Não me façam rir


Rui Rocha,

Eu sei, eu sei. Este é um momento em que devíamos andar todos de cara fechada e lágrima ao canto do olho. Por isso, sinto que lhe devo, leitor, uma explicação por alguma gargalhada extemporânea que me possa ter ouvido nos últimos tempos. Penitencio-me, leitor. Mas, não prometo que consiga emendar-me. Que diabo! Todos temos as nossas fraquezas de carácter. E o leitor não pode exigir de mim a contenção de um Almeida Santos que é capaz de fazer um discurso destes em público sem se desmanchar. Eu, pela minha parte, há uns dias que não consigo parar de rir. A coisa começou quando José Sócrates e o seu governo ficaram em funções de gestão. Esta de colocar Sócrates e gestão na mesma frase é, como hei-de dizer, de ir ao fundo e voltar. Ou até de ficar por lá!. Melhor mesmo só ter colocado Sócrates e Teixeira dos Santos no mesmo governo. E chamar-lhe governo. E… Eheheh… hmmm…hmmm. Pois, peço desculpa. Pronto. Vamos então falar de coisas trágicas, para ver se me controlo um bocadinho. Por exemplo, esta questão do FMI é mesmo muito preocupante. O Ministro Santos Silva bem avisou que seria um suicídio não aprovar o PEC. Agora que a decisão está tomada, o PS quer continuar a governar, mesmo depois de Sócrates ter dito jamé. Uns patriotas, os socialistas. Já que nos vamos suicidar, querem ajudar-nos a fazê-lo em condições adequadas. E o PS acha que está mais bem preparado para isso que o PSD. É capaz de ser verdade. Estes são temas em que é preciso ter muito cuidado. Um passo em falso e ainda acontece uma desgraça. Vamos que a incompetência do PSD nos leva a morrer antes de nos suicidarmos. Ou… oh pá, esta é mesmo de morte, não é! Ehehehe… hmm.. hmmm. Pois, eu vou ali e volto já, está bem?!!!

A distância entre o Porto e Matosinhos


Rui Rocha,

MOMENTO 1

“Eu não estou disponível, da minha parte, para governar com o FMI”

Jose Sócrates, na apresentação da moção de recandidatura como secretário-geral do Partido Socialista (PS), no Porto, em 19 de Março de 2011.

A reacção dos militantes socialistas:

 

MOMENTO 2

Hoje, 8 de Abril, José Sócrates apresentará ao Congresso, em Matosinhos, a estratégia delineada para ganhar as eleições e governar com o FMI.

 

A reacção previsível dos militantes socialistas:

 

A diferença:

Obviamente, a distância que vai do Porto a Matosinhos.

Um Conselho Desastrado


Rui Rocha,

O Conselho de Estado é o órgão de consulta do Presidente da República. Espera-se dos seus membros que respeitem o papel que a democracia lhes destina e que actuem como reserva política da Nação. Embora a Constituição preveja a divulgação pública dos pareceres do Conselho de Estado, percebe-se que exista um perímetro de protecção do teor das discussões ali mantidas. Em resumo, supõe-se que na sala onde decorrem as reuniões do Conselho de Estado entrem Homens-Bons. E que cada um deles saiba entrar e calar. Ora, foi exactamente isso que não aconteceu no que diz respeito ao empréstimo intercalar. Primeiro, surgiu uma fuga de informação. Depois, na entrevista de ontem ao Primeiro-Ministro, a pergunta foi-lhe colocada. E José Sócrates devia ter-se recusado a responder, atendendo ao dever de reserva a que está obrigado. Um simples “não comento assuntos tratados em Conselho de Estado” teria bastado para matar a questão. Sobraria o rumor, mas a este, porque o era, não poderia ser atribuído qualquer valor. Todavia, Sócrates optou, mal, por negar que o assunto tivesse sido analisado. Cabe-lhe, por isso, a responsabilidade de ter aberto a discussão. Do ponto de vista da violação do sigilo, vale tanto afirmar a existência da discussão como negá-la. E foi Sócrates o primeiro a fazê-lo. A resposta de Bagão Félix poderá ser questionável, mas deve ser analisada no contexto do comportamento de Sócrates que a precedeu. O que se seguiu, já é conhecido. Até ao momento, três Conselheiros dizem que o assunto não esteve na mesa, dois dizem que sim e muitos outros continuam em silêncio. Pelo meio, um Conselheiro (o Primeiro-Ministro) foi acusado de mentir e outro de ser delator. Chegados a este ponto, não vejo outra possibilidade que não seja a divulgação do conteúdo da reunião. Manifestamente, alguns Conselheiros de Estado estão a mentir. A persistência da dúvida afecta irremediavelmente a respeitabilidade do órgão. A única possibilidade de a preservar é identificar os que estão a faltar à verdade. A esses não restará, a bem do que ainda resta da dignidade da Nação, outra alternativa que não seja renunciar ao cargo.

