Uma bandeira à janela


Rui Rocha,

Vivemos tempos de indignidade. A governação de José Sócrates precipitou o país para a Bancarrota e corrompeu a indispensável ligação de confiança entre eleitores e eleitos. Os portugueses despertam de um estado de transe colectivo induzido por um hipnotizador sem qualidades. E abrem a boca de espanto perante a sucessão dos episódios da vergonha protagonizados pelos diversos actores do espaço político. Com o país atolado no pântano, aparece sempre quem assegure que a saída é uma luta de lama. Marinho Pinto, por exemplo, propõe que os portugueses suspendam a democracia no próprio dia das eleições. Não tarda, virá por aí um aspirante a caudilho. É preciso afirmar a esta gente que essas são as soluções erradas para uma situação errada. Aquilo de que precisamos não é de menos democracia, mas de mais democracia. De uma democracia que evolua da ideia de que toda a irresponsabilidade é permitida para a consciência de que toda a responsabilidade pode e deve ser exigida. A resposta à crise não pode ser mais ausência e demissão dos cidadãos. Pelo contrário, é fundamental reforçar a participação. Desde logo, nas eleições. Mas, também antes e depois delas. Porque só isso permitirá dizer “Sócrates nunca mais” e deixar bem claro aos que lhe sucederem que também nunca mais poderemos aceitar outros que, com nomes diferentes, se comportem como ele. Importa por isso afirmar que este é o nosso país e que não desistimos dele. E que não toleraremos no futuro aqueles que dele se queiram apropriar pela incompetência, pelo egoísmo ou pela auto-suficiência. Que dos políticos exigimos nada menos do que seriedade, respeito e sentido de Estado. E que como cidadãos estamos dispostos a fazer a nossa parte. Já vi este país cheio de bandeiras à janela quando se jogava a banalidade de um jogo de futebol. Creio que agora que se joga a sobrevivência colectiva essa seria a melhor forma de manifestar a nossa repulsa pelo espectáculo degradante a que temos assistido e de reafirmar o nosso compromisso com o futuro de Portugal.

Vitorino (e outros) a torcer o pepino


Rui Rocha,

Este artigo de Manuel Maria Carrilho é demolidor. Mas, o que diz não é novo nem original. Relativamente às posições de Carrilho poderá sempre lançar-se a dúvida sobre os reais motivos que justificam a sua divergência. O certo é que o que Carrilho diz sobre o recente Congresso do PS, muitos outros disseram, nos últimos dias, por outras palavras. Trago-o aqui, sobretudo, porque um parágrafo do texto me parece uma excelente legenda para algumas imagens que é importante registar para memória futura. E também para entendimento do presente. Não chegámos aqui por acaso.

 

O parágrafo é este:

“Como na história ficará também a indigência intelectual e o perfil ético de tantos “senadores” do PS que subiram ao palco para – com completo conhecimento de causa sobre o gravíssimo estado do País – acenar cinicamente aos militantes e aos Portugueses, por puro e interessado calculismo político”.

As imagens são estas:

 

 

 

Reflexões pré-eleitorais (5)


Rui Rocha,

O Governo de Sócrates não se ficou por conduzir o país à bancarrota. No momento em que ministros de um Governo eleito democraticamente, em conluio ou por decisão unilateral de um deles, violam as leis em vigor, adoptando uma conduta que pode consubstanciar a prática de um crime de abuso fiscal, a insolvência não diz respeito apenas à inexistência de disponibilidades financeiras. Na verdade, estamos a falar de uma falência do próprio Estado de Direito. Não foram só as importâncias retidas na fonte aos polícias que não foram entregues ao Ministério das Finanças. Foi a própria fonte da ética e do fundamento democrático que secou.

Carta aberta ao Presidente do PSD


Rui Rocha,

 

Exmo. Dr. Passos Coelho,

 

