Valter-Lello: o admirável homo socraticus


Rui Rocha,

Sócrates prepara-se, bem contra a sua vontade, para nos deixar entregues às profundezas do buraco que ele próprio escavou. Por isso, ficará incompleto um projecto que, estou em crer, com mais uns anos que só não seriam de reinação porque não estamos numa monarquia, constituiria um feito científico extraordinário. Falo, naturalmente, do novo e admirável homo socraticus, o extraordinário Valter-Lello. A união num único ser das qualidades de Valter Lemos e das competências de José Lello. Um avanço fabuloso que evoca a natureza (recordo o cruzamento de uma cavalgadura com um jumento, pelo qual se obtém uma mula) mas que pressupõe a mais sofisticada engenharia, área em que, como se sabe, Sócrates é superiormente versado. É certo que Lello e Lemos, só por si, constituem já fenómenos da natureza. Mas, imagine-se agora o que seria, mais que o cruzamento, a confluência, num único ser, das principais características de um e de outro. De Valter, o cabelo, o olhar mortiço, o arrastamento vocabular, a destreza estatística, a calma seráfica perante todo e qualquer cataclismo (já estava previsto, diria ele impávido e sereno), um ou outro casaco castanho, outro de xadrêz, duas ou três gravatas, uma das quais com aqueles motivos que parecem feijões, e o conhecimento do Portugal profundo próprio de um homem com percurso feito nas beiras, quando não nos cantos e nos vãos de escada. De Lello, os connects, os olhos míopes, brilhantes pela antevisão da próxima tolice, o deslumbramento no apoio ao líder, o discurso tão tonto quanto inflamado, tão oco quanto entusiasmado, um ou outro fato comprado nos Armazéns Marques Soares, a finíssima camada de verniz cultural adquirida por esse mundo fora, eu que sei, em recepções, eventos e, sobretudo et pour cause, em vernissages, e, last but not the list (pois que a lista seria interminável), o gosto por uma boa taça de champanhe italiano. Um futuro extraordinário, como se vê. Um único líder e um exército de milhões de Valter-Lellos para o acompanhar. Esta é exacta dimensão do que se vai perder. E é pena, porque estou convencido que mais uns tempitos e chegávamos mesmo lá.

22 comentários em “Valter-Lello: o admirável homo socraticus”

  1. Excelente, dou-lhe o meus parabéns, nos dias de hoje, o sentido de humor, ainda nos vai safando, das tristezas socráticas e da sua seita.

  2. Rui,

    Excelente texto.

    Quanto ao mais, olha que há várias outras duplas que não andam longe dessa (pela qual, como sabes, nutro uma imensa “ternura”):

    a) Relvas/Marco António;
    b) Marco António/Montenegro;
    c) Montenegro/Guilherme Silva;
    d) Guilherme Silva/Mendes Bota;
    e) Mendes Bota/L F Menezes

    Não vale a pena continuar. Ao “nacional-porreirismo” seguir-se-á o “nacional-parolismo” (o Quim Bareiros, ainda que pago, já lá está). Estou certo que matéria-prima não te irá faltar nos próximos tempos.

    1. Eu sei, Sérgio. Em princípio, teremos tempo nos próximos anos para lhes dedicar mais atenção. Sei que estarás nos primeiros lugares para os vergastar. E eu conto estar bem próximo de ti.

    1. Tenha santa paciência, mas é absolutamente imperdoável o esquecimento desse espécime acabado de inteligência sublime e dedicação canina, Santos Silva de sua graça.
      Como haveria de o esquecer?
      Sim, diga lá.
      Então não malhou o suficiente?
      Sugiro refazer o texto para acolher tão extraordinário contributo para o retrato.

          1. ” Mais burro que o burro, só aquele que pensa que o burro é burro”

            “Às vezes é bom passar como burro para ver a ignorancia do proximo”

            Boas pastagens meu caro equideo… “Roxo”

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