Reflexões pré-eleitorais (2)


Rui Rocha,

Não sou um entusiasta de Fernando Nobre. Não votei nele nas presidenciais. Não me agradou o tipo de  campanha que fez. Creio mesmo que teve momentos bastante infelizes. Sou sensível à maior parte dos argumentos que têm sido utilizados para criticar a sua escolha como cabeça-de-lista do PSD em Lisboa. Parecem-me viáveis quer as críticas que se fazem à instabilidade política de Nobre quer as que, na óptica dos interesses do PSD, defendem a existência de outras alternativas ou salientam que a  opção não trará grandes benefícios eleitorais. Entretanto, tendo em conta a dimensão das reacções que já se produziram, creio que é oportuno sublinhar os seguintes pontos:

  • a opinião pública e os meios de comunicação social não têm para outros actores políticos a mesma tolerância que demonstraram para José Sócrates. Ainda bem que assim é. A bem dos interesses do país, o PSD deve perceber que existe uma diferença profunda entre alternativa e alterne. Esperemos, entretanto, que o grau de exigência seja aplicado em todas as direcções;

  • não vejo que Nobre seja mais incompatível com o PSD do que Alegre com o PS. Bem pelo contrário, tendo em conta a sucessão de posições antagónicas com os interesses do partido que Alegre protagonizou no passado recente;

  • José Sócrates foi aclamado pelo Congresso do PS quando afirmou que são os socialistas que escolhem o Secretário-Geral do partido. É preciso muita lata para certos dirigentes do PS virem agora criticar a escolha de Fernando Nobre pelo PSD. Não incluo na crítica, naturalmente, todos os que, sem vínculo ao aparelho socialista, se pronunciam com total legitimidade sobre a situação;

  • o ruído que o caso gerou é desproporcionado face à sua real importância. O esforço do país deveria ser investido na discussão da responsabilidade pela actual situação e na avaliação das propostas políticas para a superar. Nobre não foi parte do Governo anterior, nem será Ministro do próximo. A análise do valor intínseco dos diversos cabeças-de-lista dos vários partidos constituiria um exercício penoso em que Nobre não seria o pior colocado. O exercício da função de Presidente da Assembleia da República, se vier a concretizar-se, não parece escandaloso se tivermos em conta que foi o 3º candidato mais votado na eleição presidencial. Outros já a exerceram sem que alguma vez se tenham submetido a sufrágio directo.

16 comentários em “Reflexões pré-eleitorais (2)”

  1. Fernando Nobre descredibilizou-se irresponsavelmente , suplantando na abordagem á primeira curva o pouco crédito que resta aos partidos e aos políticos que já andava por aí muito mal parado . A novidade mais chocante é que o Dr. Nobre caiu ao primeiro sopro de chamamento ao aconchego de um mundo cão onde só podia ver e lamentar atropelos e indignidades. O que por si só não é grave a não ser para a reputação do próprio pelo suicídio fatal que praticou á nascença . O lado mais lamentável e mesmo inqualificável da atitude é que tal demonstração de falta de estatura e de respeito para consigo próprio desferiu um rude golpe em qualquer impulso de cidadania que possa vir a perfilar-se no horizonte. Péssimo serviço á causa que tanto badalou. Passos Coelho não pode continuar a oferecer trunfos ao desbarato a quem aproveita tudo e o seu contrário para manobrar e fazer render qualquer oferta e a qualquer preço. O que anunciou não é apenas um risco, só podendo ser entendido por autoflagelação induzida por conselheiros amigos da onça. O alto cargo de Presidente da AR pressupõe e deve ser entendido como ponto alto de uma meritória carreira política a merecer distinção consensual dos seus pares. As carreiras militares não se iniciam no posto de general. Atenção aos seus corpos e aos anticorpos com que se deixa brindar.

    1. Concordo genericamente consigo, Amarques. Não me desiludo com Nobre porque nunca estive iludido. E o PSD, se quiser, tem que arrepiar caminho. Só não gosto de ver o PS a atirar pedras como se não tivesse telhados de vidro. E não creio que o assunto mereça tanto alarido como o que lhe foi dado.