Dirijo-me a Vª. Exa. em estado de necessidade. Como compreenderá, é-me absolutamente impossível votar em José Sócrates nas próximas eleições. Mais do que isso, tenciono entreter boa parte dos próximos dois meses a malhar no dito cujo. Embora Vª. Exa. não me tenha perguntado, sempre lhe direi que me apoquenta uma febre dos fenos crónica que me obriga a permanecer boa parte da estação primaveril apartado de pólenes e gramíneas. Enclausurado como estarei, restar-me-á duplicar a produção diária de posts que actualmente se há-de cifrar, em média, em 3,27. Ou coisa que o valha. E, estimo, aqui e agora, com convicção mas sem a infalibilidade de um Teixeira dos Santos ou, é dizer o mesmo, de um Sinel de Cordes, que cerca de 99,34% dessa produção há-de ser ocupada por crítica acirrada ao ainda Primeiro-Ministro. Assim sendo, e apesar de tudo quanto Vª Exa. tem feito para me desiludir, confesso que é ainda minha intenção, tão firme quanto possam ser as convicções de Vª. Exa., votar no partido que dirige e que tem a particularidade de se diferenciar do PS pela aposição à sigla, afortunada e inspiradoramente, de um D que, sendo de “Democrata”,  bem gostaria que fosse também de “Sério”, “Responsável” e “Politicamente Maduro”. Isto dito, perceberá Vª. Exa. que votar no actual PSD envolve alguma violência. De momento, esta poderá ainda ser justificada pela invocação de legítima defesa face ao ataque selvagem levado a cabo pelo PS nos últimos anos. Todavia, é importante que compreenda que um eleitor comum, como é o meu caso, ainda por cima diminuído por estas alturas por espirros, irritação ocular e corrimento nasal, não é obrigado a estar disponível para abandonar a assembleia de voto todo partido. Certo de que ainda está em tempo de tomar boa nota deste meu lancinante apelo, não me despeço sem lhe enviar o objecto ali mais acima. Impedido como estou de cortar relvas e outra vegetação rasteira nos próximos tempos, estou em crer que será para si da maior utilidade.

Oh Zé,


Rui Rocha,

 

Vê lá se ficas melhor cozido:

«O ponto a que chegámos está a afectar a imagem do país, das empresas e a credibilidade do país cá fora. Portugal está a ser visto como um país de terceiro mundo. Como portuguesa, estou preocupada».

 

Para Estela Barbot, já não havia outra solução senão pedir ajuda externa e reconhece que Portugal vai estagnar ou ficar em recessão por «muito tempo», graças aos juros que teremos que pagar pelo resgate. «Mas isso é culpa do Governo de José Sócrates. Gastámos o que não tínhamos e vamos pagar esse preço».

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Frito:

Estou convencido que aquilo a que assistimos nos últimos dias é uma verdadeira operação militar e um crime contra a pátria (mais um). Como sabem há muito que ando nos mercados (quantos dos analistas que dizem disparates nas TVs alguma vez estiveram nos ditos mercados?) e acompanho com especial preocupação (o meu Pai diria obsessão) a situação portuguesa há vários anos. Algumas verdades inconvenientes não batem certo com a “narrativa” socialista há muito preparada e agora posta em marcha pela comunicação social como uma verdadeira operação de PsyOps, montada pelo círculo íntimo do bandido e executada pelos jornalistas e comentadores “amigos” e dependentes das prebendas do poder (quase todos infelizmente, dado o estado do “jornalismo” que temos).

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Ou estufado:

 Teixeira dos Santos admite que Portugal só tem financiamento até Junho.

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Reflexões pré-eleitorais (4)


Rui Rocha,

Imagem de capa da revista

 

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que está a contemplar fixamente. Os seus olhos estão arregalados, a sua boca aberta, as suas asas preparadas para voar. Esta podia ser a representação do Anjo da História. O seu rosto está virado para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína a seus pés. O Anjo gostaria de acordar os mortos e reconstruir os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-lhe as asas com tanta força que ele não consegue fechá-las. Essa tempestade impele-o irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce em direcção ao céu (…)”.

 

Walter Benjamin, “Theses on the Philosophy of History” (tradução livre).

Reflexões pré-eleitorais (2)


Rui Rocha,

Não sou um entusiasta de Fernando Nobre. Não votei nele nas presidenciais. Não me agradou o tipo de  campanha que fez. Creio mesmo que teve momentos bastante infelizes. Sou sensível à maior parte dos argumentos que têm sido utilizados para criticar a sua escolha como cabeça-de-lista do PSD em Lisboa. Parecem-me viáveis quer as críticas que se fazem à instabilidade política de Nobre quer as que, na óptica dos interesses do PSD, defendem a existência de outras alternativas ou salientam que a  opção não trará grandes benefícios eleitorais. Entretanto, tendo em conta a dimensão das reacções que já se produziram, creio que é oportuno sublinhar os seguintes pontos:

  • a opinião pública e os meios de comunicação social não têm para outros actores políticos a mesma tolerância que demonstraram para José Sócrates. Ainda bem que assim é. A bem dos interesses do país, o PSD deve perceber que existe uma diferença profunda entre alternativa e alterne. Esperemos, entretanto, que o grau de exigência seja aplicado em todas as direcções;

  • não vejo que Nobre seja mais incompatível com o PSD do que Alegre com o PS. Bem pelo contrário, tendo em conta a sucessão de posições antagónicas com os interesses do partido que Alegre protagonizou no passado recente;