O seu nome é José. José Light. Very-light.


Rui Rocha,

Ao ouvir a entrevista de ontem de José Sócrates veio-me à memória a descrição de Enrique Rojas do Homem pós-moderno. O homem-light, assim o designa Rojas, substitui a ideologia pelo pragmatismo (vai mais uma parceria impúdico-privada?), a ética pela estatística (ah, a difícil escolha entre a utilização de séries curtas ou de séries longas!), a moral pela neutralidade e subjectividade (responsável, ele?), o compromisso pela alteração permanente de circunstâncias (“o mundo mudou”), os valores orientadores da conduta pelo hábito social e pela moda (tens feito jogging, José?). Para além do consumismo e do hedonismo (TGV, sempre e em qualquer circunstância!), Rojas identifica a permissividade e o relativismo como traços característicos do homem-light. O relativismo impõe a substituição da verdade pela utilidade face aos propósitos do mensageiro (ajuda externa, jamé!). O discurso tem o valor dos interesses de quem o profere o que, se bem virmos, é uma forma do mais puro absolutismo. Na verdade (termo que uso intencionalmente), não existe nada mais absoluto do que a afirmação de que tudo é relativo. A permissividade é o seu par indissociável. No momento em que tudo se torna relativo, tudo passa a ser permitido (os equívocos não se corrigem, negoceiam-se; a mentira converte-se em alteração metodológica; Teixeira dos Santos passa a ser a marca registada de um capacho complacente).  Sócrates, protótipo do homem-light, juntou à sua insustentável leveza a circunstância do poder. E isso converteu-o num very-light. Um foguete que sinaliza um percurso feito na contramão da realidade, indiferente à noção de limite. Infelizmente, foi precisamente no limite que, na realidade, a sua pesada herança nos deixou.

Uma vitória perfeita


Rui Rocha,

O Futebol Clube do Porto alcançou o título de campeão de forma justa e inquestionável. Mais do que isso, analisada na óptica dos interesses portistas e, sobretudo, de Pinto da Costa, esta é uma vitória perfeita. Desde logo, constitui a reafirmação de uma hegemonia que poderia estar ameaçada por um Benfica que, na época passada, parecia ter encontrado a equipa e a liderança necessárias para uma afirmação duradoura. Para além disso, tem o valor de ser conquistada por um treinador sem currículo e sem experiência. Depois do mau desempenho portista na época anterior, Villas Boas constituiu uma aposta pessoal de Pinto da Costa de alto risco. Confirma-se agora o seu elevado retorno, contra todo o cepticismo inicial. O treinador de Playstation derrotou o autoproclamado catedrático da bola. E deixou-o a uma distância a que só o Sporting está (ai de mim) habituado. Mais, esta foi uma época em que o Futebol Clube do Porto humilhou o Benfica no confronto directo. Cinco a zero em casa e vitória na Luz são coisa para, só por si, encher a época a um dragão. Acresce a este quadro a possibilidade de celebrar o título na Luz, nos bigodes de Luís Filipe Vieira. E, quando seria difícil imaginar melhor enquadramento, eis que o Benfica se encarrega de proporcionar um contexto ainda mais favorável. Apagar as luzes e ligar o sistema de rega introduz na festa azul e branca um ingrediente adicional de guerrilha que Pinto da Costa muito aprecia. Para além da superioridade manifestada em campo, pode agora explorar a inferioridade de que o Benfica deu provas  depois de o jogo acabar. A ideia de um clube que luta contra tudo e contra todos aí está prontinha para ser explorada. O já tradicional frango à Roberto não foi, por isso, o único tiro no pé benfiquista da noite passada. A somar a tudo isto, face à exibição do guarda-redes encarnado, o Futebol Clube do Porto parece ter já alguns Robertos de avanço na preparação da próxima época. Tudo somado, creio que nem em sonhos o líder portista teria imaginado tantos motivos para comemorar.

