O ainda Primeiro-Ministro está indignado com as afirmações de Passos Colho sobre as Novas Oportunidades. A este propósito, importa recordar que o líder do PSD defendeu a importância de assegurar às pessoas uma segunda oportunidade formativa. E que a crítica se dirigiu não ao conceito, mas à sua concretização. Ou seja, Passos Coelho defendeu a requalificação, mas criticou a certificação da ignorância. Ora, esta é uma discussão fundamental, não apenas no contexto das Novas Oportunidades, mas sobretudo ao nível dos sistema educativo e de formação globalmente considerados. Os jovens estão actualmente à rasca por vários motivos. Uns são de natureza conjuntural. Outros relacionam-se com aspectos estruturais. A actual crise económica limita drasticamente o acesso ao emprego. Mas, mesmo em período de expansão económica, persistiria uma grave ineficiência na relação entre a formação e o mundo do trabalho. Sejamos claros. Diz-se que a geração que agora tenta entrar no mercado de trabalho é a mais qualificada de sempre. Desde logo, existe aqui alguma confusão entre certificação e qualificação. A certificação será de nível mais alto do que antes (licenciatura, 12ª ano,…). Mas, estarão as pessoas realmente melhor qualificadas? Por outro lado, o tipo de certificação e de qualificação obtidos não são indiferentes. Importa perceber em que é que as pessoas são certificadas e para que áreas adquiriram qualificação. Não é a mesma coisa, do ponto de vista do acesso ao mercado de trabalho, ser-se licenciado em Geografia ou em Engenharia de Telecomunicações. Eu, que sou licenciado em Direito, tenho a plena noção que o país formou demasiadas pessoas em cursos como o meu, ou em Geografia e História ou Relações Internacionais, e pessoas a menos em áreas científicas. E que há certificações (e até qualificações) que são um passaporte para o desemprego. A chamada geração à rasca não será necessariamente uma geração perdida. Todavia, para que possa ser melhor aproveitada, terá que aceitar-se uma grande mobilidade (geográfica, funcional) e apostar-se na requalificação. Sim, há licenciaturas que, do ponto de vista do mercado, não servem para nada. As pessoas que as obtiveram vão precisar de apostar na reconversão e aquisição de novas competências. E é uma responsabilidade do Estado apoiá-las. Tudo isto para dizer que a aposta numa segunda oportunidade é fundamental. Importa, todavia, perceber que essas oportunidades não podem ter apenas finalidades estatísticas ou constituir meros afagos ao ego de quem as frequenta. Tais objectivos podem até ser atendíveis, mas devem para além de tudo promover-se novas qualificações úteis e desejadas no mercado de trabalho e obtidas através de sistemas de certificação exigentes e credíveis. A ideia que hoje existe nas empresas é que o programa Novas Oportunidades não responde a nenhum destes critérios. E estou certo que a sua avaliação rigorosa, para lá da propaganda, não resisitiria a um teste definitivo. O de saber quantas pessoas mudaram para melhor ou obtiveram emprego como razão directa da frequência de um desses programas.
Oportunidades, certificação e qualificação
Rui Rocha,

“O ainda Primeiro-Ministro está indignado com as afirmações de Passos Colho sobre as Novas Oportunidades.”
Eu já não me atrevo a perguntar outra vez se é de propósito… 😉
Todavia, a pergunta é bem pertinente, IsabelPS…
Equacionas, e bem, as questões essenciais. Por isso, quanto ao essencial também estou de acordo contigo.
Já quanto ao que dizes relativamente à crítica feita por Passos Coelho, não posso sorry ) estar de acordo. É puro oportunismo.
Há coisas que não estão bem, e eu próprio, que sempre lutei contra cursos e licenciados de aviário, como são os de alguns dos que mandam neste país e agora acompanham Passos Coelho na sua cruzada, reconheço isso.
O que ele disse, vindo de quem vem, que se não tivesse tido variadíssimas oportunidades, à custa da política e das suas amizades, ainda hoje estaria provavelmente à procura de emprego, não tem sentido.
Sim, porque como sabes quando um tipo se licencia aos 35 ou aos 40 anos, não é bem a mesma coisa que quando se acaba aos 22 ou 23.
E só há duas espécies de pessoas que o conseguem fazer com essas idades: a) os que à custa de muito esforço foram trabalhadores-estudantes e tentaram melhorar a sua vida a partir do emprego onde já estavam, conquistando a sua segunda oportunidade à custa de sangue, suor e lágrimas; b) os que se puderam permitir a esse “luxo” porque em determinada altura da vida concluiram que lhes dava jeito o canudo para voos mais altos (na política e nos negócios).
Além de que é um luxo ser deputado durante uma data de anos e depois poder ir acabar o curso com a certeza de que se terá sempre emprego, estratégia aliás seguida por alguns que não precisavam de estudar para ganhar a vida e andaram a brincar aos políticos durante décadas.
Coelho quer ser primeiro-ministro e até pode ter quem o ajude a lá chegar, como teve quem o ajudasse a arranjar trabalho, só que insiste em ir pelo pior caminho.
E até 5 de Junho ainda muita água vai correr.
Percebo o que dizes, Sérgio. E não questiono a pertinência do teu argumento. O ponto é que, neste momento, tenho dificuldade encontrar posições políticas, da esquerda à direita, que sobreviva ao crivo do oportunismo.
