
Obama way
Rui Rocha,

Local de trabalho: Abrantes;
Vagas: 80;
Habilitações: ao nível das novas oportunidades (eliminatório);
Outros requisitos: boa capacidade de argumentação, capacidade de adoptar diferentes timbres de voz e pronúncias (eliminatório), excelente dicção das palavras e expressões engenheiro, estado social, serviço nacional de saúde, irresponsabilidade da oposição e tenho saudades do PEC IV (a capacidade de soluçar e de adoptar um tom de voz compungido enquanto se pronunciam estas últimas será valorizada);
Horário: part-time, das 10h00 às 12h00, nos dias úteis;
Contrato: a termo certo, com fundamento em acréscimo excepcional de actividade;
Início: imediato;
Termo: 3 de Junho de 2011;
Principais responsabilidades dos candidatos: participar, sob anonimato, no Fórum da TSF com o objectivo de promover, sem se rirem e de acordo com guião previamente definido, as qualidades e a obra do querido líder; adicionalmente, poderá ser solicitada a participação em sondagens da Marktest e em caixas de comentários de jornais, blogues e similares;
Contacto para candidatura: 9,1%=6,8%-80.000.000€, em horário de expediente;
Código para candidatura: o Teixeira dos Santos é um amigo para a vida;
Gestores do processo de recrutamento: Miguel Abrantes ou João Magalhães.
Antes de mais, devo dizer, eu que sou Rocha, que acho alguma piada a que um tipo chamado Capoulas e que tem ambos os apelidos no plural ache calunioso seja lá o que for. Isto dito, sou obrigado a dar-lhe alguma razão no que diz respeito às afirmações proferidas por Eduardo Catroga (quanto a apelidos estamos conversados). Não que Catroga erre o alvo quanto ao fartar vilanagem e à responsabilidade de Sócrates em tal enfartamento. Nesses pontos, acerta na mosca. Que, como sabemos, tem sido a mesma nos últimos 6 anos, estando a diferença, apenas, no acumular de matéria em decomposição. O ponto é que não vejo qualquer razão para deixar o julgamento de Sócrates (confirma-se, a história é cíclica e repete-se como farsa) para as gerações mais jovens. Creio que se trata de um afloramento dessa tendência tão presente nas sociedades actuais de valorizar excessivamente a juventude. Vejamos, os jovens já têm muitas coisas estimulantes a que podem dedicar a atenção. Lembro-me, assim de repente, e parafraseando o nosso Primeiro-Ministro, «da lei mais justa na interrupção voluntária da gravidez», «da lei da paridade, para que mais mulheres tenham acesso à vida política», da «iniciativa legislativa no campo do divórcio litigioso» ou «da lei que permite em Portugal o casamento entre pessoas do mesmo sexo». Aliás, com tanto para fazer, ainda bem que lhes sobra tempo, não é? Ora, voltando à vaca fria, acho que esta coisa de participar na responsabilização judicial de Sócrates, a avançar, não deveria ter natureza fracturante. Pelo contrário, deveria ser aberta a toda a sociedade. É um acto cívico, que diabo. Exige-se participação e inclusão. E não vejo qualquer razão para excluir o Manoel de Oliveira. Existe, todavia, outro aspecto da proposta de Catroga que me preocupa. As responsabilidades de Sócrates têm a dimensão da sua incompetência, arrogância, teimosia e imprevidência. Não há, por isso, palavras que as contenham (com o duplo sentido de incluir e deter). Mas, temo que sujeitar Sócrates à justiça portuguesa constitua uma punição demasiado pesada. Para nós, cidadãos. Passar a próxima década em adiamentos, julgamentos anulados, repetições de diligências e outras moléstias para chegar ao fim com uma prescrição qualquer, por incúria do Ministério Público, não me parece grande cenário. Mal por mal, é melhor resolver a coisa por via de julgamento eleitoral. É certo que os menores de 18 anos não poderão participar (podem aproveitar o dia para lerem a lei da paridade, sei lá…). Mas, este é um caso em que não devemos deixar para os jovens de amanhã aquilo que podemos fazer em 5 de Junho.

