É só a mim que acontece ou…


Rui Rocha,

 

Não questiono os resultados das sondagens. E, tendo eu uma preferência eleitoral que é, antes de mais, o afastamento de José Sócrates do poder (por indecente e má figura), não sei se é melhor, do ponto de vista desse interesse, que as sondagens apresentem resultados folgados ou apertados. Existe, todavia, uma coisa que me causa confusão há uns dias largos. Os círculos em que me movo (família, amigos, contexto profissional) apresentam normalmente escolhas políticas heterogéneas (com socialistas e social-democratas com natural prevalência). Pois bem, nestas eleições são raríssimas as pessoas que manifestam intenção de votar em José Sócrates. Ou seja, as intenções de voto reveladas estão muito longe dos trinta e tal por cento. Isto é, ao contrário do que costuma acontecer, esta minha amostra pessoal apresenta resultados claramente contraditórios com os que vão sendo divulgados nas sondagens oficiais. Ou então, o voto em Sócrates tornou-se uma decisão eleitoral envergonhada que nem aos familiares, amigos e colegas se confessa.

De como Humberto Delgado recebeu um voto que não lhe estava destinado


Rui Rocha,

As eleições de 1958 tiveram, como se sabe, Humberto Delgado e Américo Tomás como protagonistas principais. O que já muitos não saberão é que não foi apenas o resultado final das eleições que foi condicionado pelo regime. Na verdade, o próprio recenseamento eleitoral estava longe, na prática, de abranger o universo dos potenciais eleitores (em 1974 o número de eleitores recenseados não chegaria a um milhão). Outro aspecto surpreendente, aos nossos olhos, é o de os boletins de voto não estarem disponíveis nas assembleias eleitorais, mas serem previamente distribuídos pelos eleitores. Como seria de esperar, o regime assegurou a impressão e a distribuição, porta a porta, pela GNR e pela PSP, dos boletins de Américo Tomás. A tarefa de imprimir os boletins de Humberto Delgado foi bem mais complicada, pois até conseguir papel com as características impostas em quantidade suficiente foi um obstáculo difícil de superar. Quanto à distribuição, esta foi feita de mão em mão, entre aqueles que não temeram ver o seu nome associado à candidatura do General. Neste contexto, e tendo em conta o ambiente geral de intimidação, o controlo da imprensa e a falta de rigor na própria contagem de votos, pode imaginar-se que Humberto Delgado tenha perdido muitos votos. Pois bem, estou em condições de afirmar que também ganhou um que não lhe estava destinado. Pelo visto, o meu Bisavô, homem de muito mundo e não poucas dificuldades, valorizava a ordem e a disciplina que Salazar impusera ao país. O meu Avô, por seu turno, era um homem afável como poucos naquela época. Trabalhador incansável, acumulava a arte de alfaiate com a gestão da mercearia da terra. Tanto riscava a fazenda com giz como servia copos de vinho pela noite dentro aos não poucos bêbados da aldeia. Independentemente da hora a que se deitasse, às cinco da manhã dava à bomba para retirar água gelada do poço com que tomava o seu banho diário e inadiável. Homem de visão, teve três filhas e, coisa também pouco comum à altura, todas estudaram. E se uma das minhas tias não obteve a licenciatura, tal sucedeu bem contra a sua vontade. Ora, o Avô Adriano, para além de muitas outras qualidades, era também um democrata. Mas, foi em vão que tentou convencer o meu Bisavô a alterar o sentido de voto. Cansado de argumentar, o Avô Adriano decidiu, em estado de necessidade, tentar alterar o curso inexorável da história recorrendo a outros métodos. Assim, na manhã das eleições, quando o meu Bisavô se aprestava a sair de casa para votar, o Avô Adriano chamou-o. Deixe cá ver esse casaco, que lhe dou uma passadela. Que sim, que não, que não vale a pena, que deixa estar, que vai melhor que isto não se vota todos os dias. Finalmente, o Bisavô tirou o casaco. O ferro a carvão já fumegava, prontinho para o deixar impecável. Aos pés do Avô Adriano, escondida pela mesa de alfaiate, estava uma catraia, a minha mãe, com um boletim de voto de Humberto Delgado na mão. E enquanto a mão do Avô Adriano empurrava o ferro, a mão da minha mãe entrava no bolso do casaco do Bisavô e substituía o boletim de Américo Tomás que lá estava, muito bem dobrado, à espera de ser depositado na urna. Ora aqui está, já que não muda de ideia, ao menos que vá  com a devida apresentação. Não mudo não rapaz, e melhor farias tu em mudar. E enquanto um e outro se iam entretendo a terçar os últimos argumentos políticos, a minha mãe já se dirigia à mercearia para se apropriar da laranjada que o pai lhe tinha prometido.