Parece-me, a mim, que a questão da formação, sobretudo a universitária, é um pouco mais complexa (coisas de gente de “ciências” sociais). Se de um modo geral concordo com os comentários relativos à impreparação certificada (se discordar, será para ser ainda mais duro na crítica), já discordo com a ideia implícita (ou talvez explícita) que parece querer sugerir que o ensino universitário se deve reger essencialmente pela vertente “empregabilidade”.
Sendo certo que essa é, na sociedade de hoje, uma dimensão de relevo, penso que uma cedência à ideia de que só os cursos que garantem emprego devem ter futuro é uma tragédia civilizacional e, inclusivamente, económica.
Não vou fazer aqui a defesa do óbvio (a de que as ciências que estudam, explicam e interpretam o humano são centrais na organização de uma sociedade humana). Vou apenas lembrar as funções de uma Universidade, que não deve ser confundida com um qualquer organismo de especialização profissional.
Como dizia Fernando Gil, num texto notável mas pouco equilibrado (talvez deliberadamente, para compensar), o Ensino Universitário tem dois níveis: o de formar para a Filosofia (metáfora para conhecimento) e para a empregabilidade fundamentada. Esta última é regulada pela conjuntura mercado da dinâmica social. A outra por algo mais estrutural, de dimensão “patrimonial”: a produção de saber como património da humanidade e que, quando menos se espera, se torna funcional: orientando o mundo e a sua humanidade.
A Universidade tem que se equilibrar entre estes dois desígnios. Ceder a um, qualquer que ele seja, é desvirtuar-se e tornar-se cancerisna.
Se o problema são certos cursos terem maus professores, que não sabem formar bons alunos que saibam introduzir as mais valias das suas áreas de formação na sua vivência social (onde se inclui a profissional), então que se varram os professores, não as áreas de saber. Se as Universidades forma mal e certificam ainda pior, isso é um problema dos seus meios humanos, não da importância social das respectivas áreas do saber. Não há humano sem memória, sem ética, sem moral, sem paisagem, sem relações entre indivíduos, ou seja, não há sociedade desenvolvida sem História, Antropologia, Filosofia, Geografia, Direito, Sociologia. Essa é, diga-se nestes tempos de tecnocracia, a garantia destas áreas disciplinares: é que serão sempre importantes, mesmo na clandestinidade, enquanto andarem Homens por aí.
António, concordo com o que refere. O post já ia longo e tive que optar por algumas simplificações. Tem razão quando refere que a empregabilidade não pode ser o único critério no ensino universitário. O que me parece é que, se olharmos aos últimos anos, a orientação tem sido maciçamente para a “desempregabilidade”. E essa falta de sentido “prático” é tão condenável como a exclusiva orientação para o critério de empregabilidade.
as novas oportunidades poderiam ser de facto algo importantes se tivessem mesmo um carácter educativo e formativo, para além de atribuirem diplomas e ilusões, Rui.
além disso produzem situações de grande desigualdade, para quem estuda no ensino normal.
é sério em meia dúzia de meses alguém passar da quarta classe para o nono ano? ou do nono para o décimo segundo?
o giro é esta gente perante estas facilidades começam logo a pensar na universidade (conheço alguns casos), mesmo sem a moderna e a independente, está aqui um negócio que promete.
Exacto, Luís. O problema é que, nos tempos que correm, as ilusões estão muito caras.
Eu trabalho numa escola profissional no interior do País. Vejo alunos (por exemplo de um curso de Design) que mal sabem escrever, manter um discurso objectivo ou fazer contas elementares da tabuada tirar notas elevadas a História de Arte (muitas vezes com trabalhos que não passam de uns recortes colados em cartolina e afixados nas paredes da Escola), 18 a Geometria Descritiva (!!), e coisas do género. E isto não são excepções. É a norma. Não custa muito imaginar o que se passa nas Novas Oportunidades.
Creio que todos nós temos uma ideia do que são as NO. Uma coisa é certa: na melhor das hipóteses, certificam competências. Mas, não contribuem para a necessária qualificação e reconversão das pessoas.
Caro Rui,
Estamos, pois, de acordo. Apenas acrescentaria que aquilo que apelida de formação para a “desempregabilidade” se traduz também numa prática para a empregabilidade… de docentes incompetentes. Como alguém me referia hoje, a propósito de outras coisas, há por agora umas notáveis “oligarquias democráticas”.
Cumprimentos.
Em que ferida acabou de colocar o dedo, António!
“Ignorância certificada”
A certificação da ignorância
É um milagre da estatística
Como principal característica
Vais certificar em abundância
Um ignorante com certificado
Engrossa a estatística do país
E do mesmo agora já se diz
Que é um país muito letrado
Para confirmar este estatuto
Ouvem-se agora em campanha
Grandes profetas da patranha
Que vendem bem o seu produto
Já que um ignorante não estranha
Um outro ignorante mais astuto.
Com papas e bolos…
“Comam bolos”
Com oito letrinhas apenas
Escrevo a palavra Portugal
São oito séculos de historial
O pior são as últimas cenas
Da CEE vieram uns milhões
Chegou a crise internacional
Onde está o dinheiro afinal?
Aplicado na terra de Camões
Em betão e em belas estradas
Algumas já estão esburacadas
Pescar e semear é pr’os tolos
Não há peixe, comam empadas
Com o chá em vez de torradas
Se não há trigo, comam bolos.