Jasper Johns, “Three Flags”, 1959
Brent Godfrey, “Flag”, 2008
Antes de morrer, Christopher Hitchens, o irredutível, forçou uma saída em grande e fez correr, não sangue mas fel. O alvo? Um velho de 84 anos, rico, impotente, pose de patrício: às vezes Calígula outras César Augusto, destituído de qualquer gota de amor, supinamente inteligente, absolutamente laureado – Gore Vidal.
Fosse anos antes teria sido um duelo de titãs, mas em 2010 foi uma refrega de moribundos, repleta de ressentimentos recíprocos. Ambos representavam, sabiam-no, a morte de uma esquerda intranquila e insaciável, que perdeu muito, sem descobrir muito bem o que ganhou. Uma esquerda com dúvidas e céptica, oposta à tradição e aos seus comodismos, com que cerceia a plena liberdade individual. Não era aquela esquerda que já sabe tudo antes de acontecer, a que ganha sempre em qualquer circunstância, para a qual 300 passos trás vão ser um dia 600 para a frente, já foi cientificamente escrito e a História, esse unicórnio, o provará.
No final de 2009, Vidal dá uma amaríssima entrevista ao “The Independent”, quase macabra, tanto que chegou a ser comentada a decência do jornalista, por ter exacerbado e explorado os rancores de um ancião.
É crível que por esta altura já Vidal tinha concluído que na novela o seu vulto não alcançaria o dos seus arqui-inimigos Truman Capote e Norman Mailler (que in illo tempore lhe atirara um copo à cara e lhe dera uma cabeçada), que também se odiavam reciprocamente. E como ensaísta batia-lhe a sombra de Tom Wolfe – detestavam-se, claro. Não obstante, a coletânea de artigos “United Sates”, um título que deve ser lido literal e conotativamente, prevalecerá como uma peça suprema do ensaísmo americano, ou seja, do século.
Ao longo da entrevista Gore Vidal profere brutalidades tais como:
Acerca da sua mãe: “she told me that rage made her orgasmic. I didn’t think to ask if sex did the same.” Pergunta-lhe então o jornalista: “Mas ao fim de todos estes anos não sente alguma compaixão por ela? Não.”
Sobre Timothy McVeigh: “He was a noble boy.” Matou inocentes? “So did Patton, so did Eisenhower!”
Sobre os Kennedy: “Who cares what they were like as people? That’s just show business.”
Sobre si próprio: “To me hell is the United States of today.”
Na “Vanity Fair” Hitchens replica com um artigo intitulado “Vidal Loco”, ele que tinha sido o herdeiro designado de Vidal e já começava a ter indícios de sofrer de cancro. Do ex-mestre diz que profere: “more crass notions of Michael Moore or Oliver Stone being expressed in language that falls some distance short of the Wildean ideal.” Terminando de uma forma dramática: “I have no wish to commit literary patricide, or to assassinate Vidal’s character—a character which appears, in any case, to have committed suicide.”
Valerá a pena ler estas peças, e assistir aos derradeiros fulgores de duas mentes brilhantes já fatigadas pela desilusão. Hitchens morreu em Dezembro passado, Vidal anteontem.



Um fulano desinteressante e bastante banal.
Bom.