121 A.D.


enlil,

 Paul Strand, “Wall Street”, 1915

 NOAA, “Relâmpagos sobre Boston”, 1967

 

Ao relatar a morte de Calígula, Suetónio escreve como quem abana a cabeça em sinal de consternação. Gaius – Calígula foi o amável epíteto que lhe atribuíram os soldados de seu pai – demonstrou toda a sua imprudência ao ignorar os sinais evidentes de perigo que os deuses lhe comunicaram. No dia do seu assassinato, ao degolar em sacrifício um par de flamingos, o sangue espirrou-lhe na toga, na véspera, um raio fulminou Roma, e houve mesmo quem visse um cometa riscar os céus, poucos dias antes de à saída de um espetáculo de gladiadores, meia dúzia de tribunos, acolitados por um centurião, terem cravejado o corpo de Gaius à punhalada. Esta morte abjecta, confirma Suetónio, deveu-a Calígula a si próprio, graças à temeridade, à impiedade, à estupidez mesmo, que exibiu perante os presságios.

Os deuses romanos queriam bem à humanidade, intervindo amiúde no seu curso com benevolência e amparo. Em troca só pediam respeito, venerado com oferendas de sangue. Não eram como aquela identidade remota e inapelável dos cristãos, uma seita fremente e carrancuda, estranhamente influenciada pela superstição judaica. O deus deles só se exprimia através de catástrofes e castigos, assim patenteando o seu desprezo pelos homens.

Estaremos assim tão longe destes tempos e destas crenças, quando discutimos da maneira como o fazemos as supostas fórmulas económicas que nos salvarão da crise abissal para onde forças intangíveis e enigmáticas nos empurraram?

15 comentários em “121 A.D.”

  1. Tem alguma dúvida? A Economia é a nova religião no sentido de haver uma Verdade Revelada nas instituições universitárias que a disseminam e de ser preciso fé para acreditar nela, porque quando a realidade por vezes aparentemente a desmente os verdadeiros crentes sabem que o longo prazo (convenientemente desconhecido) lhes dará razão. Os resultados das medidas que tomam não precisam de ser comparados com o que se esperava porque se sabe que ou são já bons ou sê-lo-ão na eternidade que espera por nós.

  2. Fórmulas Económicas?

    Eu só vejo especuladores financeiros: uns dizem imprima-se – contrafacção de moeda mas como é o Estado já pode- outros dizem venda-se eurobonds, com obrigatoriedade de todas as agências de rating mintam e dêem AAA mesmo que seja impossível pagar…

  3. a superstição judaica. O deus deles só se exprimia através de catástrofes e castigos

    Neste ponto a religião islâmica distancia-se da judaica, pois o Deus islâmico é sempre descrito como “o Clemente, o Misericordioso”, ou seja, é um Deus essencialmente benevolente que não castiga os homens, apenas os premeia.

  4. “…aquela identidade remota e inapelável dos cristãos… estranhamente influenciada pela superstição judaica”.
    Estranhamente porquê, se foram os judeus quem inventou as duas religiões, além de terem sido também o berço da muçulmana?
    Estranho será o mundo dito “civilizado” ter adoptado essa religião… Ou talvez não, se atendermos ao essencial da mensagem de Cristo (esquecendo tudo o resto, sobretudo as suas fortes contradições): o amar aos outros como a nós mesmos. Não acha esta mensagem, ainda hoje, verdadeiramente revolucionária? Até por ser absolutamente contrária à natureza humana/animal…
    Quanto às fórmulas económicas, seguramente não iremos lá com crenças. Até porque foi o reino quase absoluto delas que nos trouxe até à dita crise. Do que se trata, na minha humilde opinião, é de impor regras ao capitalismo e concretamente ao mundo financeiro especulativo e ganancioso. E, já agora, não seria mau começar a olhar para a China com mais cuidado, porque podem vir daqueles lados coisas (mais) más do que as que têm vindo. Com tantos anti-comunistas que existem no Mundo (e em Portugal…), não percebo como é que os países ocidentais se entregam assim nas mãos daquela superpotência emergente. Ou melhor, percebo: “it’s the economy, stupid”…

    1. Embora não seja crente, concordo em absoluto consigo quando diz que a mensagem de Cristo e do cristianismo é revolucionária. A intenção era vê-la do ponto de vista de Suetónio ou seja, a partir do satus quo romano.