O Senhor Primeiro-Ministro está demissionário, mas mantém-se igual a si próprio. Ou, melhor dito, varia conforme a sua semelhança. Em essência, é incompetente e irresponsável e especializou-se em manipular, ocultar, omitir e negar a realidade. Sendo estas características permanentes, a intensidade com que as pratica aumenta em função da vontade que vai detectando nos que o rodeiam para lhe aparar o jogo. O facto de ter um partido submisso e aparentemente entusiástico dá-lhe forças renovadas. Sondagens que não o colocam ao nível rasteiro onde ele sabe que devia estar dão asas às suas piores qualidades. Só este contexto em que, aparentemente, tudo lhe foi e é permitido, sem qualquer responsabilização, justifica o topete de apresentar um programa eleitoral que assenta em falsidades e em mistificações. Tudo isto é tanto mais grave quanto é certo que este é o ainda líder do governo. E que, nessa qualidade, está a negociar condições da ajuda externa que, como o próprio reconhece, serão completamente diferentes daquelas que constam do programa eleitoral e que foram decalcadas do PEC IV. Ora, perante tamanha desfaçatez e a aparente indiferença e permissividade de um grupo significativo de portugueses, importa deixar claro a José Sócrates que nem todos, apesar de tudo, estamos disponíveis para dar cobertura às suas trampolinices. Aqui fica o registo de algumas vozes que ajudam a perceber onde estão as aventuras políticas e os tiros no escuro a que Sócrates se refere:
Estela Barbot (FMI)
“É crucial que os decisores de política e os gestores públicos prestem contas e sejam responsabilizados pela utilização que fazem dos recursos postos à sua disposição pelos contribuintes”.
Carlos Costa (Governador do Banco de Portugal)
“Teixeira dos Santos é meu amigo e do PS e conto com ele para a vida.”
José Sócrates, hoje, em entrevista à TVI.
O Lello tem um gosto requintado. O Lello nunca anda despenteado. O Lello ama o bello. O teatro, a pintura e a esculltura, tudo isso o Lello aprecia. O Lello já comprou uma serigrafia. O Lello é um artista mas, por modesto, recusa ser sullista. O Lello ouve música erudita. O Lello faz parte da cllientella restrita. Nas inaugurações é o Lello que corta a fita. Na lliteratura, o Lello seria um cllássico. O Lello tem de Pessoa o tripllo do perímetro torácico. O Lello compra livros que nunca saíram do prello. Se fosse um instrumento, o Lello seria um violloncello. E o arco um martello. Quando pragueja, o Lello verseja. A palavra é folleira? O Lello adorna. A situação está feia? O Lello contorna. E um trambolhão transforma-se em anomallia. O Lello converte acidentes em tecnollogia. Uma só frase do Lello é um tratado de fillosofia. A casa do Lello devia ser um castello. O Lello não respira, opõe-se à apneia. O Lello não come, saboreia. O Lello não grita, canta. O Lello não escorropicha, decanta. O Lello não emborca, desfruta. Se fosse uma fruta, o Lello seria um marmello. Muito amarello, o Lello. Dita por Lello, uma acusação fica mais fina e chama-se llibello. O Lello vê para llá do que a vista allcança. Quando era Secretário de Estado das Comunidades o Lello até foi a França. O Lello nunca descansa, repousa. O Lello apoia o Engenheiro Pinto de Sousa. O pé do Lello nunca sai do chinello. O Llello come pão com gelleia. Ao allmoço, ao jantar e à ceia. O Lello não desafina, trauteia. O Lello não duvida, titubeia. Quando anuncia, o Lello proclama. O Lello veste robe de chambre quando anda em pijama. O Lello descansa numa chaise llongue quando se llevanta da cama. É assim o Lello e, como se vê, não tem parallello.
