e devem ter tirado os cursos às três pancadas e com favores como o Relvas). Pessoalmente, tenho feito enormes sacrifícios para sobreviver, não perder a casa e alimentar a minha família, sobretudo a minha filha de 19 meses. Bem sei que os amigalhaços estão ainda melhor na vida, pois este dinheiro não se evapora e basta ver para onde vai o dinheiro. Há gente a lucrar à conta da esmagadora maioria da população e há gente que irá passar fome e ter problemas de saúde (porque vai deixar de haver saúde para quem não tem dinheiro, tal como a educação, a seg. social e a justiça). Porque já há e vai haver ainda mais gente. Estamos a viver um período negro da nossa História e ficaremos ainda pior (só os iluminados é que ainda pensam que este caminho não é para o abismo mas para a glória).
    Abraço.

    1. Caro Ricardo Sado
      Compreendo perfeitamente que o humor possa não ser entendido por quem diariamente só ouve telejornais a anunciar desgraças. Mas o humor de qualidade sempre foi uma arma de combate político em períodos difíceis da nossa história como país.
      O Rui Rocha não necessita de advogada oficiosa mas dizer que o texto usa um tom jocoso parece-me excessivo. Pode qualifica-lo de humor negro e não gostar, mas ele retrata fielmente a situação em que nos colocaram.

      1. Bom dia Helena.
        Admito que a palavra “jocoso” tenha sido exagerada e mal empregue. O que pretendia dizer é que a actual situação não está para brincadeiras e quando isto começar a ruir de vez (e já falta muito pouco) então é que não deveremos, por respeito a quem sofre, brincar com a situação. Bem sei que tem graça gozar com estas espécies de ministros e aquela espécie de primeiro-ministro, mas a tragédia que se avizinha não permite sorrisos, bem pelo contrário.
        Não vejo telejornais e dou uma olhada rápida pelos jornais online. Há muito que prefiro informar-me na blogosfera e o Rui (que anda no DO há mais tempo que a Helena) sabe que sou cliente assíduo. E concordo com a larga maioria dos textos. E sei (agora respondendo ao Rui) que o Rui tem sido um dos que ficaram desgostosos com este governo. Aliás, em comentário a um texto anterior do Rui (há cerca de 2 semanas) até escrevi que, a meu ver, a principal razão do descontentamento geral é que quase ninguém imaginava sequer que fosse possível vir alguém fazer ainda pior que Sócrates e amigos. Pois bem, estes conseguem, diariamente. Os resultados estão aí e só não os vê quem não quer ver ou não quer perder o seu lugar no pote. O descontentamento, mais do que uma crítica a este governo em particular, é um acumular de frustação e revolta. Estas são as gotas que fizeram transbordar o copo. E vamos quase todos (nós e os nossos descendentes) sofrer na pele a actuação criminosa desta gente. Enquanto muitos terão que emigrar em busca de uma qualidade de vida minimamente aceitável (com tudo o que isso implica, desde logo a nível emocional), outros migrarão para os tachos nas grandes empresas, o verdadeiro pote.
        Mais uma vez, reconheço que exagerei na palavra escolhida e peço desculpa ao Rui, mas a revolta é grande e o desespero começa a apoderar-se.
        Cumprimentos.

        1. Caro Ricardo
          Bem haja pela resposta. Posso dizer-lhe que com 77 anos e 64 de labor diário – comecei aos 13 anos – vivo exclusivamente do meu trabalho e dou no duro para o manter. Sei, por isso, na pele, o que vai ser o futuro de dois netos que tendo ficado sem pai, muito possivelmente o não terão, se a avó não continuar a trabalhar.
          Mas, se de vez em quando, o humor não for o escape, então, só nos resta o desespero. Que ele me consuma não terá grande mal, porque o tempo que cá andarei já não será longo. O que não quero é que os consuma a eles. Daí, a minha necessidade de ler um texto como o do Rui.
          Cumprimentos

    2. Ricardo, tenho o máximo respeito pela situação que nos relata. Já passei por momentos muito difíceis e até já falei de uma pequena parte deles aqui no DO:
      http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/3674082.html
      É por isso que não tolero conversa fiada sobre o desemprego ser uma oportunidade ou treta sobre pieguice. O que escrevo, estou convencido, em nada apouca a situação de quem sofre, mas pode, assim espero, ridicularizar a pretensa seriedade de quem de sério tem pouco. Não sinto que tenha de me justificar, mas se se der ao trabalho de ler os meus textos dos últimos dias verá que artigos sérios sobre a situação do país também não têm faltado. Todavia, confesso-lhe que palavras inflamadas de indignação são tantas e tão pouco eficazes que a certa altura me apetece variar o tom. E não duvide. Uma das formas de corroer o poder é fazer-lhe a caricatura.

  5. Rui, na sequência da sua missiva, ainda pensei reproduzir uma comunicação do Director Financeiro ao seu Director de Recursos Humanos. Só que a coisa está de tal forma que a piadola podia resvalar. Mormente depois de ter lido o comentário supra.

  6. Está bom…no limite do humor negro, mas bom, muito bom.

    Se não me tivesses (2ª pessoa com permissão) revelado/partilhado à priori, muito antes disto tudo, aquilo que nos atormenta, os rios/ribeiras desviado(a)s pelo Gaspar Coelho, que nos governa, porventura pensaria que a jocosidade ou inconsciência relativamente ao “Portugal real” existiria aqui.

    Bom post, muito bom na verdade este post, embora não saibamos a “dimensão exacta da coisa” e que as fundações beneficiadas não se reduzem à do “Bochechas”, tamanha a gordura e imenso o tecido adiposo do Monstro.

    Envie a carta/missiva Rui.

    Abraço.

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