    2. Inteiramente de acordo consigo, Mário Pereira. Não conheço mesmo outra mensagem mais revolucionária, ousada e surpreendente do que a de Cristo, até por, como diz, ser contrária à condição humana. O pior foi o que os homens fizeram com ela, mas isso já é outra história.

      Quanto à economia, é o novo brinquedo do Ocidente. O novo ópio do povo. Cada europeu é um especialista em macroeconomia, quer tenha estudado em Oxford ou a Escola 3+1 da Baixa da Banheira. Sinais dos tempos, temos de entreter-nos com alguma coisa e agora já todos sabemos ler…

    3. aplaudo sua observação, de igual modo, o diálogo da seguinte ligação:
      http:/ quartarepublica.blogspot.pt /2012/08 mito-de-babel.html

  5. “Do que se trata, na minha humilde opinião, é de impor regras ao capitalismo e concretamente ao mundo financeiro especulativo e ganancioso. “

    O mundo financeiro especulativo e ganancioso é o Estado Social. É ele que precisa dos mercados como estavam. Foi no topo da bolha que o Estado Social mais receitas recebeu. O Estado que cresceu gastava 30% do que produzimos nos anos 80 para mais de 50% da economia hoje precisa dos mercados para vender dívida, já que aumentar os impostos quase 100% em 20 anos é politicamente impossível. Por isso o Estado cobra hoje uns 30-40% de impostos da riqueza produzida, uma pequena parte é receitas próprias e perto de 10% é défice ou seja nova dívida a cada ano. 50% do PIB gasta o Estado todos os anos.

    As regras provocaram em parte a crise pois deram excesso de confiança. Deram credibilidade a algo que não merecia tanta.

    A outra parte foi o intervencionismo estatal, estímulos: juros ultra baixos, nos EUA até inclui compra de hipotecas por empresas para-estatais.
    Mas a razão para isto foi estimular a economia e os mercados. Quanto mais negócios mais impostos.

    As agências de rating protegidas pela regulação só começaram a baixar ratings quando as dívidas dos países já iam em 80-90% e fora de controlo.No caso dos grandes – ou com mais proximidade cultural- só com 100% ou mais…o UK ainda tem AAA. Uma farsa.

    1. Vamos lá a ver: o problema não é o Estado Social. Os países com mais protecção social são os nórdicos, que são também os que têm a maior carga fiscal.
      Se reparar com atenção naquelas listas dos mais ricos do Mundo, da Forbes e tal, vê lá três ou quatro portugueses e nenhum desses países. Mas também não têm dois ou três milhões de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza e nós temos.
      O problema, repito, não é o Estado Social. É a CORJA DE PARASITAS que vive neste País à sombra do poder político, sem produzir um chavo de riqueza.
      Toda a gente, com o PSD à cabeça, falam no assalto que o PS do Sócrates fez ao erário público durante os seis anos em que esteve no poder, e eu concordo.
      Mas eis que chega a vez deles e:

      “O QUE ESTE GOVERNO FAZ PARA COMBATER DESEMPREGO”

      Faça o favor de ler o comentário com o título acima, onde consta uma lista de 29 assessores / adjuntos de Ministérios, todos de idade inferior a 30 anos, havendo 14 “especialistas” com idades entre os 24 e os 25 anos.
      E depois diga outra vez que o problema é o Estado Social…

      http://visao.sapo.pt/desempregados-ja-podem-acumular-subsidio-com-salario=f679559#ixzz22qcgVSmz

      1. Questão pertinente. De resposta complicada.
        -Para melhor esclarecer isso, penso que devemos definir melhor EMPREGO.
        -Proponho dividir isso em três grupos.
        1º- Emprego
        2º- Trabalho
        3º- Inúteis

        Ao 1º- Indivíduos que não produzem nada. Caracteriza-se essencialmente por atividade de foro burocratico.
        Ao 2º- indivíduos que pela actividade produzem e com efeito geram riqueza.
        Aos 3º- Todos aqueles que não tem emprego nem trabalho, cujo a vida é suportada pelo estado social.
        O que este governo faz pelo emprego é consequencia da falta de receita por parte do Estado, porque:
        O 1º- Demasiados
        O 2º- Poucos e cada vez menos.
        O 3º- Muitos e cada vez mais.
        Não é preciso ser um génio para ver que isto não é só um problema dos governos, é um problema dos portugueses. Os governos sabem disso.

        –

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