Caminhar sobre as águas e outros milagres (1)


Rui Rocha,

Imagino-te, José Pinto de Sousa, envergando brancas vestes, costuradas pelo próprio Armani para a ocasião, arregaçadas até aos joelhos. Assim estarás, banhando os pés, liberados de unhas encravadas e calosidades por um técnico superior em podologia com curto mas profícuo percurso académico devidamente certificado pelas Novas Oportunidades, nas águas límpidas de um rio sagrado. Atrás de ti, uma oliveira milenar. Dela recolherás um único ramo que levantarás como bandeira com a mão direita, essa que usas para afagar o Estado Social, já manicurada por um técnico superior com curto mas profícuo percurso académico devidamente certificado pelas Novas Oportunidades. No teu braço esquerdo, esse que um técnico superior com curto mas profícuo percurso académico devidamente certificado pelas Novas Oportunidades está a tentar recuperar, pousará uma pomba branca. Os teus olhos brilharão. Queres a paz, queres dar-nos a tua paz. Olharás uns momentos para o rio e virão à tua memória as vozes do radicalismo ideológico. Todavia, também para esses desejas a paz, queres dar-lhes a tua paz. No rio correrão as Águas de Portugal. Caminharás sobre elas, mas não te molharás acima do joelho, posto que apenas até essa altura decidiste banhar-te, tal como noutros tempos decidiste aumentar o nível da dívida. Na tua mão esquerda, aquela que usas para acenar, na tua infinita benevolência, aos interesses da direita, segurarás uma sagrada escritura: o texto em que gravaste a tua palavra, esse repositório último da verdade, e que enviaste aos três cavaleiros do apocalipse. Ali te comprometeste a baixar a TSU de forma significativa, já em 2012, compensando as perdas de receita com alterações na estrutura dos impostos. Também este texto sagrado não se molhará, ainda que decidas submergi-lo na pureza das águas. (continua no próximo post)

Caminhar sobre as águas e outros milagres (2)


Rui Rocha,

(continuação)

Chegado à outra margem, os teus pés, como acontece há já mais de 6 anos, não tocarão o chão. Aproximar-se-á de ti teu súbdito Valter Lemos, às arrecuas e com o nariz apartado do solo não mais que três cêntímetros, dobrado em aparatosa vénia. Trago-te testemunhos, Mestre. Dize-me, meu encaracolado Valter, que testemunhos são esses, perguntarás, com a ternura e a comiseração que sempre dedicaste aos simples. Testemunhos de satisfação, Mestre, com a Vossa obra nas Novas Oportunidades. Ah, meu curvado Valter, tempos de espanto estes em que os milagres não duplicam os pães, antes fazem proliferar os diplomas que matam uma outra fome, porventura mais básica. Aproveitando que falais de fome, dirá Valter e a sua voz será trémula, aqui trago também as estatísticas do desemprego. Nada temas, meu genuflectido Valter, sussurrarás e a estas palavras o coração de Valter se acalmará, enquanto as próprias Águas de Portugal, por momentos revoltosas, voltarão ao leito, mansas e lentas na tarde calma. Desconhecendo qualquer método, como desconheces, meu atoleimado Valter, como posso pretender que compreendas as profundas implicações da sua alteração? Serão então, mais ou menos, cinco menos sete da tarde. Os teus pés, algo molhados posto que deliberaste banhar-te até ao joelho, começarão a afastar-se ainda mais do solo. Quereis, Mestre, que me descurve para vos segurar os pés, tal como fez Vosso servo, agora proscrito, Teixeira dos Santos, no fatídico dia em que escreveu ao Jornal de Negócios dizendo, com evidente premeditação, má-fé e desapego da realidade que precisáveis de ajuda externa? Comove-me o teu desvelo, responderás ao prostrado Valter, tanto como me surpreende a tua inusitada fluência e coordenação linguística, a qual só posso imputar à frequência do módulo de solução de sopas de letras no programa de Novas Oportunidades no qual, para teu exclusivo benefício, ordenei que te inscrevesses. Mantém-te todavia assim, dir-lhe-ás ainda antes de flutuares pelo espaço sideral até te sentares no teu trono, à direita do pai de Napoleão Bonaparte, pois que a curvatura é a condição que te convém a ti, ao aparelho e aos barões do PS e o meu governo já há muito que não é deste mundo.