Os idosos de Guimarães vão ao zoo demagógico


Rui Rocha,

Não há dúvida. O PS é um partido inclusivo que não descura os aspectos lúdicos e culturais. Primeiro, abriu os braços para acolher na campanha os imigrantes da secção do Martim Moniz. E faz bem, uma vez que, como Francisco Assis reconheceu, ele que conhece bem a dita secção, são militantes muito activos. Depois, decidiu proporcionar aos participantes uma visita gratuita ao SEA LIFE para promover o conhecimento das profundezas dos oceanos. E faz bem, pois que tendo o PS afundado o país, é muito oportuno que os simpatizantes saibam o que os espera. Agora, pelo visto, são os idosos de lares de Fermentões e Guardizela, em Guimarães, a beneficiar das maravilhas do estado social na versão Sócrates 2011. Desta vez, o programa inclui apenas (e não é pouco, caramba!) a participação numa acção de campanha com a presença de José Sócrates. E faz sentido. Uma vez que não há jardim zoológico em Guimarães, esta é uma oportunidade única para os idosos verem ao vivo um animal político que, como se sabe, é um exemplar único do zoo demagógico.

Acentuado acampamento nocturno


Rui Rocha,

 

Pelo visto, na acampada não faltam tendas para os cidadãos se deitarem. Todavia, nota-se uma certa falta de vírgulas para os cidadãos respirarem e de acentos para os cidadãos acentuarem:

 

Longa vida ao Querido Líder


Rui Rocha,

Há duas presenças esmagadoras na vida dos habitantes da Coreia do Norte. Uma diz respeito ao amor inquestionável pelo Querído Líder. No sentido de que esse amor não pode ser questionado. A outra é a da fome. De acordo com o Programa Alimentar Mundial, 6 milhões de coreanos estão à beira da morte devido a carências alimentares básicas. Entretanto, o regime mantém-se focado em salvaguardar alguns objectivos essenciais. Os militares devem continuar a alimentar-se adequadamente e à mesa do Querido Líder não podem faltar as habituais iguarias, nem o vinho da melhor qualidade. Morrer por amor é, na Coreia do Norte, uma expressão plena de significado.

Comunicado da Juventude Socialista de Penafiel


Rui Rocha,

 

Camaradas,

Tal como esperávamos, a promoção “o PS leva-te a ver o peixe-palhaço” está a ter uma enorme adesão. Neste contexto, e para assegurar o sucesso desta extraordinária iniciativa, vimos solicitar encarecidamente a todos os camaradas que não usem turbante nesta acção de campanha. Sublinha-se que este pedido não constitui qualquer atitude discriminatória (nós somos PS, porra!) e justifica-se, exclusivamente, com a necessidade de assegurar a visão integral dos aquários a todos os participantes. As barbas longas são igualmente desaconselhadas tendo em conta que os camaradas, ao debruçarem-se para ver as amêijoas, poderiam ficar com as ditas cujas de molho. Acresce que o tubarão-lixa tem alergia a pêlos. Da mesma forma, e tendo em conta que as previsões apontam para um dia com elevadas temperaturas, deve evitar-se o consumo de chamuças (de acordo com um camarada que chegou a técnico de segurança alimentar  – ramo alimentação de animais domésticos – depois de um tão curto quanto extraordinário período académico nas Novas Oportunidades, comidas condimentadas provocam desidratação).

Saudações socialistas,

TSU – Teixeira, Sócrates and you


Rui Rocha,

  "Tenham a gentileza de dizer quem vai pagar a saúde"

 

