A Semana Santa em Braga


Rui Rocha,

Por esta hora, em Braga, aguarda-se a grande decisão. Não se trata, por agora, de saber quem será o novo Primeiro-Ministro. Para isso, lá chegará o tempo, e atrás de dias, dias virão. Assim se mantenha o rendimento mínimo, que o resto, com a ajuda de Deus e a boa vontade de uma ou outra biscatada, sempre se arranjará. Pelo sim, pelo não, será melhor votar no Socas que com ele, honra seja feita, nunca faltou nada a quem soubesse meter os papéis.  Em tudo isto vai pensando o Tone da Micas e, convenhamos, não é pouco. Pois é exactamente por esta capacidade de antecipar o futuro e determinar as acções em função dele que o Homem, seja ele o Tone da Micas ou a Rosa da Russa (que sendo mulher se inclui na categoria de homem se este se escrever com agá grande) se distinguem de outros seres da criação. Deus seja louvado. Os mais atentos saberão que o Tone tem andado aos tordos, ali para os lados de Frossos. Que, para quem não sabe, fica mais propriamente abaixo de Braga dois a três quilómetros. Longe vão os trabalhos de servente na construção civil. Entre chegar massa e ir buscar umas minis para enganar a sede, um gajo chegava à noite derreado. Abençoado, que a vida é agora mais leve. Não fosse o cabrão do Pinto da Costa… Enfim, que se lixe a bola que o programa para hoje é diferente. As horas hão-de passar e o ansiado momento acabará por chegar. Sairá ou não a procissão, eis a questão. Sairá se não chover. O ano passado não saiu. Ou foi no ano anterior. O tempo estava morrinhento e o Bispo não se quis molhar. Bem, se não saiu, nem tudo se perdeu. O Tone lembra-se bem de ter recebido os 25 euros que desde há uns anos são pagos aos farricocos e que a preços de hoje são mais que suficientes para despertar vocações. Queira Deus que saia. Um gajo tem direito aos seus momentos de fama. E os do Tone acontecem todos os anos na procissão do Ecce Homo. De reco-reco na mão, pés descalços, e encapuçado a preceito, os seus olhos hão-de fitar, em triunfo, a cidade vestida de roxo, as varandas com estandartes e cada um dos crentes que se acotovelam nas ruas da cidade velha. Tanto galego, carago. Pelo menos estes não hão-de deitar cigarros acesos para o chão, um teste à fé e à compustura dos farricocos muito apreciado por alguns locais. A Sameirinho e o Nel, que são respectivamente a consorte e o herdeiro do Tone, fica a saber o leitor mais desatento, esperarão para o ver passar ali mesmo defronte dos bombeiros. E o Tone, como acontece sempre que a procissão sai, recordará aquela tarde em que perguntou ao Nel quem matou Jesus. Filhos da Puta, pai. Esta juventude nova de agora… Entretanto, lá fora, o tempo está qualquer. Que se faça então a vontade de Deus, assim em Braga como no céu.

11 comentários em “A Semana Santa em Braga”

  1. Pois então que não chova. Que a procissão saia e que se cumpram os desígnios do Tone.
    E que o Rui tenha uma boa Páscoa. Em Braga, claro, que o Algarve nesta altura é para os parolos que gostam de ver o sol por um canudo!

  2. Ora aproveitemos para rezar (e muito) para que não nos volte a sair na rifa o Sr. engenheiro Le Corbusier D’Ó da Guarde, senão desconfio bem que os próximos figurantes da procissão em vez do Tone vamos ser nós e com uma cruz às costas do tamanho do cristo rei. Olhe bem o que lhe digo.

    Ah, uma boa páscoa para si também, e para o Delito, pois claro!

  3. Excelente crónica em jeito de reportagem, Rui. Com uma escrita elegante mas também impressionista que nos leva a ‘ver’ as cenas que tão bem descreves. Com chuva ou sem ela, gostava eu também de andar por aí numa altura destas.

  4. E a procissão saiu. Os que assistiam, como de costume, eram aos milhares. Braga está de parabéns!
    Desconhecia em absoluto a “retribuição” dos 25 euros para os farricocos (…) Sempre os admirei pelo seu voluntarismo e supus que muitas constipações teriam origem naquelas caminhadas de pé descalço. Depois desta sua informação, a minha consciência fica mais tranquila, porque 25 euros sempre darão para comprar um antibiótico. Ou não? Bem… as comparticipações têm diminuído, mas talvez ainda dê para o genérico!

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