Sócrates faltou ao respeito a 700.000 portugueses


Rui Rocha,

Os dados hoje divulgados pelo INE revelam um país a caminho do colapso social. O número é redondo e assustador. São 700.000 desempregados. Tudo isto se torna mais sinistro se considerarmos os milhares que já foram obrigados a emigrar ou se tivermos em conta que, nesses 700.000, existe um número significativo de pessoas que não chegaram a adquirir direito a apoio no desemprego ou que já o perderam. O drama assume proporções insuportáveis para alguns milhares de agregados familiares em que o demprego atingiu os dois elementos do casal. Há umas dezenas de anos, num Portugal que críamos e queremos longínquo, Baptista-Bastos escreveu uma crónica sobre uma família de Setúbal que entaipou as janelas para que os filhos não pudessem ver os bolos exibidos na montra da pastelaria que ficava do outro lado da rua. Pois bem, perante estes números, a fome volta a ser um dado da nossa realidade. O país tinha-se habituado aos comentários sobre as estatísticas de desemprego de Valter Lemos, na qualidade de Secretário de Estado de Qualquercoisa. Hoje, José Sócrates sentiu-se na obrigação de assumir pessoalmente o papel de papagaio. Para justificar o desastre, invocou a estafada situação internacional e, fundalmente, a alteração metodológica na recolha de dados. Como solução, apresentou as Novas Oportunidades. Ora, deixando de lado as percentagens e a sua evolução, o número oficial absoluto de 700.000 desempregados, esmagador como é, aí está. E a falta de resposta credível também. Ao esconder-se atrás do método, Sócrates associa à incompetência na governação uma tremenda falta de vergonha e de respeito por todos aqueles que sofrem na situação de desemprego. O malabarismo  estatístico torna-se um número insuportável quando é apresentado a uma plateia que já só pode trincar os ossos de meio frango.  Todos sabemos que o caminho de Sócrates jamais se cruzou com o percurso da realidade.  Perante atitudes como esta, percebemos também que esse mesmo caminho está, cada vez mais, muito para além da linha de fronteira que marca o início do território da indignidade.