Recordo aqui o estardalhaço com que certas almas receberam a proposta do PSD de reduzir a TSU em 4%. Lembro-me bem do debate em que Louçã confrontou Sócrates com o compromisso que teria assumido perante a Troika no sentido de reduzir as contribuições de forma significativa. E da resposta deste último. Basicamente que pois, mas na verdade que não, antes pelo contrário, quando puder ser, depois logo se vê, se houver Sol e depois não chover, mais qualquer coisa sobre a margem, e que não era bem uma carta, que sendo uma carta sempre seria o duque de espadas e nunca o rei de copas, eventualmente um escrito com intenções, se calhar nem isso, jamais um compromisso, que já não se lembrava bem quem era a Troika, que rigorosamente nem sequer tinha havido resgate, que o PEC IV é que era e que o tempo não tem estado mau na Caparica. Depois do debate, Sócrates ainda teve tempo para manifestar as maiores dúvidas sobre a descida da TSU em 2012. Em matéria de TSU, a dúvida foi, portanto,  o método que Sócrates utilizou para impedir o conhecimento da realidade. Infelizmente para o líder do PS, também relativamente a este ponto o castelo de cartas está a desmoronar-se. Teixeira dos Santos tem estado, como se sabe, confinado em solitária. Ontem, aproveitou uma saída precária para se pronunciar sobre o assunto, afirmando que foi assumido um “compromisso claro de que, tendo em vista apoiar o reforço da competitividade europeia, haverá uma descida significativa da TSU”. E esclareceu ainda que o estudo sobre as medidas necessárias para compensar essa descida deve esta concluído até final de Junho. Mais uma vez José Sócrates faltou ao respeito aos portugueses tentando ludibriá-los relativamente à existência de compromissos que ele próprio assumiu. Perante a sucessão de factos como este, não é possível acompanhar os que dizem que o primeiro-ministro vive numa realidade alternativa. Na verdade, estamos mais propriamente perante uma realidade de alterne. 

Assim não!


Rui Rocha,

As minhas mãos, essas que trago calejadas de tanto vergastar Sócrates, são as mesmas que levanto para manifestar a minha veemente repulsa por isto. A fotografia escolhida pelo I é inadmissível. É claro que o argumento de Sócrates a que a notícia alude é, também ele, lamentável. E que o líder do PS merece uma crítica política cerrada por isso e por tudo o mais. Mas, não merece isto. E nós também não merecemos que coisas como estas o façam surgir como vítima seja lá do que for. 

Sócrates e os tiros nos pés de um banal político


Rui Rocha,

 

O facto verdadeiramente novo do actual período eleitoral é a sucessão de tiros que José Sócrates e o aparelho socialista têm disparado contra os seus próprios pés. De facto, os últimos dias foram férteis em abalos de magnitude variável. Um primeiro sinal de descontrolo foi dado quando Sócrates repreendeu, de forma arrogante, o empresário Peter Villax. Depois, o debate com Passos Coelho veio demonstrar que o Primeiro-Ministro não é imbatível em duelos televisivos. E o certo é que esse não foi o único debate que Sócrates perdeu. Entretanto, o fim-de-semana prosseguiu na mesma  toada. O fait-divers dos outdoors, mais do que ter importância por si mesmo, vale sobretudo como testemunho de  desnorte (novidade) e incoerência de discurso (já tradicional) na caravana socialista. Mais grave foi o recurso a figurantes arregimentados na comunidade imigrante. Muitos deles, sem direito a voto, passaram a ser a imagem de um partido que não olha a meios para transmitir uma aparência de mobilização. Os sacos azuis do lanche, pousados no chão, constituem uma imagem que há-de perseguir José Sócrates sempre que este se auto-intitular campeão do estado social. Entretanto, Sócrates ainda teve tempo para invocar a doutrina social da igreja e para ameaçar os eleitores com o fantasma do regresso da educação da ditadura. Tudo sinais de uma fuga em frente própria de quem vê o tempo a fugir-lhe.  E o Domingo não chegou ao fim sem mais um valente trambolhão. Questionado pelos jornalistas, Sócrates declarou que aceitaria Passos Coelho e Portas como seus ministros. Não faltarão fanáticos a defender que se trata de (mais) uma magistral jogada política de Sócrates. Em rigor, não é assim. Aceitar Passos como ministro implica uma contradição insuperável com o argumentário recente do PS. Das duas, uma. Ou Passos não é tão mau como Sócrates o pinta e tais argumentos são falsos, ou Passos é realmente mau e aceitá-lo no governo revela as intenções de um Sócrates capaz de tudo para se manter no poder. Em qualquer caso, o facto de não se declarar disponível para, na situação inversa, ser ministro de Passos Coelho certifica a arrogância de alguém que avalia as soluções tomando o seu interesse pessoal como único critério. Visto isto, a lenda do animal político não sobreviveu às primeiras situações em que foi realmente testada. Na verdade, o desempenho de Sócrates tem estado muito mais próximo do de um banal político. Preso numa teia de contradições e incompetência e incapaz de alterar um discurso estafado e repetitivo que, manifestamente, não está a funcionar.

