Começa a ser patente que a credibilidade da democracia representativa em Portugal já passou o prazo de validade. Desde o proverbial “eles são todos gatunos” até à refinada análise de um “-ólogo” não sei bem de quê, que afirma sem hesitar “há claramente uma diferença entre a opinião da cidadania e do eleitorado”, que se percebe ser nula aos olhos do cidadão a representatividade sentida, a confiança política e o prestígio real dos eleitos da nação.
Pode-se mesmo afirmar que a democracia representativa em Portugal só ainda não se desvaneceu por dois singelos motivos. Um é que não se sabe muito bem que modelo adoptar em sua substituição: Petrogrado 1917? Berlim 1933? Tirana 1945? Chile 1973? Burkina Faso 87? O outro é que ainda não apareceu nenhum carismático a discursar em cima das mesas das cervejarias ou a marchar pelas estradas, que arrebate as massas e num ímpeto salvífico, tome o poder em nome delas.
Fora isso a coisa está madura.
Entretanto a esquerda, já não sendo aquela que descobria ingenuamente a praia debaixo do empedrado, indigna-se e protesta, para voltar a indignar-se e a protestar, sem se dispôr a descrever o dia seguinte à abjuração da dívida, à nacionalização da banca e das “indústrias estratégicas”. Há uma “esquerda responsável” mas essa está a cargo do sr. Tozé Seguro – I rest my case.
Por seu lado a direita faz o que sempre fez: diz que sim com a cabeça quando lhe convém. Quando não, rosna baixinho, intriga nos salões, clama pelo rei (desta alteza nem pio se tem escutado…) e não vendo nenhum coronel a jeito, abre conta em Gibraltar – que se foda o pagode.
A festa é toda dos repórteres que por mais sério que seja o caso hão-de sempre encontrar um cromo aos guinchos a dizer as piores bestialidades, persuadido que é a consciência da nação, doutro modo não lhe teriam cedido o microfone. É de crer que os repórteres, pela intrigante persistência com que actuam, estão também convencidos que vozes de burro chegam ao céu.

Na mouche!
E se alguém tiver dúvidas, queira fazer o favor de espreitar este vídeo:
http://www.tvi24.iol.pt/videos/video/13 702890
Também é verdade que são só dois, os restantes olham espantados. Mas não deixa de ser uma trapalhada.
O espanto dos restantes talvez se deva à violência dos gritos e ao descontrolo de quem grita. Os portugueses em geral têm (é, pelo menos, a minha convicção) uma natural inclinação para a temperança. Seja como for, há que dar a volta a esta trapalhada, e depressa, porque também não tenho dúvida: para os carismáticos savíficos, a coisa está madura.
Por mim, sais em ombros.
Em ombros ou em umbros?
Bom.
Não é de admirar que não haja nenhum “carismático”, o regime é já populista quanto baste e é por isso que está na bancarrota.
As promessas só se conseguem fazer quando o regime que cai tem as finanças sãs como Estado Novo.
Aí dá para viver 30 anos a aumentar a divida até estoirar.
Quanto à Esquerda ela não passa hoje de cobradores de impostos, mesmo os Comunistas de hoje fogem como diabo da cruz de gerir qualquer coisa que não seja distribuir dinheiro. Por isso é que a Esquerda hoje prefere uma ONG, uma Fundação…em vez de uma Siderugia, Refinaria ou um Estaleiro Naval…
Gerir qualquer industria é demasiado complicado para os meninos da escola publica ,gerir implica más notícias, coisas que não funcionam, coisas que partem, e isso são experiências traumáticas que fazem mal à autoestima.
Só se tivéssemos petróleo é que a esquerda saltaria para um golpe de estado pois aí a riqueza é mais fácil,
Deus nos livre de descobrirmos petróleo nos próximos 10 anos…
Os carismáticos Adolfo, António e Benito, usurparam o poder precisamente quando a economia estava em crise.
Touche em relação ao Hitler e ao Benito. Não chamaria carismático e populista ao António.
Mas note que o meu ponto baseia-se num contexto de facilitismo, podemos dizer tudo de Benito, Hitler ou dos Comunistas da velha guarda mas não tinham medo das dificuldades. Também ligado ao facto de não terem escrúpulos em intimidar, aterrorizar, matar.
Num certo sentido os “idiotas úteis” tomaram o poder.
Obrigado pela correcção c. sou o primeiro a dizer que o meu português é paupérrimo e escrever cada vez mais em inglês não ajuda nada.: auto-estima
🙂
Autoestima? Pensei que em português se escrevia auto-estima. Mas tem razão: o “acordo ortográfico” é bem um exemplo das façanhas da democracia “representativa”: mutilar a língua portuguesa é uma experiência giríssima, é grátis – ou parece – e é um presente porreiro para o Lula (esse, o o do mensalão) que, sabemos todos, é um gajo porreiro.
Caríssimo José,
Nada como usufuir de uma “costela de filosofia neo-positivista” para fazer confluir basta e merecida unanimidade. Discursasse de megafone da bancada de uma qualquer cervejaria e arrancaria, igualmente, o meu sonoro aplauso. “Metafísicas especulativas” não são, de todo, o seu forte. 🙂
Cordialmente,
Paulo
Obrigado, mas de megafone é que nunca, para banhos de multidão tenho a minha dose quinzenal de Sporting.
Não desconverse. A par de Karl Popper, Sacher-Masoch terá sempre aquela explicação, digo, contradição 🙂
Tem toda a razão Sacher-Masoch é um bálsamo para os dias que correm: como retirar prazer do sofrimento.
Olha, patrício, sugiro que vás pensando numa carreira política… a falar assim vais reunir apoiantes em três tempos. E tens o meu voto desde já. 🙂
Estou tentado a dizer já-mé…