Ferro em brasa


Rui Rocha,

Ferro Rodrigues está de regresso. E ao que parece, em grande forma. A entrevista que ontem deu à RTP1 teve mesmo alguns momentos geniais. Político sagaz, Ferro entende que deve ser celebrado um acordo pós-eleitoral para permitir uma maioria  forte no parlamento. Todavia, a original proposta não se fica por aqui. A análise da complexa situação política actual obriga-nos a ir mais longe. E Ferro ajuda-nos: “o acordo não se pode fazer à esquerda do PS”. E Ferro também nos explica o motivo: “os partidos de extrema-esquerda mais não fizeram do que colaborar com a direita em relação à queda do governo”. Ora, diz o leitor atento, se os que estão à esquerda do PS não podem fazer parte do acordo por apoiarem os da direita, por maioria de razão estes últimos também não o podem fazer. E diz bem. O que, adentrando as profundezas do pensamento de Ferro (não tema leitor, vai ver que não dói nada), nos levará a concluir por uma de duas. Ou pretende um acordo alargado do PS consigo próprio, por exclusão de todos os demais partidos nos termos do critério enunciado, ou tem em vista uma plataforma de governação da qual exclui antecipadamente o PS. Aqui chegados, concordará o leitor que, face ao brilhantismo do raciocínio de que Ferro sempre deu mostras, a primeira hipótese deve ser excluída por ser uma acabada idiotice. Resta-nos assim a segunda, conclusão a que devemos chegar já com o chapéu na mão para saudar a fantástica visão política e, porque não dizê-lo, a honestidade de Ferro. Ciente de que o PS não merece continuar a governar, não hesita em afirmá-lo, apesar de ser o cabeça-de-lista do partido por Lisboa. O Futre que me desculpe, mas esta é verdadeiramente a cueca do século. E Sócrates deve ter ficado com os olhos em bico e os pés trocados. Exemplos de cidadania deste calibre, reconheça-se e lamente-se, há poucos na pobre democracia portuguesa. Mas, se virmos bem, outra coisa não seria de esperar de quem afirmou, na mesma entrevista, que o importante é “olhar para o futuro que aí vem”. Uma boa sugestão para mim e para si, leitor, que passámos a vida a olhar para o futuro que já veio. E que não volta mais.

16 comentários em “Ferro em brasa”

    1. Exactamente, José. Mas, temos que compreender que Ferro estava em Paris “com o bichinho da política a morder sem poder intervir”. E que “a água não passa por baixo da ponte duas vezes”.

  1. Você é que não está a ver bem a coisa, Rui.
    Ferro sempre aliou ao manifesto encanto pessoal uma inultrapassável profundidade de pensamento. Um e outra, aliás, originaram a inveja de Sampaio, que lamentavelmente o impediu de ser PM de Portugal…
    Merece, por isso, representar os lisboetas no Parlamento, onde certamente actuará com tanto brilho como o que tem vindo a alardear nos corredores da Unesco.

  2. Lata…amolgada….de…carica…..de…..pirolito. Para colecção, ou reciclagem em prensa por gravidade.

  3. E pensar que Lisboa já foi a Capital de um Império… agora tem Ferro e Nobre como cabeças de lista.

    Se isto não é demonstrativo da ‘Queda do Império’ não sei o que será!

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