  2. Bom dia Rui.
    O problema de Nobre é “apenas” a falta de credibilidade. Então diz que se revê nas ideias do Bloco de Esquerda e passado pouco tempo “adere” ao PSD, que defende quase o contrário do Bloco? Então candidata-se contra Cavaco e agora aceita integrar a lista do partido que apoiou Cavaco? Diz que não aceitará (nunca) um cargo de nomeação político-partidário e, à primeira oferta e passado apenas um mês, aí está o tacho (ou pote, na linguagem corrente) à vista? Então diz que detesta os partidos e a politiquice e, segundo o seu director de campanha, Artur Pereira, aceitou porque o convite do PSD era para um cargo (presidente da AR)? Então como ficamos? Não haverá aqui, no mínimo, uma grave questão de coerência e credibilidade? Como podemos confiar numa pessoa que tens estes zigezagues todos? Como poderemos confiar na sua palavra, se, pouco tempo de jurar uma coisa, faz precisamente o contrário?
    Por isto, as reacções, nomeadamente no Facebook (se é um homem humilde e a favor da cidadania, não conseguiria “engolir” tantas críticas? Teve mesmo que fechar a conta?) e na blogosfera, são perfeitamente compreensíveis. Nobre disse ser de esquerda (ao identificar-se com as ideias do BE) e agora integra a lista de um partido que defende, neste momento, uma agenda claramente liberal, nos antípodas do que, supostamente, dizia defender.
    Quanto aos 4 pontos do Rui, apenas duas notas. A primeira é em forma de pergunta: Onde é que o Rui tem andado? Tolerância dos media para Sócrates? Deve estar a falar da Moura Guedes, do Mário Crespo, da Judite de Sousa, do Sol ou do Público do Zé Manel “Nuremberga” Fernandes, do Diário de Notícias que anda a fazer campanha por Passos Coelho desde que foi eleito presidente do partido, ou do Correio da Manhã certo? Sim, uma enorme tolerência? É só ver como o tratam e, por exemplo, tratam Cavaco para vermos, claramente, uma enorme tolerância…
    Segundo ponto. O quarto ponto do Rui demonstra uma total manipulação do que significa eleições legislativas. As eleições são para deputados, não presidente da AR ou para o governo. Aliás, o presidente da AR tem que ser escolhido pela maioria dos deputados, não pelos eleitores. E os deputados têm deveres especiais e votar em alguém que demonstrou no domingo não ter o mínimo de credibilidade é que deveria ser o ponto de discussão. Pois, como Nobre, teremos lá muitos, nas listas, sem o mínimo de competência e seriedada para exercerem os cargos, seja como deputados, seja, caso sejam designados, como governantes ou mesmo presidente da AR.
    Abraço.

    1. Viva, Ricardo. Penso que decorre do texto a crítica à vulnerabilidade política de Nobre. Desse ponto de vista, percebo as reacções de boa parte daqueles que o apoiaram. Quanto ao resto, reitero a minha afirmação sobre a tolerância aos desvarios de Sócrates. Onde andava, tirando meia-dúzia de vozes sempre apelidadas de apocalípticas, o escrutínio (sobretudo a partir de 2009 quando as medidas eleitoralistas tomadas começaram a desenhar o caminho do desastre final?). No que diz respeito ao último ponto, tive o cuidado de referir “se vier a concretizar-se”. E mantenho que Nobre, do ponto de vista da credibilidade, não é melhor nem pior do que muitos outros, sendo certo que, como muito bem refere, a decisão final será dos deputados (e, antes deles, dos eleitores).