Oportunidades, certificação e qualificação


Rui Rocha,

O ainda Primeiro-Ministro está indignado com as afirmações de Passos Colho sobre as Novas Oportunidades. A este propósito, importa recordar que o líder do PSD defendeu a importância de assegurar às pessoas uma segunda oportunidade formativa. E que a crítica se dirigiu não ao conceito, mas à sua concretização. Ou seja, Passos Coelho defendeu a requalificação, mas criticou a certificação da ignorância. Ora, esta é uma discussão fundamental, não apenas no contexto das Novas Oportunidades, mas sobretudo ao nível dos sistema educativo e de formação globalmente considerados. Os jovens estão actualmente à rasca por vários motivos. Uns são de natureza conjuntural. Outros  relacionam-se com aspectos estruturais. A actual crise económica limita drasticamente o acesso ao emprego. Mas, mesmo em período de expansão económica, persistiria uma grave ineficiência na relação entre a formação e o mundo do trabalho. Sejamos claros. Diz-se que a geração que agora tenta entrar no mercado de trabalho é a mais qualificada de sempre. Desde logo, existe aqui alguma confusão entre certificação e qualificação. A certificação será de nível mais alto do que antes (licenciatura, 12ª ano,…). Mas, estarão as pessoas realmente melhor qualificadas? Por outro lado, o tipo de certificação e de qualificação obtidos não são indiferentes. Importa perceber em que é que as pessoas são certificadas e para que áreas adquiriram qualificação. Não é a mesma coisa, do ponto de vista do acesso ao mercado de trabalho, ser-se licenciado em Geografia ou em Engenharia de Telecomunicações. Eu, que sou licenciado em Direito, tenho a plena noção que o país formou demasiadas pessoas em cursos como o meu, ou em Geografia e História ou Relações Internacionais, e pessoas a menos em áreas científicas. E que há certificações (e até qualificações) que são um passaporte para o desemprego. A chamada geração à rasca não será necessariamente uma geração perdida. Todavia, para que possa ser melhor aproveitada, terá que aceitar-se uma grande mobilidade (geográfica, funcional) e apostar-se na requalificação. Sim, há licenciaturas que, do ponto de vista do mercado, não servem para nada. As pessoas que as obtiveram vão precisar de apostar na reconversão e aquisição de novas competências. E é uma responsabilidade do Estado apoiá-las. Tudo isto para dizer que a aposta numa segunda oportunidade é fundamental. Importa, todavia, perceber que essas oportunidades não podem ter apenas finalidades estatísticas ou constituir meros afagos ao ego de quem as frequenta. Tais objectivos podem até ser atendíveis, mas devem para além de tudo promover-se novas qualificações úteis e desejadas no mercado de trabalho e obtidas através de sistemas de certificação exigentes e credíveis. A ideia que hoje existe nas empresas é que o programa Novas Oportunidades não responde a nenhum destes critérios. E estou certo que a sua avaliação rigorosa, para lá da propaganda, não resisitiria a um teste definitivo. O de saber quantas pessoas mudaram para melhor ou obtiveram emprego como razão directa da frequência de um desses programas.

Façam o favor de não o subestimar…


Rui Rocha,

A propósito da triste figura que Sócrates e o PS fizeram na questão da redução da TSU, Nogueira Leite, entre outros, afirma que o PM mentiu aos portugueses ou aos elementos do FMI. Como não gosto de ver as capacidades de alguém serem diminuídas em público, sinto que devo chamar a atenção para o facto de ser possível, e até mesmo provável, que José Sócrates tenha tentado enganar uns e outros.

Ganhar um debate enquanto se vai perdendo o país


Rui Rocha,

No debate de ontem entre José Sócrates e Francisco Louçã estiveram em confronto as propostas de um partido que ainda não tem um programa escrito (BE) e as de um outro que tem um escrito que não é um programa (PS). Dou de barato que Sócrates, apesar de ter ido ao tapete na primeira parte do debate, tenha recuperado e possa ter acabado por derrotar o adversário. Vitorioso no combate com Louçã, Sócrates deu, todavia, mais um passo no sentido de perder o país. Do ponto de vista dos eleitores, não estava apenas em causa a avaliação das posições políticas de José Sócrates e de Francisco Louçã na sua relação directa. Como acontece em todos os debates, o valor das propostas apresentadas é também medido tendo em conta a sua posição face às forças políticas ausentes. Ora, desse ponto de vista, a farsa que o PS tem protagonizado relativamente à questão da TSU ficou ontem completamente desmascarada. A exibição por Louçã da carta em que o Governo se comprometeu a reduzi-la de forma significativa constituiu um murro no estômago de Sócrates que o deixou prostrado. Nesse momento, foi Passos Coelho que ganhou o debate que realmente importa. A recuperação posterior de Sócrates confirmou a trajectória recente de derrapagem de Louçã. Mas, não afastou Sócrates do caminho que está a trilhar, com a firmeza que resulta da ausência de credibilidade, rumo à derrota nas eleições de 5 de Junho.

