Caminhar sobre as águas e outros milagres (1)


Rui Rocha,

Imagino-te, José Pinto de Sousa, envergando brancas vestes, costuradas pelo próprio Armani para a ocasião, arregaçadas até aos joelhos. Assim estarás, banhando os pés, liberados de unhas encravadas e calosidades por um técnico superior em podologia com curto mas profícuo percurso académico devidamente certificado pelas Novas Oportunidades, nas águas límpidas de um rio sagrado. Atrás de ti, uma oliveira milenar. Dela recolherás um único ramo que levantarás como bandeira com a mão direita, essa que usas para afagar o Estado Social, já manicurada por um técnico superior com curto mas profícuo percurso académico devidamente certificado pelas Novas Oportunidades. No teu braço esquerdo, esse que um técnico superior com curto mas profícuo percurso académico devidamente certificado pelas Novas Oportunidades está a tentar recuperar, pousará uma pomba branca. Os teus olhos brilharão. Queres a paz, queres dar-nos a tua paz. Olharás uns momentos para o rio e virão à tua memória as vozes do radicalismo ideológico. Todavia, também para esses desejas a paz, queres dar-lhes a tua paz. No rio correrão as Águas de Portugal. Caminharás sobre elas, mas não te molharás acima do joelho, posto que apenas até essa altura decidiste banhar-te, tal como noutros tempos decidiste aumentar o nível da dívida. Na tua mão esquerda, aquela que usas para acenar, na tua infinita benevolência, aos interesses da direita, segurarás uma sagrada escritura: o texto em que gravaste a tua palavra, esse repositório último da verdade, e que enviaste aos três cavaleiros do apocalipse. Ali te comprometeste a baixar a TSU de forma significativa, já em 2012, compensando as perdas de receita com alterações na estrutura dos impostos. Também este texto sagrado não se molhará, ainda que decidas submergi-lo na pureza das águas. (continua no próximo post)

2 comentários em “Caminhar sobre as águas e outros milagres (1)”

  1. Sócrates com 20% ultrapassa Manuel Alegre.

    Serão todos os fanáticos e todos os boys.

    Esperemos que Sócrates não exija a paga pelo apoio ao casamento homosexual nem aos utilizadores das novas oportunidades.

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