Combater a epidemia


Rui Rocha,

 

Manual Prático de Prevenção do Novo Vírus da Dívida Soberana (edição especial para Governos de países endividados do Sul da Europa, revista e adaptada ao caso português):

I) Principais Sintomas:

a) juros da dívida com temperatura superior a 7%; b) dificuldades de financiamento c) orçamentos restritivos; d) recessão e) irritação social podendo, em certos casos, ocorrer Greve Geral; f) ministros com pensamento desconexo e sinais evidentes de desorientação.

II) Medidas e Orientações para elaboração de Planos de Contingência:  

a) Lavar frequentemente as mãos. A crise? Eh pá, não fomos nós. Não temos culpa nenhuma disso! Invocar sempre um brilhante track record de saneamento das contas públicas. Não esquecer de mandar um Postal de Boas-Festas ao Constâncio. Escovar também as unhas!

b) Tossir e espirrar para cima de toda a gente. Responsabilizar sempre terceiros pela má governação. A eficácia será maior se forem identificados vários responsáveis alternativos: a Oposição, os Mercados, a Situação Internacional, o Aquecimento Global, o Ruca e a Barbie, o Míldio da Videira, o Nemátodo do Pinheiro …  Está na hora de apelar à criatividade. 

c) Manter distância de países infectados. Salientar a enorme diferença que existe entre a nossa situação e a de outros países que já foram contaminados. Semelhantes à  Irlanda, nós? Por amor de Deus! Os irlandeses são todos ruivos, senhores. Assobiar para o ar na presença de um Grego. Mudar de passeio perante a aproximação de um Espanhol.

d) Utilizar máscara de protecção. O vírus da dívida soberana transmite-se sobretudo pelos olhos. A máscara deve impedir por completo que se veja a realidade. Isso mesmo: convém não ver nadinha. É um bocadinho desconfortável, não é? A nossa saúde está primeiro!

e) Evitar alarmismo na sociedade. Não se pode estar sempre a falar na crise da dívida, que diabo. Ò Amado… outra cimeirazinha da Nato em Dezembro é que era. Vê lá se consegues, pá. Isso mesmo. Diz ao Obama que já chegaram os blindados. 

f) No caso de ocorrerem sintomas, jamais contactar a linha FMI 24. É que nem pensar! Eram bem capazes de dar baixa ao Governo e a malta quer é trabalhinho. Em geral,  recusar qualquer tipo de ajuda. Nós cá nos vamos governando.

Rochas orçamentais


Rui Rocha,

 

Isto não está fácil para ninguém. Por isso, lá em casa, os Rocha também aprovaram um orçamento restritivo para 2011. Com medidas duras. Pelo lado da Despensa e pelo lado das Receitas. Explico. Para o ano, só entram na Despensa produtos de marca própria. A minha filha (uma perigosa esquerdista radical) chegou a propor marcas impróprias e um novo imposto sobre a Banca de Jornais onde compro os desportivos! Coisas de quem não pertence ao arco da governação doméstica. As propostas da populistazinha foram chumbadas por uma coligação promovida pelo meu Sogro. É um homem com imagem austera e dificuldades de dicção. E gosta de ler a Bola sem gastar tostão. Adiante.

 

Ainda do lado da Despensa, vamos reavaliar a compra de um Trem de Cozinha da $algado & Coelho que já tínhamos encomendado. Permite cozinhar a alta velocidade. Mas, não cabe na Despensa. Na verdade, só íamos utilizá-lo quando os nossos amigos espanhóis viessem cá a casa. Depois de irem à praia. Gostam muito de praia, os espanhóis. E fazem centenas de quilómetros só para… Pois.

 

Do lado das Receitas, quisemos transmitir serenidade aos mercados. Só vamos cozinhar Receitas sem nomes agressivos. Despedimo-nos ontem da Desfeita de Bacalhau. No Sábado, dissemos adeus ao Bacorinho no Espeto. E vai acabar também a Cerveja de Pressão. Pois é. Ninguém disse que ia ser fácil… Sinto, todavia, que é possível ir mais longe quando entrarmos no Debate das Especialidades. Adiante.

 

Vamos apostar nas Exportações. Um exemplo? O meu Cunhado. Costumava almoçar cá em casa ao Domingo. Exportei-o para a minha Sogra. Comuniquei-lhe por e-mail, para poupar em chamadas. Mas, nem tudo são rosas. Tinha a intenção de acabar com Serviços e Institutos duplicados. É o caso do Instituto de Beleza da Micas Cabeleireira. A minha Mulher vai lá duas vezes por semana. Uma chegava! Deixei cair a proposta para poder manter a Sport TV3. Cedi para salvar o essencial. Já nos Serviços de Manicura fui inflexível. Doze vezes por mês e nem mais uma. Acreditem, é um corte brutal com o passado…

 

Entretanto, a execução orçamental preocupa-me. A minha Mulher esteve no Google a ver o significado de reavaliar. Se calhar, a questão do Trem de Cozinha não ficou bem esclarecida. Cá por coisas, fiquei com almofada orçamental. Se a coisa descarrilar, passo a portajar os meus Sogros quando vierem visitar a filha. É dinheiro em caixa: os velhotes não têm filha alternativa.

 

Agora, se permitem, vou ali a uma Cimeira com a Frau Rotweiler. É a alemã que mora aqui em frente. Andou a dizer ao Zé do Talho que ele vai perder parte do dinheiro que lhe devo de uns bifes do lombo. Lixou-me. Estas coisas sabem-se… O Tobias do Minimercado aumentou logo os preços. E já ameaçou que vai deixar de me fiar a mim e aos outros tesos do Sul da Rua. Tobias or not Tobias, eis a questão. Felizmente, o Chinês também fia. É um homenzinho estranho. No outro dia, apanhei-o no meu jardim com uma máquina de calcular na mão. Uma coisa é certa. Ou a alemã se cala, ou conto ao bairro todo que ela está feita com o francês, o Cestcommeci. E vai tudo ao Fundo. Foi o que aconteceu ao Long John, o Irlandês da porta ao lado. Tinha muitos problemas com a Banca, coitado…