Aventuras políticas e tiros no escuro


Rui Rocha,

O Senhor Primeiro-Ministro está demissionário, mas mantém-se igual a si próprio. Ou, melhor dito, varia conforme a sua semelhança. Em essência, é incompetente e irresponsável e especializou-se em manipular, ocultar, omitir e negar a realidade. Sendo estas características permanentes, a intensidade com que as pratica aumenta em função da vontade que vai detectando nos que o rodeiam para lhe aparar o jogo. O facto de ter um partido submisso e aparentemente entusiástico dá-lhe forças renovadas. Sondagens que não o colocam ao nível rasteiro onde ele sabe que devia estar dão asas às suas piores qualidades. Só este contexto em que, aparentemente, tudo lhe foi e é permitido, sem qualquer responsabilização, justifica o topete de apresentar um programa eleitoral que assenta em falsidades e em mistificações. Tudo isto é tanto mais grave quanto é certo que este é o ainda líder do governo. E que, nessa qualidade, está a negociar condições da ajuda externa que, como o próprio reconhece, serão completamente diferentes daquelas que constam do programa eleitoral e que foram decalcadas do PEC IV. Ora, perante tamanha desfaçatez e a aparente indiferença e permissividade de um grupo significativo de portugueses, importa deixar claro a José Sócrates que nem todos, apesar de tudo, estamos disponíveis para dar cobertura às suas trampolinices. Aqui fica o registo de algumas vozes que ajudam a perceber onde estão as aventuras políticas e os tiros no escuro a que Sócrates se refere:

“Quando me dizem que é com o Fundo Monetário Internacional que o Estado Social vai ser posto em causa – não. Foi agora que o Estado Social foi posto em causa, pelas pessoas que resolveram fazer estádios de futebol – dez quando chegavam oito – e tantas autoestradas”. (…) Os actuais defensores do Estado Social foram os maiores responsáveis pelos problemas estruturais do país. (…)Temos de perder as ilusões. Com certeza que os tempos que vêm aí vão ser violentos”.

Estela Barbot (FMI)

 

“O objectivo de atingir um saldo orçamental próximo do equilíbrio foi sistematicamente reiterado nos nossos diferentes Programas de Estabilidade e Crescimento mas foi sempre adiado para o final do horizonte do programa seguinte, isto é, não nos esquecemos da regra mas nunca a respeitamos ou aplicamos”.

 

Nos últimos 12 anos os Estados e os Governos à frente dos destinos do país não foram prudentes. Endividaram-se e não quiseram cumprir regras europeias, de manter o défice abaixo dos 3%, ou de simples bom senso.

 

“É crucial que os decisores de política e os gestores públicos prestem contas e sejam responsabilizados pela utilização que fazem dos recursos postos à sua disposição pelos contribuintes”.
Carlos Costa (Governador do Banco de Portugal)

10 comentários em “Aventuras políticas e tiros no escuro”

  1. Estava a ver que no DO não comentavam as palavras do actual Governador do BP, as quais considero serem as mais importantes proferidas desde há doze anos, por um responsáver português.
    A minha ignorância questiona-me: Onde andou e o que andou a fazer o sr. Vitor Constâncio este tempo todo?
    Se o déficit recomendado pela UE é 3%, porque é que o sr. Sócrates se vangloreia de ter conseguido SÓ 7,8, mais rigorosamente 9,1 %?
    Começo a perder a paciência. Dava mais depressa um tiro nesta cambada, que um pontapé num cão, coisa que não se deve fazer.

    1. Partilho das suas palavras e da sua indignação, Singularis. Só há uma solução. Um tiro democrático no dia das eleições, através do boletim de voto.

    1. As palavras de Estela Barbot são sensatas e adequadas à situação actual. Seriam sempre de muito mais valor do que as de um anónimo moreno que fala do fundo. Da caverna dos abrantes.

      1. Meu caro Rui,
        Acho que não percebeu o meu comentário.
        Ir tão fundo para nos explicar o FMI, aplicado a Estela Barbot, para – bem poderia ser Estrela Barbot – pretendia dizer que bastava alguém menos conhecedor, de fundo e do Fundo, para nos explicar a tão propalada gravidade da situação.
        O seu comentário revela, contudo, o pré-juízo de que os comentadores só aqui vêm “deitar abaixo” e falar mal. No entanto, compreendo-o, porque as prestações televisivas da referida Senhora não têm sido mais do que medíocres. Mas não duvido da sua competência do dos conhecimentos que ela tem do(s) Fundo(s): Monetário Internacional e do País.

      2. Ainda um acrescento à resposta ao comentário anterior:

        Quer ver outro pré-juízo seu, Rui?
        Quem lhe disse que eu, por ser Anónimo – “direito” que o Delito de Opinião me reconhece -, sou/vivo/vegeto/ na “caverna dos abrantes”?
        Que caverna é essa?
        Caverna, só frequento a de Platão.
        Quanto a Abrantes, fica muito longe de Trás-os-Montes, meu caro, e, embora nada tenha contra os de Abrantes, prefiro a máxima “Para cá do Marão, mandam os que cá estão”.
        Abraço,

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