Sem mancha


lauraramos,

Na prática, eu era uma miúda e ele não era político que me arrebatasse, como veio a acontecer com  Francisco Sá Carneiro, primeiro pela aversão, depois pela afinidade.
Mas Eurico de Melo também não estava lá para isso…
Guardo dele uma imagem de serenidade e de sageza, a que a encantadora pronúnica do Norte parecia acrescentar uma autenticidade vinda das profundezas da nacionalidade, assente nos séculos de exemplo tutelar dos nossos maiores.
Um homem impoluto e desinteressado, como ainda há muitos. Mas que viveu a política no tempo em que os grandes não fugiam do forum e davam a cara pela civitas, intrépidos e emplogados pela construção da democracia.
Claro que é redundante dizê-lo, mas faz-nos falta.
Era um homem sem mancha.

22 comentários em “Sem mancha”

    1. Não me diga, vice-rei, que também tem as propriedades do papel absorvente. -Come tudo? -Fast food, fast news?
      -Sabe? Não basta que nos indignemos com a falta de probidade dos outros. É preciso, para mantermos o ‘norte’, que a nossa própria probidade (se é que a temos e não for fachada), nos inspire nessa operação cognitiva sobre os outros. E inspira…
      Esse atributo dá jeito, sabe? Para percebermos onde começa o imaginário e acaba a realidade. Ou onde somos papados pela imprensa de subúrbio e cabeleireiro.

    2. Vice-rei: promovo-o a rei. Rei do lixo. Foi exactamente para onde foi o seu comentário, ordinário, grotesco e cabotino. Custa-me muito bloquear uma intervenção, mas, na verdade, haverá sempre quem não saiba discutir sem grosseria e eu não dialogo com gente assim. Afinal, para tal é preciso ter hábitos de urbanidade. Tenh dó e lamento que seja destituído dessa cultura básica.

    1. Assino por baixo.
      Suponho (não: verdadeiramente sei por experiência) que os funerais são uma espécie de festas de S. João… Desce sobre os compungidos convivas uma espécie de ordem de restrição geral de ódios sobre qualquer espécie de intrusos. E, contudo, era muito melhor que todos falassem… mal ou bem… porque acredito que o “elogio” sobressairia dos antagonismos.
      Esse homem de que fala deveria ter ficado quietinho em Cabo Verde. Que lata.

  1. Consta que um dia perdeu uma pasta com fotografias. E que ela foi parar às mãos de alguém em “O Independente”. E depois, discretamente, foi saindo do palco da política. E “O Independente” foi ganhando muitas informações sobre o cavaquismo e os cavaquistas.
    Talvez o Pedro Correia possa contar mais pormenores…

    1. Leitor, é espantoso o poder catalisador do “consta” sobre a mente do povo português. – Consta e acredita-se? Não exigimos mais nada? Por isso a política vai contando com cada vez menos gente de bem: é esta a causa e o resultado.

  2. não sei se morreu sem mancha….aliás desapareceu de cena quando vieram a lume rumores de pedofilia….
    mais uma vez a justiça nada provou…mas que ele desapareceu no enfiamento da jogada, lá isso desapareceu.

    1. Vasco, acredite no que quiser. Por mim, essa táctica de fazer alastrar o anátema sobre tudo e todos é tão básica que me confrange como não se percebe que é uma pura estratégia de camuflagem do criminoso. O efeito da contaminação desvaloriza o delito, encobre o culpado e o resto é uma festa do tipo – “Onde está Wally”?
      Fácil, fácil. E entretanto, trituram-se pessoas honradas. Um nojo.

  3. Ainda está por “nascer” o Homem que porra em Paz!

    Vasco… quando teu corpo der à terra… direi:

    — Mais um cretino que se foi… Amen

    1. Gostei, Quim.
      Ninguém reconhece aquilo que não conhece.
      De facto, é preciso que quem julga esteja à altura daquilo que vê e experimenta.
      Questão de estatuto (moral e cívico).

    1. Nem tanto, singularis… Ou só os ‘maus’ é que contam e só deles é que reza a História?! Não deixo de pensar que tanta exigência é demolidora para a democracia. E talvez um bocadinho postiça.

  4. Num país que tem “Os Maias” como peça fundamental da sua sociologia, nunca ninguém questionou a personalidade de Afonso da Maia, homem de altos e firmes princípios morais. Eça, tímidamente, falou para logo se calar.

    1. 🙂
      Xico, acha que Eça se calou? Não acho nada 🙂
      Acho, sim, que em Portugal tendemos a fixar-nos na caricatura social e a tomar a parte pelo todo. Era bom que o nosso espírito crítico fosse verdadeiro, conseguisse ir mais fundo e não confundisse ingenuidade com generalização fácil. Mas a sentença de café é connosco… (afinal, outra faceta o chico-espertismo).
      Assim à moda simples do cura de aldeia.

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