Caminhar sobre as águas e outros milagres (2)


Rui Rocha,

(continuação)

Chegado à outra margem, os teus pés, como acontece há já mais de 6 anos, não tocarão o chão. Aproximar-se-á de ti teu súbdito Valter Lemos, às arrecuas e com o nariz apartado do solo não mais que três cêntímetros, dobrado em aparatosa vénia. Trago-te testemunhos, Mestre. Dize-me, meu encaracolado Valter, que testemunhos são esses, perguntarás, com a ternura e a comiseração que sempre dedicaste aos simples. Testemunhos de satisfação, Mestre, com a Vossa obra nas Novas Oportunidades. Ah, meu curvado Valter, tempos de espanto estes em que os milagres não duplicam os pães, antes fazem proliferar os diplomas que matam uma outra fome, porventura mais básica. Aproveitando que falais de fome, dirá Valter e a sua voz será trémula, aqui trago também as estatísticas do desemprego. Nada temas, meu genuflectido Valter, sussurrarás e a estas palavras o coração de Valter se acalmará, enquanto as próprias Águas de Portugal, por momentos revoltosas, voltarão ao leito, mansas e lentas na tarde calma. Desconhecendo qualquer método, como desconheces, meu atoleimado Valter, como posso pretender que compreendas as profundas implicações da sua alteração? Serão então, mais ou menos, cinco menos sete da tarde. Os teus pés, algo molhados posto que deliberaste banhar-te até ao joelho, começarão a afastar-se ainda mais do solo. Quereis, Mestre, que me descurve para vos segurar os pés, tal como fez Vosso servo, agora proscrito, Teixeira dos Santos, no fatídico dia em que escreveu ao Jornal de Negócios dizendo, com evidente premeditação, má-fé e desapego da realidade que precisáveis de ajuda externa? Comove-me o teu desvelo, responderás ao prostrado Valter, tanto como me surpreende a tua inusitada fluência e coordenação linguística, a qual só posso imputar à frequência do módulo de solução de sopas de letras no programa de Novas Oportunidades no qual, para teu exclusivo benefício, ordenei que te inscrevesses. Mantém-te todavia assim, dir-lhe-ás ainda antes de flutuares pelo espaço sideral até te sentares no teu trono, à direita do pai de Napoleão Bonaparte, pois que a curvatura é a condição que te convém a ti, ao aparelho e aos barões do PS e o meu governo já há muito que não é deste mundo.

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