Zapatates e Socratero (ou talvez não)


Rui Rocha,

O Presidente do Governo espanhol, Rodriguez Zapatero, anunciou hoje que não será o candidato do PSOE nas eleições legislativas que terão lugar em 2012. Nos últimos meses, várias vezes foram salientadas as semelhanças de percurso entre Sócrates e Zapatero. Os líderes dos dois partidos socialistas ibéricos mantiveram, de facto, uma relação difícil com a realidade, negando a evidência do descalabro da gestão governativa. Ambos protagonizaram uma visão despesista do Estado, mais orientada para a satisfação de clientelas do que para os reais interesses da população. Um como outro proclamaram-se, de forma cínica e com evidente falta de pudor, como defensores do Estado Social. Isto, enquanto os seus governos iam minando, na prática, a viabilidade do próprio modelo. Se o percurso foi semelhante, importa neste momento reconhecer algumas diferenças plenas de significado. Desde logo, Zapatero, apesar de renitente, foi muito menos teimoso e imprevidente do que Sócrates na abordagem à crise. Há precisamente um ano atrás, a Espanha tomou e executou decisões de corte da despesa classificadas, à época, como muito violentas. Sócrates assobiou para o ar, convencido de que o tempo remediaria o desconcerto. Perdeu tempo e comprometeu definitivamente a confiança dos mercados. Neste momento, Portugal afunda-se e a Espanha começa a ver luz ao fundo do túnel. A outra diferença fundamental relaciona-se precisamente com a forma escolhida para abandonar o poder. Zapatero renuncia. Sócrates permanece incrustado na sua irredutibilidade. Zapatero convenceu-se de que a quebra de confiança do eleitorado espanhol o impede de protagonizar uma solução para problema. Desta forma, permite ao PSOE e à sociedade espanhola trilhar o caminho da renovação política. Quanto a Sócrates, tornou-se ele próprio num problema sem solução. Indiferente ao facto de ser o principal factor de bloqueio da situação política, mantém o PS refém da sua liderança e insiste numa visão unipessoal de irresponsabilidade ilimitada da democracia portuguesa. 

Apaguem a luz


Rui Rocha,

Hoje, o INE veio confirmar o que já se sabia. O buraco do BPN foi nacionalizado. Por isso, as responsabilidades têm que estar inscritas no Orçamento de Estado. O Ministro das Finanças sabe disto melhor que ninguém. Apesar disso, para além de ter garantido aos portugueses que não lhes sairia um cêntimo do bolso, tentou empurrar a inscrição orçamental com a barriga. Podia e devia tê-lo feito em anos anteriores. Agora, foi obrigado a fazê-lo para o ano de 2010. No que diz respeito às empresas públicas de transportes, trata-se de caso claro de desorçamentação. A partir de certa altura, optou-se por financiar a sua activiadade por via de endividamento directo garantido pelo Estado. As responsabilidades estão lá na mesma. A diferença é que esse expediente permitia retirar do Orçamento de Estado as transferências necessárias. Por isso, a argumentação de Teixeira dos Santos é, mais uma vez, uma vergonha. Queixa-se o Ministro de alteração de regras. Na verdade, está na posição do futebolista sarrafeiro que passou o jogo a distribuir cartuchada. O árbitro foi sendo complacente. A certa altura, perante mais uma entrada dura, decidiu-se finalmente por mostrar o cartão amarelo. Teixeira dos Santos, em vez de estar calado, dedica-se agora a esbracejar, dizendo que o cartão é injusto porque já fez outras entradas iguais ao longo da partida. O ponto fundamental é que, quer no caso do BPN, quer no do buraco das empresas públicas de transportes, a responsabilidade existe e os portugueses vão ter que a pagar. Tal como vai acontecer relativamente às parcerias público-privadas. Chegado à governação, o Professor de Finanças decidiu converter-se no Professor Mandrake. O dia de hoje marca o fim da ilusão. Sócrates e Teixeira dos Santos ficarão na história de Portugal por terem protagonizado um projecto consumado de co-incineração das contas públicas.

 

E que tal apresentarem alternativas?


Rui Rocha,

O discurso oficial e oficioso do PS passa pela descredibilização de Passos Coelho e por exigir que este apresente alternativas. É verdade que o PSD e o seu líder devem ganhar em consistência se quiserem aparecer aos olhos dos eleitores como solução para a situação a que o governo do PS nos conduziu. Todavia, esta linha de argumentação parece muito pobre quando analisada pelo seu valor intrínseco. O interessante (diria mesmo, o imperativo democrático) seria que o PS esclarecesse se o que tem para oferecer ao país é mais do mesmo (líder, discurso, prática, PEC) ou se a sua proposta inclui, para além de um indispensável acto de contrição, uma mudança (de política, de programa, de atitude). No fundo, antes de interpelar a oposição, os socialistas deveriam clarificar se pretendem, ou não, apresentar-se como alternativa ao desastre da sua própria governação. Caso contrário, para o eleitor típico do bloco central, a questão fundamental nas próximas eleições consistirá em correr o risco de comprar gato por lebre (Passos Coelho) ou optar pela certeza de receber gato por gato (José Sócrates). Posta a questão nestes termos, escolher não parece, apesar de tudo, muito difícil.