Ferro Rodrigues está de regresso. E ao que parece, em grande forma. A entrevista que ontem deu à RTP1 teve mesmo alguns momentos geniais. Político sagaz, Ferro entende que deve ser celebrado um acordo pós-eleitoral para permitir uma maioria forte no parlamento. Todavia, a original proposta não se fica por aqui. A análise da complexa situação política actual obriga-nos a ir mais longe. E Ferro ajuda-nos: “o acordo não se pode fazer à esquerda do PS”. E Ferro também nos explica o motivo: “os partidos de extrema-esquerda mais não fizeram do que colaborar com a direita em relação à queda do governo”. Ora, diz o leitor atento, se os que estão à esquerda do PS não podem fazer parte do acordo por apoiarem os da direita, por maioria de razão estes últimos também não o podem fazer. E diz bem. O que, adentrando as profundezas do pensamento de Ferro (não tema leitor, vai ver que não dói nada), nos levará a concluir por uma de duas. Ou pretende um acordo alargado do PS consigo próprio, por exclusão de todos os demais partidos nos termos do critério enunciado, ou tem em vista uma plataforma de governação da qual exclui antecipadamente o PS. Aqui chegados, concordará o leitor que, face ao brilhantismo do raciocínio de que Ferro sempre deu mostras, a primeira hipótese deve ser excluída por ser uma acabada idiotice. Resta-nos assim a segunda, conclusão a que devemos chegar já com o chapéu na mão para saudar a fantástica visão política e, porque não dizê-lo, a honestidade de Ferro. Ciente de que o PS não merece continuar a governar, não hesita em afirmá-lo, apesar de ser o cabeça-de-lista do partido por Lisboa. O Futre que me desculpe, mas esta é verdadeiramente a cueca do século. E Sócrates deve ter ficado com os olhos em bico e os pés trocados. Exemplos de cidadania deste calibre, reconheça-se e lamente-se, há poucos na pobre democracia portuguesa. Mas, se virmos bem, outra coisa não seria de esperar de quem afirmou, na mesma entrevista, que o importante é “olhar para o futuro que aí vem”. Uma boa sugestão para mim e para si, leitor, que passámos a vida a olhar para o futuro que já veio. E que não volta mais.

Assim, não há paciência que aguente. As regras estão sempre a mudar. Já não bastava serem alteradas depois do jogo. Agora, os critérios são modificados enquanto a malta está a gozar a toleranciazinha de ponto e o fim-de-semanazinho prolongado. Bom, bom era no tempo do Constâncio. E razão tinha o Sócrates que não queria pedir ajuda externa. E o Silva Pereira que criticou os que duvidavam da transparência das contas públicas. Uma cambada, é o que é. Veja-se que a troika só está cá há duas semanas e o défice de 2010 já vai em 9,1%. Imaginem só onde isto irá parar se os tipos decidirem cá ficar muito tempo. Um escândalo, esta mania do rigor.
Em 2011, o cabelo com rédea curta continuará na moda. Cortes assimétricos e rebeldes serão colocados de parte, mantendo-se os fios rectos e previsíveis como forte tendência. Os contornos são trabalhados de forma a realçar os reflexos, a profundidade e a textura do líder. Se optar por usar franja, esta deve apresentar-se desgastada. Em geral, o look deve ser prático e jovial, mas sem demonstrar qualquer atitude de contestação. Percebeste agora, Fernando?
A entrevista de Mário Soares hoje publicada no i constitui uma intervenção política de profundo significado. É certo que Mário Soares não rompe deliberadamente nenhuma das amarras que o liga ao seu percurso de histórico socialista. A prová-lo aí temos um desejo de uma vitória socialista nas próximas eleições e uma leitura sobre as consequências do chumbo do PEC 4 contraditória com aquilo que ele próprio escreveu, ainda a quente, logo que foi desencadeada a crise. Na altura, recorde-se, Soares atribuiu a responsabilidade a Sócrates, falando de um erro que este iria pagar caro. Todavia, a chave de leitura da entrevista está na afirmação de que “Passos Coelho é uma pessoa bem-intencionada com quem se pode falar”. A mensagem fundamental de Soares é a necessidade de entendimento alargado como única forma de superar a actual crise. Ao longo da entrevista, são recorrentes os elogios a Mota Pinto (a preparação académica, a atitude, o sentido de estado) com o claro propósito de oferecer ao país e aos políticos o exemplo da relação de confiança que o próprio Soares e o antigo líder do PSD estabeleceram. Soares não quis, embora pudesse, dizer mais. Mas, também não é preciso. Se o país tem necessidade urgente de entendimento, se Passos Coelho tem as características que Soares lhe atribui e se sobre Sócrates não é dita uma única palavra nesse sentido, não é difícil perceber quem é, na avaliação de Mário Soares, o responsável pelo bloqueio. Depois das palavras de Freitas do Amaral, mais cruas e directas, a crítica implícita na entrevista de Mário Soares tem José Sócrates como destinatário evidente.

