Abrantes em festa
Rui Rocha,
Confirma-se o que todos sentíamos na rua. As sondagens oficiais feitas ao longo das últimas semanas não reflectiam o sentimento das pessoas.
… quande se tem o talento da Inês Pereira (Braga, 15 anos):

Há uns meses, Soledad Sanchez Mohamed, candidata à Alcaldia (a nossa Presidência da Câmara) de Ciutadella, em Maiorca, apresentou o cartaz ali mais acima como proposta eleitoral. O slogan da campanha foi “dos grandes argumentos“. A partir daí, a campanha eleitoral foi dominada pela discussão do assunto. Não faltaram as acusações de sexismo e de concorrência desleal. Pela minha parte, creio que existe, de facto, uma crítica a fazer e que esta deve ser, antes de mais, política. Na verdade, parece-me que falta nesta proposta uma distinção clara entre a esquerda e a direita. E estes são tempos em que é urgente regressar à ideologia.
Temos de reflectir ou temos que reflectir?
O dia de reflexão não é uma originalidade portuguesa. Mas existem muitos países, entre eles democracias que temos como as mais avançadas, onde nunca se ouviu falar de tal coisa. Em geral, o dia de reflexão parece estar associado a momentos da vida dos países com especial animosidade entre as forças políticas e sociais. Ou a estados embrionários de desenvolvimento da democracia. Em qualquer caso, numa época em que as redes sociais assumem um papel determinante na comunicação, o dia de reflexão está completamente ultrapassado pelos acontecimentos. Como controlar os blogues, os fóruns, os sms, as notícias publicadas em meios de comunicação social estrangeiros? Mesmo no cenário de contenção por quem utiliza e alimenta as redes sociais, a assincronia da internet torna inútil qualquer tentativa de controlo. Em rigor, antes já era assim. Na época dos outdoors, que parece agora ultrapassada, o que deviam os eleitores fazer no sábado véspera de eleições? Fechar os olhos para não verem o apelo ao voto colocado na berma da estrada? Da mesma forma que, na verdade, a pré-campanha não o é, pois que a campanha começa muito antes do seu início formal, também se prolonga para lá da última sexta-feira antes das eleições.
É assim, goste-se ou não. Para quê, então, e em nome de que paternalismo, o dia de reflexão?
Ao longo dos últimos meses, José Sócrates, o PS que ele lidera (que não confundo com muitos socialistas) e o seu governo foram alvos sistemáticos dos meus textos. Não me arrependo de nada do que disse em seu desfavor e penitencio-me por não ter sido ainda mais incisivo. José Sócrates representa muito do que não suporto num ser humano. As dezenas de posts que escrevi sobre o assunto dispensam-me de o aprofundar neste momento. Acredito na honestidade, no trabalho, na exigência, no estudo, na aprendizagem permanente, na colaboração, na responsabilidade, no importância do erro e do seu reconhecimento como forma de superação, na empatia, na compaixão e numa solidariedade efectiva, mas exigente. Não tenho a certeza que Passos Coelho possa conduzir o país no sentido de valorizar estes princípios. Sei que Sócrates nunca o faria. E sei também que Passos Coelho é o único que está em posição de o fazer. Desejo-lhe sorte. Porque a sorte dele será a do país. E exijo-lhe mérito. Pois que o mérito é condição indispensável para quem, por direito, assume a obrigação de servir o país. E daqui lhe prometo que as mãos que o aplaudirem por cada medida acertada serão as mesmas que o hão-de vergastar, tal como aconteceu com Sócrates, se, para nossa miséria, escolher um caminho diferente daquele que o interesse do país impõe. Depois das eleições, a minha vida será a mesma, independentemente do resultado. Portugal, infelizmente, não pode já dar-se ao luxo de continuar a ser o que tem sido até aqui.