  • José Sócrates foi aclamado pelo Congresso do PS quando afirmou que são os socialistas que escolhem o Secretário-Geral do partido. É preciso muita lata para certos dirigentes do PS virem agora criticar a escolha de Fernando Nobre pelo PSD. Não incluo na crítica, naturalmente, todos os que, sem vínculo ao aparelho socialista, se pronunciam com total legitimidade sobre a situação;

  • o ruído que o caso gerou é desproporcionado face à sua real importância. O esforço do país deveria ser investido na discussão da responsabilidade pela actual situação e na avaliação das propostas políticas para a superar. Nobre não foi parte do Governo anterior, nem será Ministro do próximo. A análise do valor intínseco dos diversos cabeças-de-lista dos vários partidos constituiria um exercício penoso em que Nobre não seria o pior colocado. O exercício da função de Presidente da Assembleia da República, se vier a concretizar-se, não parece escandaloso se tivermos em conta que foi o 3º candidato mais votado na eleição presidencial. Outros já a exerceram sem que alguma vez se tenham submetido a sufrágio directo.

Bem vistas as coisas…


Rui Rocha,

Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.

Outro é o português que o não é. Começou com a invasão mental estrangeira, que data, com verdade possível, do tempo do Marquês de Pombal. Esta invasão agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a República. Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido.

Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas, criou a civilização transoceânica moderna, e depois foi-se embora. Foi-se embora em Alcácer Quibir, mas deixou alguns parentes, que têm estado sempre, e continuam estando, à espera dele (…).

 

Fernando Pessoa

Ilusões, alucinações e o Congresso do PS (Partido de Sócrates)


Rui Rocha,

O Congresso do PS (Partido de Sócrates) não pode ser entendido sem que se enuncie uma distinção entre os conceitos próximos, mas não coincidentes, de ilusão e de alucinação. A ilusão não vive sem a realidade. Constrói-se a partir dela, transformando-a e deformando-a. A alucinação é uma percepção sem objecto. Vive por si, sem qualquer dependência da realidade. Sócrates já foi um vendedor de ilusões. E os resultados eleitorais demonstram que teve um certo talento nesse ramo de actividade. O problema de Sócrates é que tem tanto mérito na venda de ilusões como demérito na actividade de pagador de promessas. E isso é fatal no ramo das ilusões. Recorde-se: estas não sobrevivem na ausência de um nadinha de realidade. A reserva de realidade nas ilusões vendidas por Sócrates esgotou-se. Por isso, Sócrates decidiu mudar de ramo. Agora, está no negócio das alucinações. A moção global de Sócrates aprovada no Congresso de Matosinhos com mais de 97% dos votos é um bom exemplo. Dei-me ao trabalho de a ler de fio a pavio (pode obter-se aqui). O que impressiona é a total ausência de realidade. É uma moção de apoio ao programa de um governo, que define uma estratégia de defesa face à crise da dívida soberana e que salienta a importância da estabilidade política. Entretanto, o governo já caiu, foi formalizado o pedido de ajuda externa e foram convocadas eleições. E isto leva-nos a um aspecto fundamental. As ilusões vendem-se a quem procura a esperança. As alucinações são impingidas a quem se encontra numa situação de delírio. A esperança é o estado natural do ser humano. O delírio é a consequência de uma situação patológica. O Congresso dos Amigos de Sócrates revela um partido doente. As próximas eleições permitirão, antes de mais, avaliar o estado de saúde do país.

Sócrates, um Homem de Estrado


Rui Rocha,

Oitenta mil milhões de razões para comemorar. Este é o sinal exterior de pobreza que justifica a entusiástica celebração do líder que decorre por estes dias em Matosinhos. José Sócrates, o andor, é carregado em delírio por Almeida Santos, António Costa, Manuel Alegre e António Vitorino. Não há peso que os vergue. Não há bico de papagaio que os tolha. Não há joanete que os faça suster a marcha. Esta é a hora de dobrar a espinha pelo querido líder. Este é o momento certo para celebrar os 150.000 desempregos, as medidas em matéria de abandono de família, as taxas demolidoras da saúde, as parcerias impúdico-privadas e as empresas públicas falidas. Brindemos então, camaradas. A tudo isso e à dívida pública descontrolada, à bancarrota e ao FMI. E sobretudo, que não falte a voz para gritar loas e panegíricos ao Secretário-Geral. Na falta de estatura política, celebre-se José Sócrates, esse fantástico Homem de Estrado. Na indiferença pelo interesse do país, que permaneçam ainda o palco, a ribalta e o sentido de estrado. Na falência do Estado Social que não falte estrado social que vos sustente todos os desmandos. À vossa, e que vos faça bom proveito, com a certeza de que em Matosinhos se festeja um período histórico absolutamente desastrado.