Num país da Península Ibérica de cujo nome não me quero lembrar, embora me recorde que não se chama Espanha, governou até estes tempos um executivo liderado por um cavalheiro com pretensões de fidalgo que perdeu a razão por ter lido demasiados livros de engenharia. Esta se entendendo não só como a que diz respeito à construção de moradias, mas também de estradas, aeroportos e ferrovias. E, antes de tudo, daquela de que se diz ser financeira. Embrenhado em tais epopeias, que outros afirmarão ser cavalarias, tomou-se o pobre homem de febres e sezões, perdendo-se do fio da realidade. De tal maneira que a história dos fracassos, pois que noutra não terá lugar, o há-de referir como Cavalheiro da Triste Figura ou, em edições menos tomadas pelo distanciamento que o decurso do tempo sempre encerra, Cavalheiro Farsante. Ao longo da sua gesta, reconheça-se que assaz indigesta para quantos tiverem que pagar os seus desmandos com suor e estopinhas, esteve sempre a seu lado um fiel escudeiro. Santos Pança, de sua graça e, diga-se em abono da verdade, da nossa desgraça. Ali onde o Cavalheiro Farsante vivia alucinação, Santos Pança lobrigava, não sem dificuldade, realidade. E, de tal forma a alucinação do Cavalheiro da Triste Figura se apartou da realidade que, certo dia, o próprio Santos Pança se viu impedido de prosseguir a farsa. O drama, caro e paciente leitor, é que o mal estava por essa altura consumado e, o mesmo é dizer, o país completamente consumido. Santos Pança, até esse último dia, trilhou com o seu amo o caminho dos moinhos imaginários. Diz o povo que mais culpado é o fraco do que o louco, e é bem provável que tenha razão pois que o louco é, por sua própria circunstância, irresponsável. Certo é, leitor, que nesta história nenhum deles merece a nossa compaixão.
O jargão político, que tem resposta para tudo e solução para quase nada, diz que uma sondagem vale o que vale. O mesmo é dizer que vale muito quando os resultados são favoráveis e bastante menos quando ficam aquém do esperado. Neste último caso, o procedimento mais comum é formular uma teoria que passa pela culpabilização de terceiros e que tem, pelo menos, três declinações possíveis. A primeira consiste em defender que as propostas são boas, mas os eleitores são fracos. A outra passa por invocar a falta da credibilidade da sondagem e os interesses que lhe estarão subjacentes. A terceira aponta o dedo aos inimigos, externos ou internos. Ora, imputar a responsabilidade a terceiros, sejam eles os eleitores ou os adversários políticos, pode ser da mais elementar justiça em face das circunstâncias. Mas, essas são as constantes da equação eleitoral. Inalteráveis, portanto. Daí que a atitude inteligente seja actuar sobre as variáveis. Isto é, identificar os erros cometidos e os possíveis pontos de melhoria. É isto mesmo que Passos Coelho deve fazer se quiser ganhar as próximas eleições. E o que as sondagens dizem, independentemente da sua credibilidade e de outros obstáculos e armadilhas, é que os eleitores não votarão em Nobre, em Relvas ou em Leite de Campos, por muito que isso custe ao ego dessas personagens. Resta por isso a Passos Coelho ir a jogo. Ele próprio, sozinho, com os seus defeitos e as suas limitações. Sem mediadores, de carne e osso, real como Massamá. Para lá das agências de comunicação, para cá do país. Ou se desgraça ou cai em graça. Esse é o risco. E o risco é a essência da política.