Há eleitores que são contra o regime, o sistema ou a generalidade dos partidos, ou que consideram todas estas questões indiferentes. Para estes, a escolha racional é a abstenção. Um outro grupo não está nestas circunstâncias mas, conjunturalmente, não encontra resposta nas propostas eleitorais. Nesta caso, a decisão racional é o voto branco ou nulo. Para que esta escolha seja esclarecida, é preciso que os eleitores saibam que o sistema trata indistintamente estas duas situações e que nenhuma delas conta para o apuramento do resultado eleitoral. A partir daqui, a eleição de domingo apresenta uma característica especial. Para os eleitores que pretendem que o voto conte para o apuramento do resultado eleitoral, existe uma única pergunta fundamental que deve ser respondida: deve Portugal cumprir ou não o acordo assumido com a troika? Tudo o resto, nas actuais circunstâncias, deve ser esclarecido depois. Para os que entendem que não, a decisão racional exclui três partidos: PS, PSD e CDS. Para os que entendem que sim, resta optar por um deles (deixo de fora da análise os partidos sem representação parlamentar pois que tal não prejudica a defesa da tese). Ora, esta opção deve fazer-se a partir de uma avaliação do passado e de uma posição sobre o futuro. No que diz respeito ao passado, o aspecto fundamental a considerar é a governação de Sócrates. Dispenso-me de comentários relativamente a tudo aquilo que pode ser traduzido em números (dívida, desemprego…). Eles falam por si. Foco-me, por isso, em aspectos qualitativos. Neste particular, a governação de Sócrates, baseada na mentira, na ocultação, na manipulação estatística, no adiamento de decisões urgentes, em promessas feitas para nunca serem cumpridas, no facilitismo e na elisão da responsabilidade, representou um retrocesso civilizacional para o país. Tal bastaria para eliminar este PS do âmbito das decisões racionais. Deixemos, todavia, que seja ainda submetido ao teste do futuro. A pergunta será então qual destes três partidos está em melhores condições para cumprir aquilo a que se vinculou. E, mais uma vez, as posições de José Sócrates ao longo da campanha deixam-no na pior posição. Quem assina um compromisso de redução substancial da TSU e vem depois dizer que tem dúvidas sobre o assunto não merece qualquer credibilidade. Existem, assim, várias soluções e caminhos ao dispor dos eleitores. Nenhum deles leva, racionalmente, ao voto em José Sócrates. Por isso, a única forma de decidir pelo PS é prescindir de toda e qualquer racionalidade.
‘(…) reconhecer a validade relativa das próprias convicções, mas ainda assim defendê-las resolutamente, é o que distingue o homem civilizado do bárbaro. Pedir mais do que isso talvez seja uma necessidade metafísica profunda e incurável, mas permitir que isso determine a nossa prática é sintoma de uma imaturidade moral e política igualmente profunda, e mais perigosa’.
Isaiah Berlin
Jorge Jesus afirma que as vendas também são produção dele.
Sócrates prepara-se, bem contra a sua vontade, para nos deixar entregues às profundezas do buraco que ele próprio escavou. Por isso, ficará incompleto um projecto que, estou em crer, com mais uns anos que só não seriam de reinação porque não estamos numa monarquia, constituiria um feito científico extraordinário. Falo, naturalmente, do novo e admirável homo socraticus, o extraordinário Valter-Lello. A união num único ser das qualidades de Valter Lemos e das competências de José Lello. Um avanço fabuloso que evoca a natureza (recordo o cruzamento de uma cavalgadura com um jumento, pelo qual se obtém uma mula) mas que pressupõe a mais sofisticada engenharia, área em que, como se sabe, Sócrates é superiormente versado. É certo que Lello e Lemos, só por si, constituem já fenómenos da natureza. Mas, imagine-se agora o que seria, mais que o cruzamento, a confluência, num único ser, das principais características de um e de outro. De Valter, o cabelo, o olhar mortiço, o arrastamento vocabular, a destreza estatística, a calma seráfica perante todo e qualquer cataclismo (já estava previsto, diria ele impávido e sereno), um ou outro casaco castanho, outro de xadrêz, duas ou três gravatas, uma das quais com aqueles motivos que parecem feijões, e o conhecimento do Portugal profundo próprio de um homem com percurso feito nas beiras, quando não nos cantos e nos vãos de escada. De Lello, os connects, os olhos míopes, brilhantes pela antevisão da próxima tolice, o deslumbramento no apoio ao líder, o discurso tão tonto quanto inflamado, tão oco quanto entusiasmado, um ou outro fato comprado nos Armazéns Marques Soares, a finíssima camada de verniz cultural adquirida por esse mundo fora, eu que sei, em recepções, eventos e, sobretudo et pour cause, em vernissages, e, last but not the list (pois que a lista seria interminável), o gosto por uma boa taça de champanhe italiano. Um futuro extraordinário, como se vê. Um único líder e um exército de milhões de Valter-Lellos para o acompanhar. Esta é exacta dimensão do que se vai perder. E é pena, porque estou convencido que mais uns tempitos e chegávamos mesmo lá.