Informação à rede de distribuidores – actualização do catálogo das desculpas socráticas


Rui Rocha,

  1. A culpa é da situação internacional – esgotado (não se prevê reposição até ao final do ano);

  2. Portugal é o dique que impede o ataque ao Euro e que permite salvar a Espanha (inclui kit que para ilustrar a  metáfora do castelo de cartas) – esgotado (não se prevê reposição antes das eleições);

  3. O FMI vai acabar com o 13º mês, despedir funcionários públicos e cortar nos salários (inclui programa da Roménia para ilustrar corte de 25%) – esgotado desde a comunicação do Querido Líder ao país sobre as medidas que não integram o pacote de ajuda (produto descontinuado);

  4. O PSD foi irresponsável quando chumbou o PEC IV (inclui guião com exemplos inspirados nas 7 pragas do Egipto e kit de gafanhotos) – esgotado desde que o tipo da Troika disse que o adiamento da intervenção prejudicou Portugal (produto descontinuado);

  5. O PSD quer acabar com a educação pública e o Sistema Nacional de Saúde – problema técnico na linha de produção desde que o PSD publicou o programa eleitoral; o stock actual deve continuar a ser utilizado, em altos berros e com utilização frequente da palavra desmantelar, até se esgotar; se o camarada Ferro Rodrigues continuar a pronunciar-se sobre o assunto, é possível que o stock se esgote ante do final da semana (produção será retomada para futuras eleições); 

  6. Reduzir a taxa social única não tem efeitos úteis – produto testado pelo camarada Galamba sem sucesso comercial; o marketing está a desenvolver um plano que prevê a oferta deste argumento na compra da ameaça da subida do IVA.

  7. O PSD vai subir o IVA de forma drástica – produto em teste; disponível na rede apenas na versão atoarda até conseguirmos perceber como raio vai o PSD descer a taxa social única sem aumentar os impostos;

  8. O PSD sofre de um radicalismo ideológico como nunca se viu nos últimos 30 anos – situação idêntica à do ponto 5, com as devidas adaptações. Onde se lê “camarada Ferro Rodrigues” deve ler-se “Querido Líder”;

  9. O PSD vai aumentar o IVA da Cerveja – produto estrela desta campanha; vamos apostar nisto; o Querído Líder está em negociações para assegurar tempo quente e seco nas próximas quatro semanas.

Programas eleitorais: PSD 3 – PS 0


Rui Rocha,

Acabo de ler o programa eleitoral do PSD e de reler o do PS. A natureza excepcional do momento que vivemos impõe que a avaliação dos programas tome como referencial o Memorando de Entendimento que o governo de José Sócrates celebrou com a Troika. Neste contexto, a primeira conclusão é a de que o PS optou por propor ao país uma prequela desse documento. O programa do PS ficou refém da táctica eleitoral escolhida por José Sócrates. O objectivo de colar o plano de assistência financeira ao PEC IV impôs um conteúdo texto que omitiu por completo a intervenção externa e a real situação de Portugal em 2011 (recorde-se o lamentável erro no valor do défice de 2010). O momento histórico em que o programa eleitoral do PS se situou foi o ano de 2009. Confesso que temi, a certa altura, reencontrar o aumento dos funcionários públicos e a redução do IVA nas medidas para 2011. Trata-se, por isso, de um objecto vazio de conteúdo e de valor. O PSD, por seu lado, apresenta uma sequela do Memorando. Isto é, tomando este documento como dado da realidade, apresenta linhas de actuação concretas para o futuro. Algumas delas constituem bandeiras de enorme significado. Destaco o fim dos Governos Civis, a redução em 4 pontos(!) da Taxa Social Única, a redução do número de deputados, o rácio de entradas e saídas na função pública (1/5), a privatização de um canal da RTP ou o ataque ao Estado Paralelo (fundações,…). Mas, o programa não fica por aqui. Existem medidas assumidas em todas as áreas (a revisão do processo executivo, a reavaliação do modelo de recuperação do parque escolar, TGV, …). O programa do PSD não descura a responsabilidade social e o princípio da solidariedade. Em nenhum momento põe em causa a educação pública ou um sistema nacional de saúde viável, apresentando-se, à primeira vista, como um documento credível e equilibrado. Isto é, enquanto o PS optou por apresentar aos eleitores uma mistificação, o PSD avançou com um documento sério que pode e deve ser objecto de discussão. Poderá gostar-se ou não do seu conteúdo. Mas, o simples facto de existir um conteúdo concreto para analisar faz com que, nesta matéria, o PSD tenha obtido uma vitória sobre o PS plena de significado. E com a dimensão de uma goleada. 

