“Passos Coelho é uma pessoa bem-intencionada com quem se pode falar”


Rui Rocha,

A entrevista de Mário Soares hoje publicada no i constitui uma intervenção política de profundo significado. É certo que Mário Soares não rompe deliberadamente nenhuma das amarras que o liga ao seu percurso de histórico socialista. A prová-lo aí temos um desejo de uma vitória socialista nas próximas eleições e uma leitura sobre as consequências do chumbo do PEC 4 contraditória com aquilo que ele próprio escreveu, ainda a quente,  logo que foi desencadeada a crise. Na altura, recorde-se, Soares atribuiu a responsabilidade a Sócrates, falando de um erro que este iria pagar caro. Todavia, a chave de leitura da entrevista está na afirmação de que “Passos Coelho é uma pessoa bem-intencionada com quem se pode falar”. A mensagem fundamental de Soares é a necessidade de entendimento alargado como única forma de superar a actual crise. Ao longo da entrevista, são recorrentes os elogios a Mota Pinto (a preparação académica, a atitude, o sentido de estado) com o claro propósito de oferecer ao país e aos políticos o exemplo da relação de confiança que o próprio Soares e o antigo líder do PSD estabeleceram. Soares não quis, embora pudesse, dizer mais. Mas, também não é preciso. Se o país tem necessidade urgente de entendimento, se Passos Coelho tem as características que Soares lhe atribui e se sobre Sócrates não é dita uma única palavra nesse sentido, não é difícil perceber quem é, na avaliação de Mário Soares, o responsável pelo bloqueio. Depois das palavras de Freitas do Amaral, mais cruas e directas, a crítica implícita na entrevista de Mário Soares tem José Sócrates como destinatário evidente.

21 comentários em ““Passos Coelho é uma pessoa bem-intencionada com quem se pode falar””

  1. Certíssima avaliação, Rui. Acrescento apenas que isto ocorre poucos dias após Soares se ter deslocado à sede do PSD, o que fez pela primeira vez desde meados da década de 80. Nada disto é por acaso. Acrescento ainda que o PS tem muita sorte em poder contar ainda com Soares como figura activa de referência. Infelizmente, do lado do PSD praticamente só vemos movimentações contrárias: não há nenhum Soares entre os sociais-democratas. Pelo contrário, vemos e ouvimos ex-líderes a disparar dia-sim-dia-sim contra o actual líder e com um discurso que incentiva a divergência pós-5 de Junho em vez da convergência.
    Boa Páscoa.

    1. São vergonhosas tais atitudes de ex-líderes do PSD. Não porque não tenham direito à sua própria opinião, naturalmente, mas antes porque a maioria das suas intervenções e comentários soa a “dor de cotovelo” e birra – “se eu não posso (ou não pude) chegar ao poder, o Passos também não pode”!

      Serão eles verdadeiros social-democratas? Ainda se preocupam com o seu partido?

      E aonde fica o interesse nacional, no meio disto tudo?

      Cumprimentos, caros Pedro Correia, Rui Rocha, João Carvalho e todos os demais e … Boa Páscoa.

      1. Tem toda a razão, Adão. A crítica, que pode ser pertinente e construtiva, perde qualquer sentido quando resulta apenas de dor de cotovelo. Retribuo os votos de boa Páscoa.

    2. Concordo apenas parcialmente com a análise. Acho que o passo de Soares é uma forma de contribuir para um governo ao centro (PS+PSD), assim tentando que o PS não seja varrido do mapa.

    3. E anda por aí um tal de Santana (que, um dia, foi PM, imagine-se!) a debitar disparates, na mira de vir, dentro de cinco anos, instalar-se em Belém…
      Só neste país… Onde mais é que, em democracia, a comunicação social responsável daria uma linha (ou um segundo) a tão triste figura?

  2. Em relação ao Dr. Mário Soares tenho sempre tendência para desconfiar. Se ele compara PPC ao Dr. Mota Pinto não é muito bom para o PPC pois, o Dr. Mota Pinto não foi o primeiro-ministro desse governo.

    A intenção do Dr. Soares poderá ser: Podem eleger o Sócrates à vontade que o governo de salvação faz-se na mesma com o PSD pois o “Coelho é fixe”.

    1. É uma leitura possível, Carlos Alberto. Mas, considero o silêncio sobre Sócrates muito significativa. Todas as referências passam ao lado do líder socialista.

  3. Sócrates, o tolo do volante não respeita qualquer tipo de sinalização. Naquela cabeça de chocalho qualquer amarelo, vermelho ou sonoro está programado para livre verde-tinto .

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