De acordo com o CM, a Lusa está novamente envolta em polémica. Em comunicado, o Conselho de Redacção afirmou que a agência “não foi um modelo de objectividade, nem de rigor e muito menos de isenção”. Ao que parece, na origem da discórdia está a alteração de uma notícia onde se lia:
“Os responsáveis da troika consideraram que o PEC 4 não era suficientemente profundo em reformas estruturais para lidar com a crise, uma vez que se concentrava apenas nas medidas fiscais.”
Entretanto, o texto terá sido alterado pelo chefe de redacção e, na versão final divulgada pela Lusa, ficou:
“A troika considerou que o PEC 4, que o Governo apresentou em Março e foi chumbado no Parlamento pela oposição, ‘era um bom ponto de partida’, disse Jürgen Kröger.”
A campanha (e a pré-campanha) de Passos foi irregular, com momentos altos, como o debate com o Coiso e a apresentação do programa eleitoral, e alguns momentos baixos. Já o Coiso esteve mais constante. Cá para nós que ninguém nos ouve, fez uma campanha eleitoral que foi uma boa merda.
Troika-tintas*: político que nega os compromissos que assumiu com a troika com o objectivo de enganar os eleitores.
* com a devida vénia a Francisco Louçã
A divulgação do compromisso assumido pelo Governo de aprovar uma redução substancial (major reduction) da TSU e de, se for necessário, adoptar medidas adicionais de austeridade, confirma que Sócrates é um mentiroso. Mas, mais do que isso, demonstra que o líder do PS está cada vez mais coxo.
Leitura complementar: Miguel Noronha, aqui.
José Sócrates está a afundar-se. Será, provavelmente, um momento doloroso. Para ele e para um ou outro apoiante incondicional. Temos pena. Pensando bem, nem por isso. Este é um processo que Sócrates deve enfrentar sozinho. Com toda a indignidade que corresponde ao caminho do desastre que ele próprio quis trilhar. Sabe-se que os náufragos, em desespero, podem arrastar para o fundo aqueles que se aproximarem. Sócrates antecipou-se. Submergiu o país antes de se afogar. Agora, enquanto segue o seu destino solitário, o pouco Portugal que resta não pode perder tempo a dar-lhe atenção. O tempo é dinheiro e há muito que Sócrates esgotou as reservas que permitiriam comprar uma bóia para lhe atirar. A emergência impõe agora duas prioridades para o país. Antes de mais, a constituição de um governo de mudança, com uma base tão abrangente quanto possível, integrado pelos melhores de entre nós ao nível técnico e político. Indispensável um casamento por interesse. Sendo que o interesse só pode ser o do país. A segunda é a renovação do PS, como força política fundamental na democracia portuguesa. Através de uma nova liderança que encerre, definitivamente, a página socrática. Inadiável um casamento por amor entre o aparelho socialista e uma proposta séria (por uma vez) que agite algumas bandeiras legítimas da esquerda. Visto pelo ângulo do PS, o Estado Social não pode continuar a ser o rebuçado que adoça a boca dos incautos como contrapartida pelo regabofe de boys e girls socialistas. É nestes tabuleiros que o futuro imediato, e não só, começa a jogar-se na noite eleitoral de 5 de Junho. Até lá, mais uns dias de foguetório nas ruas da campanha eleitoral. Aproveitemos então a fanfarra para, em festa, acompanharmos a caravana que faz as vezes de cortejo fúnebre de José Sócrates. Depois de 5 de Junho não vai sobrar tempo nem disposição para celebrar.

De acordo com a particular visão de Eduardo Ferro Rodrigues, “um voto ao centro, que não seja no PS, é um voto no insulto e na agressão“. É uma afirmação que fala por si e não merece outros comentários.