Discurso directo


Rui Rocha,

O de António Barreto:

José Sócrates, precisa de ser muito, muito severamente castigado e a melhor maneira de o castigar é através da via eleitoral. Ele necessita de ser muito severamente castigado porque ele é pessoalmente responsável pelo mau estado a que Portugal chegou, as finanças públicas e o Estado.

 

Sim, é pessoalmente responsável pelo mau estado a que chegou o próprio Partido Socialista. Comparado com o que era o PS há dez ou 15 anos, não é o mesmo partido, com capacidade de diálogo e com tranquilidade doutrinária. Este PS já não é isso. O engenheiro Sócrates é o responsável por este caminho e deve ser severamente castigado. Creio que ele não ajudará, nem fora, nem dentro, a nenhuma solução das soluções necessárias e importantes para o país.

(o resto aqui)

A semana em que Sócrates perdeu as eleições


Rui Rocha,

Um grande número de comentadores da coisa política veio a público ostentar proféticas barbas. Uns, cofiaram-nas com incontido entusiasmo. Outros, arrancaram-nas. Em qualquer caso, o crescimento dos filamentos barbudos deveu-se à consulta de uma bola de cristal em que, a partir de sondagens de que resulta um empate técnico entre PS e PSD, viram claramente uma vitória de Sócrates nas próximas eleições. Creio, todavia, que estão enganados. É verdade que a campanha do PSD tem demonstrado demasiados pontos fracos e impreparação. E é provável que a falta de consistência se mantenha. Todavia, esta foi precisamente a semana em que Sócrates perdeu as eleições. Explico. A proposta política de Sócrates assentou exclusivamente, ao longo de meses e meses de desvario, no medo do FMI e na imputação de responsabilidade ao PSD por ter chumbado o PEC IV. O argumento do medo foi a enterrar, pela mão do próprio Sócrates, quando deu a conhecer, com entusiasmo,  os termos em que (não) foi negociado o acordo de ajuda externa. Por sua vez, a encomenda da alma do argumento da irresponsabilidade do PSD foi feita pelo representante da Comissão Europeia na Troika quando afirmou que o atraso no pedido de ajuda foi prejudicial a Portugal. As perguntas essenciais sobre o passado recente estão agora respondidas. O responsável pela governação que nos trouxe até aqui foi José Sócrates. O chumbo do PEC IV não foi uma irresponsabilidade. Pelo contrário, forçou um pedido de ajuda externa que deveria ter acontecido mais cedo. E deu origem a um programa de reestruturação que justificou o entusiasmo do próprio Sócrates. Ao ainda Primeiro-Ministro não restam mais argumentos. Na falta deles, a sua campanha eleitoral vai ser a de um animal político. Em fuga. E não bastará a Sócrates esconder-se atrás dos arbustos da máquina de propaganda socialista. Neste momento, já nem uma floresta permite ocultar a sua evidente responsabilidade. Pessoal e intransmissível.

A época do Benfica (se) comentada por reputados governantes e socialistas


Rui Rocha,

Francisco Assis: “Não podemos entrar em clima de euforia”.

 

José Lello: “O presidente da Uefa é mesmo foleiro”.

 

João Galamba: “O Benfica decidiu adiar a vitória na Liga Europa para o próximo ano. A taça deste ano é muito feia”.

 

António Vitorino: “Oh Jesus, o Porto estava com mal disfarçado receio de jogar a final contigo”.

 

José Sócrates 1: Ao contrário do que muitos diziam, não ficámos atrás do Sporting no campeonato, nem perdemos com o Beira-Mar. E ganhámos a Taça da Liga.