A tradição, o simbolismo e o PS


Rui Rocha,

Pelo visto, o PS terá prometido que não utilizaria outdoors na campanha eleitoral para as legislativas de 2011. Entretanto, o PS começou a colocar outdoors. Perante esta aparente contradição, Vieira da Silva, director de campanha, veio esclarecer que “o PS não vai fazer uma campanha tradicional com base em outdoors“ e que a sua colocação em alguns locais é meramente simbólica. Ora, esta explicação introduz uma importante distinção entre tradição e simbolismo nas campanhas do PS. Na verdade, se estamos bem recordados, a tradição é fazer promessas que nunca foram cumpridas:

 

 

Já o simbolismo resulta de os outdoors actuais, tal como o PS, não terem, para além de duas ou três afirmações vazias, nada para dizer aos portugueses:

 

 

Isto sem esquecer que esta coisa de se dizer que não há outdoors e depois eles aparecerem remete, em si própria, para uma tradição de promessas não cumpridas e para um outro simbolismo: o de apresentar uma explicação semântica ou metodológica para tudo o que acontece em contradição com o prometido.

Sócrates já não acredita em José


Rui Rocha,

O debate entre Passos Coelho e José Sócrates marca o ponto de viragem entre o passado recente e o futuro próximo da política portuguesa. É claro que Passos Coelho ganhou o debate. Mas Sócrates perdeu mais do que isso. Os seis anos de governação que protagonizou podem resumir-se como uma corrida em sentido contrário ao da evolução da realidade. O estado de negação terminal de que Sócrates deu mostras a partir de 2009 só foi possível porque conseguiu, contra tudo e com a ajuda de quase todos os que lhe estão próximos, acreditar na alucinação que ele próprio construiu. A cada medida falhada, a cada revés, a cada dado estatístico preocupante, Sócrates foi contrapondo a glória de uma realidade alternativa. Ontem, o discurso estafado e repetitivo que utilizou revelou que Sócrates já não consegue convencer-se a ele próprio. E isso é fatal para alguém cuja sobrevivência política depende de conseguir iludir os eleitores uma última vez.

Quem fala assim não é Constâncio


Rui Rocha,

Tal como se pode ler aqui, e de acordo com o relatório anual ontem publicado pelo Banco de Portugal, foi o adiamento, em 2010, da correcção dos desequilíbrios orçamentais e externos da economia portuguesa – incluindo défices públicos acima do esperado – que fizeram com que Portugal ficasse exposto a uma avaliação negativa por parte dos mercados financeiros internacionais:

  • “Os investidores internacionais singularizaram a economia portuguesa principalmente em função do elevado nível de endividamento externo e do baixo crescimento tendencial, em conjugação com níveis do défice e da dívida pública relativamente altos e superiores ao esperado”.

  • “(…) estes desenvolvimentos contribuíram para avolumar os receios dos investidores internacionais sobre a sustentabilidade das finanças públicas e sobre a dinâmica intertemporal da dívida externa, tornando inadiável o pedido de assistência financeira internacional”.
  • “Em 2010 foi de novo adiado um ajustamento significativo dos desequilíbrios da economia portuguesa com (…) insuficiente consolidação das finanças públicas e (…) com uma política orçamental apenas ligeiramente restritiva”.
  • “As medidas de consolidação importantes foram implementadas apenas a partir de meados de 2010, tornando limitado o seu impacto”.

Ou seja, não só chegámos a 2010 com desequilíbrio orçamentais e externos (importa recordar quem esteve no governo nos últimos 6 anos) como, perante a crise internacional, foi adoptada a atitude errada pelo executivo liderado por José Sócrates. A realidade, sem eSPINhas, é esta. O resto é conversa para boy dormir.

Declaração Inequívoca de Sentido de Voto


Rui Rocha,

 

Em Tempo De Crise, Toda A Poupança É Bem-Vinda. Decidi, Por Isso, Não Usar o Plural Neste Post. Desta Forma, E Para Dar Um Exemplo, Se Tiver Que Me Referir À Soma De Um Com Outro Um, Direi  Doi. No Mínimo, Poupo No “S”, O Que Não É Pouca Coisa. Para Compensar, E Porque Há Vida Para Além Da Contenção De Despesa, Cada Palavra Será Iniciada Com Maiúscula. Sempre Quebra A Monotonia, Coisa Que, Estou Certo, O Leitor Muito Me Agradecerá. Esclarecido Este Doi Ponto Prévio (Não Se Esqueça O Leitor De Colocar O “S” Final Ali Onde Lhe Sinta A Falta Uma Vez Que, Pela Minha Parte, Estou Disso Impedido Devido À Regra A Que Voluntariamente Me Obriguei), E Tendo Em Conta Que O Período Oficial De Campanha Eleitoral Está Quase A Ter Início, Considero Ser Este O Momento Para Tomar Posição Clara E Inequívoca Sobre A Escolha Fundamental Na Eleição Que Se Avizinha. Assim, Declaro Com Total Convicção, Firmeza e Frontalidade Que, Entre Sócrate e Passo, Passo.