1657
1847
1878
O picaresco episódio de Doña Cecília Jimenez, vilã de Borja, lugarejo de 4000 almas nos confins de Aragão, veio salvar a silly season. Da toca saltaram comentadores de 3 qualidades: ele foram os restauracionistas que vieram a público rasgar as vestes, ele foram os jocosos que têm sempre razão porque nunca levam nada a sério e, decorrente destes, ele apareceram, ainda titubeantes, os que já vêm defender o estilo naif da senhora, como quem descobriu um Le Douanier Rousseau de última hora.
Os arqui-conservadores, que tudo baptizam como património a preservar, imutável através dos tempos, sofrem de outro problema além da extrema sisudez e da manifesta vontade de mandar parar as máquinas para sempre. É que precisamente, as máquinas nunca pararam e a maior parte dos “monumentos” (só este conceito daria para uma brava discussão) que elegemos como emblemas imortais da nossa pátria não menos imortal, lamento informar, mas têm sido remexidos, com maior ou menor alvenaria, ao longo da sua existência, bem mais precária do poderíamos supôr.
Os Jerónimos por exemplo, o timbre supremo da Era dos Descobrimentos (donde, em memória, parece que nunca saímos), o imaculado registo do quinhentismo português, pois os Jerónimos, a última intervenção que tiveram foi em 1950 quando lhes acrescentaram os vitrais do cruzeiro. Esses mesmos vitrais que turistas fotografam com deslumbre e os seus guias garantem ser manuelinos de gema.
Mas como se pode ver pela foto supra, este acrescento foi nada comparado com as dedadas que imprimiram no Mosteiro nos finais do séc. XIX e as reconstruções, supostamente imitando a traça original (imitação=kitsch, por definição), executadas aquando da famigerada Exposição do Mundo Português de 1940.
Pode Doña Cecília ter sido desajeitada e falha de talento, mas não podemos nós considera-la profanadora ou fora dos costumes.