 

José Sócrates 2: “Teremos tempo de falar, tanto tempo, tanto tempo…”.

 

Mário Soares: “O líder do Futebol Clube do Porto é uma pessoa bem intencionada com quem se pode falar”.

 

Teixeira dos Santos 1: “hmm…hmm…hmmm”.

 

Teixeira dos Santos 2: “O desemprego entre treinadores de futebol vai aumentar”.

Braga em festa


Rui Rocha,

 

O Braga acaba de consumar um feito histórico. A vitória sobre o Benfica nas meias-finais da Liga Europa representa o culminar de um percurso coerente. O desempenho nas competições da UEFA foi, durante toda a época, absolutamente brilhante. Equipas como o Sevilha, o Celtic ou o Liverpool que o digam. No jogo desta noite, os minhotos souberam sempre o que queriam. E queriam sofrer, com humildade e determinação, a caminho do impossível. Em esforço e ambição o Braga foi superlativo. O sentido colectivo foi enorme. Tanto que não é justo fazer qualquer destaque individual. Ao contrário, o Benfica nunca pareceu uma equipa. E as individualidades falharam. Este é o momento em que se impõe uma palavra de reconhecimento para Domingos. O equilíbrio táctico da equipa é o espelho da maturidade do seu treinador. Contra todas as previsões, o S. João de Braga está a celebrar-se na noite de 5 de Maio. No Bom Jesus há um canudo. Se o virarmos para baixo, veremos uma cidade em festa, com os cachecóis e as bandeiras a sinalizarem uma imensa alegria. Se o virarmos para o céu, veremos os contornos de um sonho que tem a forma de um estádio irlandês.

Noite de equívocos


Rui Rocha,

Ouvi, na rádio, apenas uma parte da declaração ao país de José Sócrates e a totalidade da intervenção de Eduardo Catroga. Ouvi um ou dois comentários, também na rádio, logo a seguir às intervenções. Não acompanhei qualquer debate ou comentário na televisão. Acabo de dar uma volta pelos blogues do “costume”. Posso ter perdido alguma informação relevante e não fui influenciado pelas centenas de opiniões que, admito, já terão sido emitidas nos meios de comunicação social. A impressão com que fico é que José Sócrates esteve muito mal esta noite. Na actual situação, uma intervenção em que não se diz aos portugueses praticamente nada sobre o que vai acontecer, é uma tremenda falta de respeito. Sócrates optou claramente pela politiquice e pelo eleitoralismo. Deixar os portugueses suspensos por mais umas horas, na tentativa de marcar pontos eleitorais, é uma maldade sem nome, própria de quem não vê para lá do seu umbigo. Por isso mesmo, a resposta do PSD falhou completamente o alvo. Catroga exprimiu-se mal. E não disse o que devia. Tentar colher louros e imputar uma derrota a Sócrates quando ainda não se conhecem as medidas equivale a tentar caminhar sobre a água. Na falta de dados para uma avaliação técnica, o único comentário pertinente era político. E este só podia ser no sentido de salientar a falta de respeito de Sócrates que já referi. Neste momento, enquanto não se abre a caixa de pandora, a conclusão provisória só pode ser uma de duas: ou estamos perante mais uma farsa protagonizada por Sócrates (se as medidas ou condições da ajuda não tiverem a suavidade que este pretendeu atribuir-lhes), ou é completamente incompreensível que Sócrates tenha adiado por tanto tempo o pedido de auxílio externo. Em todo o caso, a intervenção do Primeiro-Ministro tem o efeito de eliminar qualquer imputação de responsabilidade ao PSD pela não aprovação do PEC IV. Se o pacote de ajuda é assim tão favorável, com juros razoáveis, o PSD fez muito bem. Se não é, a encenação de Sócrates é de tal maneira condenável que anula qualquer outro juízo de valor negativo. Uma coisa é certa. Os pavões de S. Bento fazem muito mais barulho do que Teixeira dos Santos.