  3. Caro Rui,

    O problema Dr Fernando Nobre é grave para o PSD. Perdão a manter o anonimato, mas eu mais 50 pessoas alertámos para o problema que ele era, durante o período pré-eleições presidenciais.
    Falamos de pessoas que iam do BE até ao CDS-PP , que não se reviam nos outros candidatos, que pensam pelas suas cabeças, e que independentemente das suas posições sócio-políticas , acreditam no debate de ideias, na cooperação (hoje trabalhamos juntos em acções de voluntariado social e cívico) e fundamentalmente nos princípios e na ética.
    O Sr Dr Fernando Nobre e o seu grupo perseguiu pessoas pelas ideias e opiniões expressas, utilizou procedimentos estalinistas maoistas , expulsou pessoas sem as ouvir, baseado em escritos nas páginas pessoais no Facebook

    Pode ler aqui a carta e ver as assinaturas:
    http:/ o-pior-e-o-melhor-de-matosinhos.blogspot.com /2011/04/carta-aberta-fernando-nobre.html

    A imprensa regional deu o devido destaque:
    http:/ http://www.maiahoje.pt /noticia.php?id=3907

    Faltas nossas? Por exemplo sermos contra ter-se usado uma foto do candidato em que aparecia de forma clara e distinta o símbolo da AMI. Achámos de pouco nível, e falta de inteligência destruir todo o goodwill existente com esta organização.

    Este homem não podia ser Presidente da República.
    Como poderá ser um mediador na Assembleia da República? Quanto a ser deputado é um problema dos eleitores, mas aí o partido deveria tê-lo colocá-lo numa posição de combate e trabalho para demonstrar o seu valor.

    Para nós não existem dois pesos ou duas medidas, mas se queremos mudar, é procurando do nosso lado não por em causa os valores, não interessa os outros, somos nós que temos de dar o exemplo, e não relativizar o comportamento de uma pessoa.

    Note que nós mais que por em causa os constantes zizagues e mudanças políticas do candidato, questionamos os seus princípios e carácter, ele não calou, ele consentiu, temos cópias dos seus comunicados no Facebook.

    Obrigado pelo espaço e promessa de não mais incomodar, só o estou fazer para exemplo à filha. Mais nenhum de nós busca “tacho”, sente que na coisa pública outra gente tem de aparecer e que respeita os princípios não se deve calar.

    1. CNortada, como compreenderá estas são questões sobre as quais não posso, nem devo pronunciar-me. A avaliação que faço do percurso de Fernando Nobre aponta para insconsistência e incoerência mas, naturalmente, confina-se às suas intervenções públicas.

      1. Agradeço a amável resposta.
        Não pretendia o seu comentário, ao enviar dados queria alertar para uma realidade que foi tentada ser silenciada.
        Resumidamente, o problema é o tipo de personalidade política que o Sr Dr Fernando Nobre tem, a minha crítica é à sua postura política, e ao que de perigoso ela poderá representar para um salutar funcionamento da Democracia, não será só o PSD a ter problemas, a seu tempo todos irão tê-los na Assembleia, num tempo que vai ter luta política acesa , mas que vai exigir consensos, criatividade e trabalho em equipa entre os vários intervenientes.
        De resto concordo consigo, os partidos e os seus dirigentes fazem as escolhas que muito bem entendem e que conseguem. Por elas respondem primeiro nas urnas perante os eleitores, depois pelo trabalho realizado no Parlamento no fim do ciclo político, e por fim nas eleições internas dos partidos.

    1. Poderá ser, Fernando. A discussão vale o que vale. Já viu quem é o candidato do PS a cabeça-de-lista por Lisboa? E o tema vale o ruído que se tem feito?

      1. Ainda vai tempo de se começar a falar nos podres de Ferro Rodrigues e a razão para se ter afastado da politica portuguesa.

        Além de que os nomes apresentados pelo PS para cabeças de listas em Lisboa e no Porto são nomes banais…..e o de Lisboa a meu ver é muito fraco. Nao é melhor que o voluntario Fernando Nobre. Nem na capacidade nem nos actos….

      2. O ruído é pouco. Em condições normais milhares de militantes do PSD deveriam entregar o seu cartão por esta traição da Direcção tal como os apoiantes de Nobre o fazem.
        Como isso não acontece é a demonstração que o PSD já não representa coisa alguma. Já não há vida lá dentro. É algo oco. Pode ser tudo e o seu contrário. O que aliás já não é novidade.

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