Pode uma cidade ser devorada por um buraco?
Não é uma cratera como a que furou Guatemala City depois da tempestade tropical Ágata, em junho de 2010. Essa era um cilindro geometricamente irrepreensível e mais não tragou do que um edifício de 3 andares. É aterrador ter um buraco vertical direitinho ao inferno? É, mas será sobretudo impressionante e dramático.
Em Cerro de Pasco é pior. Não há povoamento no mundo tão grande e tão alto ao mesmo tempo – com 70.000 habitantes repousa nos Andes peruanos a 4300 metros de altitude. O ar é fino e o chão frágil. Grande parte das riqueza platinas de Espanha vieram de lá, depois de a fundarem no séc. XVII sob a magnificente designação de “Ciudad Real de Minas”. Tem história a cidade, mas dela nada resta visível. À uma foram os frequentes terramotos que derrubaram a “Casa de la Moeda” e igrejas coevas, à outra foi a mina que até 1977 engoliu paulatinamente o centro histórico.
Pois é isto: Cerro de Pasco está a ser engolida metro a metro, pela sua própria razão de ser. Podem-se acertar os relógios pelas explosões, todos os dias às 11h e às 15h, que soam das profundezas da terra. A mina a céu aberto, que já foi de prata mas continua sendo de chumbo e zinco, não cessa de se expandir e como a cidade foi erguida anelarmente em torno dela, são bairros inteiros que têm de ir abaixo e ser relocados. No dizer de um poeta local Albert Estrella:
“Para decirte que he caminado
Sobre esa calle que te lleva directo al abismo
Calle Grau, Calle Lima, ¡ya cayese de una vez por todas!”
Em 2008 o parlamento do Perú propôs um fenomenal plano de reconstrução de raiz de Cerro de Pasco noutro lugar, mas como das palavras aos actos a distância sul-americana é ainda maior do que a portuguesa, ainda estão todos à espera, lá cima, que alguma coisa aconteça. Entretanto, além deste drama abissal Cerro de Pasco passa por ser uma das urbes mais poluídas à face da terra – chumbo e zinco, lembram-se?, dos metais mais tóxicos que há.






A imagem para além de aterradora, impressionante, é ao mesmo tempo possuidora de uma qualquer beleza estranha. Tem tanto de arrepiante, como de atraente e fascina. Pelo menos a mim fascina-me.
É literalmente a atracção pelo abismo. In loco deve impressionar ainda mais.
Ui, coisa mais telúrica!!
Palavra bem escolhida: “telúrico”!
Para podermos ter televisores, telemóveis, automóveis, aviões, centros comerciais, batatas a €0.20 (10 min de trabalho), crescimento económico…
Alguém prescinde?
É possível que a Terra, toda ela, venha a ser classificada como Parque Natural. Local de repouso, em que todas as suas maravilhas naturais, únicas no sistema solar, possam ser desfrutadas.
Para isso, a exploração de recursos naturais será exclusivamente feita noutros planetas, em corpos extraterrestres.
Talvez, num futuro longínquo…
Mas o buracão é também fabuloso, mesmo sendo artificial. A geologia é uma das minhas paixões.
Abraço
abraço de volta.
Isto podia ser uma metáfora de Portugal. Nada mais.
A vida humana não vale nada quando se trata de obter lucros. A quantidade de doenças pulmonares que deve existir neste sítio…
Já agora, Peru leva acento em espanhol, mas em português não. Aliás, como paul, Raul ou cu, por exemplo.