Por esta hora, em Braga, aguarda-se a grande decisão. Não se trata, por agora, de saber quem será o novo Primeiro-Ministro. Para isso, lá chegará o tempo, e atrás de dias, dias virão. Assim se mantenha o rendimento mínimo, que o resto, com a ajuda de Deus e a boa vontade de uma ou outra biscatada, sempre se arranjará. Pelo sim, pelo não, será melhor votar no Socas que com ele, honra seja feita, nunca faltou nada a quem soubesse meter os papéis. Em tudo isto vai pensando o Tone da Micas e, convenhamos, não é pouco. Pois é exactamente por esta capacidade de antecipar o futuro e determinar as acções em função dele que o Homem, seja ele o Tone da Micas ou a Rosa da Russa (que sendo mulher se inclui na categoria de homem se este se escrever com agá grande) se distinguem de outros seres da criação. Deus seja louvado. Os mais atentos saberão que o Tone tem andado aos tordos, ali para os lados de Frossos. Que, para quem não sabe, fica mais propriamente abaixo de Braga dois a três quilómetros. Longe vão os trabalhos de servente na construção civil. Entre chegar massa e ir buscar umas minis para enganar a sede, um gajo chegava à noite derreado. Abençoado, que a vida é agora mais leve. Não fosse o cabrão do Pinto da Costa… Enfim, que se lixe a bola que o programa para hoje é diferente. As horas hão-de passar e o ansiado momento acabará por chegar. Sairá ou não a procissão, eis a questão. Sairá se não chover. O ano passado não saiu. Ou foi no ano anterior. O tempo estava morrinhento e o Bispo não se quis molhar. Bem, se não saiu, nem tudo se perdeu. O Tone lembra-se bem de ter recebido os 25 euros que desde há uns anos são pagos aos farricocos e que a preços de hoje são mais que suficientes para despertar vocações. Queira Deus que saia. Um gajo tem direito aos seus momentos de fama. E os do Tone acontecem todos os anos na procissão do Ecce Homo. De reco-reco na mão, pés descalços, e encapuçado a preceito, os seus olhos hão-de fitar, em triunfo, a cidade vestida de roxo, as varandas com estandartes e cada um dos crentes que se acotovelam nas ruas da cidade velha. Tanto galego, carago. Pelo menos estes não hão-de deitar cigarros acesos para o chão, um teste à fé e à compustura dos farricocos muito apreciado por alguns locais. A Sameirinho e o Nel, que são respectivamente a consorte e o herdeiro do Tone, fica a saber o leitor mais desatento, esperarão para o ver passar ali mesmo defronte dos bombeiros. E o Tone, como acontece sempre que a procissão sai, recordará aquela tarde em que perguntou ao Nel quem matou Jesus. Filhos da Puta, pai. Esta juventude nova de agora… Entretanto, lá fora, o tempo está qualquer. Que se faça então a vontade de Deus, assim em Braga como no céu.
Todavia, o que me parece mais importante salientar é que mais que a lei, o que importa alterar é a atitude. Estou convencido de que mais de 90% da contratação a prazo é ilegal face às normas que já estão actualmente em vigor. Estranhamente, poucas são (proporcionalmente) as acções judiciais interpostas com tal fundamento. Ou seja, tal como em muitas outras áreas, o problema fundamental não está na lei ou na falta dela. O que é realmente necessário é que os portugueses conheçam os seus direitos. E que estejam interessados em exercê-los. Esse é um dos aspectos que caracteriza uma cidadania plena. O outro é a disponibilidade para aceitar as obrigações que a cidadania também impõe. E não há lei nem Autoridade das Condições de Trabalho que substitua a intervenção dos cidadãos na defesa dos seus direitos e no cumprimento das suas obrigações.
Manuel Alegre desceu ao povoado para acusar Passos Coelho de desrespeitar o Parlamento e as figuras do PSD com a escolha de Nobre. Ora, mesmo que se pudesse aceitar a razoabilidade intrínseca da crítica, parece-me importante salientar dois pontos relativamente a esta posição. Antes de mais, pela mesma lógica, deve reconhecer-se que a escolha de Sócrates pelo PS (e por Manuel Alegre) como candidato a próximo primeiro-ministro constitui um desrespeito bem mais grave pelo país e pelos eleitores. Depois, importa constatar que, apesar da gravidade implícita na decisão de reiterar a escolha do autor moral e material da governação que nos empurrou para o estado de Bancarrota em que nos encontramos, as figuras do PS não parecem estar nada incomodadas, dedicando-se, como faz Alegre, a criticar o que se passa em casa alheia. Este é pois um caso em que a galinha da vizinha é sempre pior do que a minha. E em que, na verdade, os evidentes telhados de vidro que Alegre tem em casa aconselhariam uma atitude de recatado silêncio.