A semana em que Sócrates perdeu as eleições


Rui Rocha,

Um grande número de comentadores da coisa política veio a público ostentar proféticas barbas. Uns, cofiaram-nas com incontido entusiasmo. Outros, arrancaram-nas. Em qualquer caso, o crescimento dos filamentos barbudos deveu-se à consulta de uma bola de cristal em que, a partir de sondagens de que resulta um empate técnico entre PS e PSD, viram claramente uma vitória de Sócrates nas próximas eleições. Creio, todavia, que estão enganados. É verdade que a campanha do PSD tem demonstrado demasiados pontos fracos e impreparação. E é provável que a falta de consistência se mantenha. Todavia, esta foi precisamente a semana em que Sócrates perdeu as eleições. Explico. A proposta política de Sócrates assentou exclusivamente, ao longo de meses e meses de desvario, no medo do FMI e na imputação de responsabilidade ao PSD por ter chumbado o PEC IV. O argumento do medo foi a enterrar, pela mão do próprio Sócrates, quando deu a conhecer, com entusiasmo,  os termos em que (não) foi negociado o acordo de ajuda externa. Por sua vez, a encomenda da alma do argumento da irresponsabilidade do PSD foi feita pelo representante da Comissão Europeia na Troika quando afirmou que o atraso no pedido de ajuda foi prejudicial a Portugal. As perguntas essenciais sobre o passado recente estão agora respondidas. O responsável pela governação que nos trouxe até aqui foi José Sócrates. O chumbo do PEC IV não foi uma irresponsabilidade. Pelo contrário, forçou um pedido de ajuda externa que deveria ter acontecido mais cedo. E deu origem a um programa de reestruturação que justificou o entusiasmo do próprio Sócrates. Ao ainda Primeiro-Ministro não restam mais argumentos. Na falta deles, a sua campanha eleitoral vai ser a de um animal político. Em fuga. E não bastará a Sócrates esconder-se atrás dos arbustos da máquina de propaganda socialista. Neste momento, já nem uma floresta permite ocultar a sua evidente responsabilidade. Pessoal e intransmissível.

16 comentários em “A semana em que Sócrates perdeu as eleições”

  1. Pois é, Rui. Eu também penso assim! Receio é que haja uma maioria que não queira ou não saiba pensar… E receio que, ironia das ironias, andemos por aqui uns tantos a fazer de Sócrates do país das maravilhas: a puxar por um país que não existe. Com uma diferença: nós queremos mesmo que ele exista, não queremos enganar ninguém!

  2. Esta euforia socretina, apesar de tudo esconde algumas leituras importantes que podem e devem ser feitas aos resultados destas sondagens. Por um lado há 30 e tal% que ou estão indecisos, ou que não quiseram responder aos inqueritos. Por outro, e isto é muito importante para quem quer ir votar e está indeciso ou não quis responder, 74% pensam que o governo é mau ou muito mau. Tambem concordo que o PS atingiu o seu score maximo.
    Por isso, é importante que o PSD deixe de fazer e dizer asneiras, e fale a uma só voz. Passos Coelho, ontem fez bem em separar as águas: com o PS, NÃO. Situações como a relatada mais acima a proposito das PPPs, vão continuar a surgir. Pode ser que façam arrebitar as orelhas a tanta gente que ainda não viu o obvio.
    Ontem o Presidente da Republica disse claramente e para quem quis entender, que temos de mudar de governo; hoje foi Antonio Barreto. Mario Soares, embora timidamente, tambem anda nos jornais a culpar o Socrates. Balsemão certamente com problemas de consciencia, tambem já falou no mesmo sentido. Espero que muitos outros que têm estado calados, e com peso na sociedade portuguesa, comecem tambem a chamar os bois pelos nomes e indicar a porta de saida ao Socrates. Isto não está para aventuras.

  3. Se não tinham descoberto até agora não é por causa disto que vão descobrir.
    Lamento o partido estado que o PSD ajudou a construir é muito grande.

      1. Se “muitos são sensíveis ao argumento do medo”, porque raio anda o Catroga a dizer que o PSD vai ser mais “radical” que a troika? Depois não se queixem.

  4. Eu subscrevo esta opinião e acho estranho que tanta gente aqui na Blogosfera tenha entrado em depressão por causa de sondagens (mesmo que acreditemos nelas).

    A estratégia socrática passava por repetir a estratégia de à 2 anos onde ultrapassou o PSD nas ultimas semanas, graças à ‘brincadeira das escutas’ e aos erros de MFL.

    Por muita burrice que o PSD já tenha feito nestes últimos tempos e o Leite de Campos tem feito os possiveis por aumentar a desgraça todos os dias o PPC não repetiu o maior erro da Dra. Manuela. Ela perdeu as eleições para o aldrabão, para o mau carácter quando escolheu as listas para deputados. Querer fazer crer que o Sócrates era do piorio (e era) e depois escolher dois arguidos em processo de corrupção para a lista de Lisboa é um suicídio politico que não é comparável à parvoice de convidar um ‘crente em ETs’ para Lisboa e uma criatura insuportável para Viana do Castelo.

    Sócrates bem pode ir arrumando a secretária de S. Bento (a do Largo do Rato também que depois da derrota não faltarão socialistas iluminados a dizer que já tinham avisado)

    1. Exacto, Carlos Alberto. Um nadinha de bom senso por parte do PSD e Sócrates vai jogar ao arco. Quanto a Leite de Campos, se Sócrates pudesse partilhar onde escondeu Teixeira dos Santos…

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